Estréia "Palíndromos", o novo filme perturbador de Todd Solondz

Por Bob Strauss e Evan Henerson
Los Angeles Daily News

Os filmes de Todd Solondz nunca são fáceis.

"Happiness" (Felicidade, 1998) trazia um pedófilo simpático; já "Storytelling" (Histórias Proibidas, 2001) mostrava horríveis conflitos de família e étnicos, enquanto "Welcome to the Dollhouse" (Bem Vindo á Casa das Bonecas, 1995) tinha uma princesa "geek" (nerd e viciada em informática) encarnada por Dawn Wiener, entre outros elementos irritantes. Solondz maneja os seus temas explosivos com um humor malicioso, mas, ao mesmo tempo, quase sempre o cineasta mostra estar preocupado com a necessidade de examinar em profundidade as questões abordadas nos seus filmes e o preço emocional que os seus personagens atordoados pagam ao lidarem com elas.

O filme mais recente deste escritor-diretor, "Palindromes" (Palíndromos, ou seja, palavras, números ou frases que podem ser lidos indiferentemente da esquerda para a direita ou vice-versa - ex: Amor / Roma) trata da gravidez na adolescência e do aborto, da primeira com certa compaixão, do segundo com um poderoso desprezo pelos dois desfechos possíveis da questão.

Contudo, por baixo do sensacionalismo que predomina na superfície, há uma vontade subjacente de questionar precisamente o conceito de "escolha", e, em particular, se pessoas muito novas seriam ou não capazes de exercê-la apropriadamente.

Solondz vai tão longe nesta questão que ela acaba tornando-se pura provocação. E não há dúvida de que ele a teria aprofundado ainda mais se a sua escolha artística chave não chamasse tanto a atenção.

Nossa personagem central, Aviva Victor, de 13 anos, é encarnada por sete atores de tamanhos, raças, idades diferentes e, num caso, do outro sexo. Jennifer Jason Leigh e Sharon Wilkins são duas mulheres adultas que descrevem Aviva; os atores mais novos que atuam no papel desta personagem, e cujas idades variam de 6 a 14 anos, são todos novatos na profissão.

De maneira notável, Solondz consegue extrair uma personagem consistente da atuação dos seus numerosos intérpretes. Ainda assim, a estranheza da representação acaba amenizando o seu trauma, e, pela primeira vez num trabalho de Solondz, algo semelhante acontece também com o filme como um todo.

Aviva é um doce de menina sedenta por amor cujo único objetivo é ter um filho. Quando ela fica grávida, os seus pais, um casal de suburbanos do New Jersey (Ellen Barkin e Richard Masur), insistem vivamente para que ela dê um fim nisso. Pouco disposta a se deixar dissuadir de realizar o seu sonho, Aviva pega a estrada em busca de um novo pai que queira recebê-la.

Naturalmente, no decorrer da busca picaresca que motiva a sua escapada, ela cruza com uma galeria de personagens típicos do universo de Solondz, repleta de indigentes carentes e de cruéis aproveitadores. A parada principal na aventura de Aviva tem por nome Sunshine residence (residência Sol que brilha), onde Mama (Debra Monk) transformou uma dúzia de meninos fortemente necessitados que ela adotara, em integrantes de uma banda pop devotada à celebração de Jesus, enquanto o homem da casa (Walter Bobbie) trama o assassinato de médicos que praticam abortos. Nem é preciso dizer que Aviva, ao conhecer este homem, se convence de que ele é a sua alma gêmea, no que ela comete um patético engano.

Como sempre com Solondz, o humor zombeteiro vai crescendo até alcançar extremos, transformando-se num autêntico desprezo por muitos dos personagens, e então passa alegremente dos limites. Contudo, de maneira bastante surpreendente, ele põe em evidência sentimentos pungentes, muito humanos, em muitos deles. Ainda assim, tudo isso transmite a impressão de que ele está atirando em alvos fáceis demais, por mais que se reconheça o fato de que Solondz aborda os dois lados do debate sobre o direito de viver com uma indiferença bastante equilibrada.

No que diz respeito ao título do filme, Aviva, as muitas formas que esta personagem adquire sugerem que Solondz a considera emblemática das mulheres em geral, ou até mesmo do ser humano, que enfrentam imensas dificuldades quando precisam lidar com a necessidade de amor e com a ubiqüidade da vigilância que paira sobre elas. Embora ele o utilize de maneira espetacular (no que ele realiza uma verdadeira proeza), o truque não torna nem a história nem seu significado, tão bons assim.

