Prefeito da Cidade do México vira figura nacional

Sean Mattson
San Antonio Express-News
Guadalajara, México

Uma cena comum nos dias que correm --centenas de manifestantes marchando com cartazes ostentando a foto do político mais popular da nação, exigindo que seu herói se torne candidato à presidência, e não um prisioneiro.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times

Direita mexicana pode alterar a lei para impedir que Obrador, popular prefeito esquerdista, se candidate à presidência
Pelo menos na Cidade do México é assim.

Mas, enquanto isso, o mais recente protesto de parar o trânsito ocorreu no último sábado (5/3), a mais de 300 quilômetros da capital, nessa cidade de quatro milhões de habitantes que é a capital do Estado de Jalisco.

Isso porque as ações do prefeito da Cidade do México, como as já lendárias coletivas com a imprensa às 6h, as obras públicas em grande escala e a distribuição de dinheiro vivo aos cidadãos mais velhos, já estão repercutindo entre mexicanos por toda parte.

E eles querem o mesmo tratamento que os da capital.

"No Distrito Federal (Cidade do México), os mais velhos têm direito a transporte público de graça, e nós também queremos isso em Jalisco", diz Jose de Jesus Medina, 84 anos.

Aposentado pensionista que leva para casa magros rendimentos em pesos equivalente a US$ 150 (R$ 420) por mês, Medina poderia ver sua renda subir quase 50%, se ele recebesse o mesmo auxílio-alimentação mensal que o prefeito da Cidade do México Lopez Obrador garante aos habitantes com mais de 70 anos.

"Nossos salários sempre foram baixos, e quando nos aposentamos praticamente viramos mendigos", diz Medina, que trabalhou numa fábrica de farinhas por 35 anos. Na marcha de protesto em Guadalajara, ele caminhou quase dois quilômetros com outros manifestantes no sábado.

E Andres Manuel Lopez Obrador, freqüentemente conhecido pelas iniciais AMLO, está liderando a lista de políticos que almejam a candidatura à presidência em 2006, como dizem as pesquisas.

Mas ele poderá ser preso antes do final do ano, acusado de ignorar uma ordem judicial para suspender a construção de uma estrada de acesso a um hospital em terras de propriedade contestada.

O Congresso mexicano poderá retirar o direito à imunidade que o impede de ser processado, e provavelmente irá votar essa questão logo, embora os legisladores estejam meio indecisos quanto à essa medida explosiva.

Todo esse debate operou maravilhas para o Partido Democrático Revolucionário, ou PRD, de Obrador, cuja candidatura ainda não é oficial, e que conseguiu rejuvenescer a esquerda politicamente fragmentada em enclaves conservadores como Guadalajara.

Os partidários de Lopez Obrador dizem que as acusações são maquinações políticas do governo do presidente Vicente Fox e do partido governamental de direita, o Partido da Ação Nacional, ou PAN.

"Se no passado o sistema político nacional utilizava balas de chumbo para se livrar dos adversários em campanha para presidente, hoje em dia nós vemos que as instituições públicas federais é que disparam, se é que deixaram mesmo de usar as balas de chumbo", disse Jose Antonio Magallanes, presidente do PRD em Jalisco.

O PRD está tentando suavizar sua imagem de esquerdista incendiário em Guadalajara, e não foi o responsável pela organização da marcha no sábado. O protesto foi comandado por uma coalizão recém-formada de agricultores socialistas, professores ativistas, ex-militantes do Partido Comunista e membros de partidos que perderam sua condição oficial em 2000, por não terem alcançado o índice de 2% dos votos.

Mas alguns manifestantes não estão ligados aos políticos.

"É uma injustiça o que estão fazendo com ele", disse Rita Banuelos, 40 anos, professora do ensino médio que trouxe os cinco filhos para a marcha.

"Nós acreditamos em Lopez Obrador porque cremos que no México contamos com um político honrado", disse Ruben Castillos, 72 anos, refletindo a tendência comum entre os partidários de AMLO de não considerar a aversão que o prefeito tem à transparência nas leis e de não levar em conta as imagens amplamente exibidas no ano passado, que mostravam assessores do prefeito recebendo supostas propinas em dinheiro.

Embora o comparecimento à marcha de Guadalajara tenha sido acanhado, se comparada à multidão de partidários de Obrador que sempre protestam na capital mexicana, Javier Hurtado, professor de ciências políticas da Universidade de Guadalajara que é sempre crítico do populismo do prefeito da Cidade do México, diz que não há dúvidas de que muitos habitantes de Guadalajara encontraram nele seu salvador político.

"Por aqui há uma espécie de admiração 'no armário' por Lopez Obrador", diz Hurtado. "É como se eles tivessem vergonha de ir às ruas, mas lá no fundo o coração dessas pessoas está com ele." Obrador, político de esquerda é favorito para eleição presidencial Marcelo Godoy

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