Alexander Payne, o diretor de "Sideways - Entre Umas e Outras" (2004), já havia abordado a mesma questão por meio de um humor igualmente corrosivo no seu primeiro filme, "Citizen Ruth" ("Ruth em Questão", 1996). Apresentando a sua visão de maneira bem mais convencional se comparado com Solondz, Payne desfechava naquele filme socos culturais precisos que tinham endereço certo e acabavam em sangue. "Palíndromos", por sua vez, nos faz esfregar a cabeça num ponto que parece ser uma picada dolorida de pernilongo.

Por certo, o diretor Todd Solondz é excêntrico e controverso, mas é justamente isso que o torna interessante.

Primeiro objetivo: mantenha-se em vida. Segundo objetivo: Evite humilhações.

Então, faça um outro filme, mais um, e assim por diante.

"Estou com sorte por ter feito isso e por ter sobrevivido até agora", comenta Todd Solondz, o escritor-diretor de "Palíndromos". "Com tudo o que eu faço, se eu consigo sobreviver à experiência e evitar humilhações, então isso quer dizer que estou me saindo muito bem e dou-me por satisfeito. O resto não tem importância".

Claramente, estes são longe de serem objetivos dos mais elevados para um autor do tipo "você ama detesta" como Solondz, cujos filmes anteriores, "Bem Vindo á Casa das Bonecas", "Felicidade" e "Histórias Proibidas", examinaram sucessivamente adolescentes perseguidos (e perseguidores), pedófilos até que simpáticos, e os membros miseráveis e deprimidos da várias famílias que formavam uma verdadeira galeria de deficiências humanas.

Por outro lado, independente de ele ser ou não popular, Solondz conhece profundamente o seu produto.

"Certas pessoas me perguntaram: 'Você gostaria de tentar fazer um filme que seria mais popular e que disporia de um orçamento bem maior?'. Pois eu simplesmente não consigo pensar nesses termos", diz. "Isso porque qualquer um dos meus filmes pode faturar, nas bilheterias, US$ 10 milhões, US$ 20 milhões ou US$ 50 milhões. Dou-me por satisfeito se eles rendem um bom dinheiro, mas isso não fará de mim uma pessoa mais feliz. Neste momento, estes filmes estão sendo exibidos em praticamente todos os 50 Estados americanos e no mundo inteiro. Então, por que eu deveria me queixar?"

"Palíndromos", cuja pré-estréia (nos Estados Unidos) está agendada para esta sexta-feira (22/04), é uma espécie de conto de fadas, porém, de modo algum aconselhável para crianças. A busca de Aviva Victor que, aos 13 anos, está decidida a se tornar mãe é uma odisséia dos tempos modernos que explora diversas facetas do debate sobre o aborto.

Aviva é prima da heroína de "Casa das Bonecas", Dawn Wiener, que, segundo informa o cineasta, cometeu o suicídio. Solondz também esperava poder contar com Heather Matarazzo, para um papel pequeno em "Palíndromos", mas isso não foi possível.

O truque estranho, "palindrómico" mesmo deste filme, reside no seu elenco - ou seja, mais precisamente na distribuição dos papéis. Sete atores (seis meninas e mulheres, um menino) de diversas raças e idades encarnam Aviva. Eles se sucedem de uma cena à outra, e nunca retornam. A personagem continua a ter 13 anos ao longo da série de eventos de uma semana de duração que o filme retrata, mas Aviva adquire sucessivamente a forma de uma adolescente latina, de uma mulher negra já bastante crescida, de uma ruiva trajando um bocado de suspensórios, e até mesmo, numa cena, de Jennifer Jason Leigh.

"Quando utilizei uma menina negra para iniciar o filme - com Ellen Barkin no papel da sua mãe - eu o fiz porque eu precisava chamar a atenção do espectador para o fato de que algo diferente estava acontecendo ali", explica Solondz. "Então, você a vê sob os traços de uma latina, e pouco depois ela se torna uma ruiva. Quando ela se torna uma negra avantajada, ela transforma-se em Gulliver ao lado dos homenzinhos da terra de Lilliput. E o filme traz outras referências aos contos de fadas".

A partir do momento em que o espectador consegue acostumar-se com a estranha distribuição de papéis, Solondz acredita que ele consegue então encarar as questões morais levantadas pelo filme, sobre as conseqüências que resultam de certos atos. Os médicos que fazem abortos estão assumindo uma posição, assim como fazem as pessoas que tentam assassiná-los. Aviva - uma personagem que supostamente deveria ser "totalmente simpática" - encontra-se com os dois.

"Eu penso que, num nível profundamente humano, todos nós precisamos acreditar que estamos fazendo a coisa certa, e travando um combate justo", diz Solondz, "e que mesmo que você esteja matando médicos que praticam abortos, você faz isso por achar que está salvando milhões de bebês que ainda não nasceram. Existe uma lógica em ação em tudo isso. Não é apenas uma coleção de casos problemáticos".

"A decepção com si mesmo e o narcisismo são mecanismos de sobrevivência, e o meu objetivo não é de lhe dar a minha opinião, dizendo-lhe que a sua posição está certa ou errada, e sim de fazer com que você a reexamine e a questione à luz deste drama que eu pus em movimento".

Decididamente, "Palíndromos" não pretende ser um filme político, prossegue Solondz, que salienta que ambos os lados poderiam reivindicar que o filme sustenta e conforta o seu ponto de vista. "Eu estou à procura de um público de mente aberta. É a única coisa que eu posso pedir", diz. "Além disso, uma mente liberal certamente não é a mesma coisa que uma mente aberta".

"Posso dizer com toda certeza que este meu filme tem sido exibido em festivais de cinema nos mais diversos lugares do planeta, e que em todos esses festivais, exibições especiais e tudo mais, sempre poderá haver algum cristão conservador para se manifestar. Você tem liberais que dizem que este filme é pró-vida, e ainda cristãos que me criticam em sites na Internet por ser pró-aborto. Eu manobrei no sentido de frustrar todo mundo".

Ele pronuncia essas palavras sem transmitir qualquer sentimento de ironia. Todd Solondz, com rosto de criança e trajando roupas de cores vivas, gagueja e raramente cruza olhares com um entrevistador. Os modos do cineasta despontam como os de uma pessoa meio desajeitada, mas não parecem resultar de um sentimento de completo constrangimento.

Quando a equipe empreendeu uma turnê pelo circuito dos festivais para promover "Palíndromos", Ellen Barkin, que encarna Joyce, a mãe de Aviva, disse ser ela - e não Solondz - a pessoa que constantemente aparecia como "a mais esquisita" do pedaço. "Palíndromos" foi exibido nos festivais de Nova York, Telluride (no Colorado) e Veneza, enquanto os filmes precedentes de Solondz haviam sido aclamados nos festivais de Sundance e Cannes.

E que ele seja ou não estranho, popular ou diferente, Barkin garante que ela nunca havia trabalhado com um diretor tão bom e que ela nunca havia sentido um orgulho tão grande por estar participando de um projeto.

"Para mim, foi simplesmente o máximo, o topo da montanha", diz Barkin, "e eu não teria conseguido alcançar este nível sem o Todd. Ele é tão amável, bondoso, humano e sensível, além de ser capaz de intuir rapidamente tudo o que está acontecendo. Ele é um homem muito sensível, e eu acho que ele faz filmes muito sensíveis".

Sensível? Um homem que faz filmes onde os personagens arrancam lágrimas uns dos outros de maneira sistemática e aviltante?

Absolutamente, responde Barkin.

"Aquela cena em 'Felicidade' na qual o fabuloso Dylan Baker está sentado no sofá com o seu filho, e que você se emociona profundamente pela sua situação", exemplifica Barkin. "Ou neste filme quando Stephen Guirgis bate a sua cabeça contra a parede e diz: 'Quantas vezes mais vou poder renascer! ', e então você se emociona com ele. Eu não sei como um diretor consegue realizar uma coisa dessas".

PALÍNDROMOS - (Sem classificação: sexo, violência, linguagem) Estrelando: Ellen Barkin, Debra Monk, Jennifer Jason Leigh, Sharon Wilkins, Stephen Adly Guirgis. Diretor: Todd Solondz. Duração: 1h40. Resumindo: Mais um ataque incomum contra os valores da classe média perpetrado pelo diretor de "Histórias Proibidas". O que o torna ainda mais diferente do que de costume é o fato de seis atrizes diferentes e um menino encarnarem a sua jovem heroína. Em seu novo filme, o diretor de "Histórias Proibidas" aborda as questões da gravidez na adolescência e do aborto de maneira desconcertante e provocante Jean-Yves de Neufville

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