EUA lutam para definir papel no combate ao genocídio em Darfur

Margaret Talev
Em Washington
Do McClatchy News Service

Sete meses depois do presidente Bush ter declarado que um conflito em andamento em uma área remota da África representava um genocídio, vários membros do Congresso estão pressionando para uma intervenção mais significativa dos Estados Unidos na região de Darfur, no Sudão.

Eles dizem que o Ocidente tem uma obrigação moral de fazer mais para impedir as morte, estupros, destruição e escassez de alimentos que deixaram 180 mil pessoas ou mais mortas e deslocou mais de 2 milhões de outras.

Pelo menos 10 propostas apresentadas na Câmara e no Senado tratam desta luta de 2 anos, que colocou árabes contra negros não-árabes, nômades contra agricultores, muçulmanos contra muçulmanos, e colocou de joelhos sua economia agrícola.

Entre elas estão fundos de ajuda humanitária de emergência inseridos no projeto de lei orçamentária suplementar para a guerra no Iraque, mas também idéias mais controversas: uma proposta de suspensão da negociação de ações de empresas internacionais que têm negócios no Sudão. Pedidos para criação de zonas de exclusão aérea, e para pressionar a ONU e a Otan a enviarem milhares de soldados. A autorização para o uso de força militar americana.

Mas persiste uma falta de consenso sobre quão profundamente os Estados Unidos devem se envolver na crise humanitária.

As forças armadas já estão dispersadas demais devido ao seu envolvimento no Iraque e no Afeganistão, e outras preocupações envolvem o risco de intervir em outro conflito islâmico em solo estrangeiro, a falta de pressão sobre a economia americana ou interesses de segurança nacional em Darfur, e a resistência de países como China e Rússia -membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, com poder de veto- com investimentos de petróleo e armas ligados ao Sudão.

"Nós, os Estados Unidos, temos que ser realistas sobre os limites de nossa influência nesta parte do mundo", disse Christopher Preble, diretor de estudos de política externa no Instituto Cato. "Nós temos ameaças muito reais de terroristas colocando as mãos em armas nucleares. Apesar do que está ocorrendo em Darfur ser também uma preocupação muito séria, ela não é uma ameaça muito séria aos Estados Unidos."

"Eu não acho que as pessoas sejam reeleitas falando sobre o que os Estados Unidos não podem fazer", disse Preble. "Mas eu acho que se você olhar sobre o tipo de pressão que estamos vendo imposta às forças armadas no momento, nós temos que ter consciência de que nosso poder não é ilimitado. Nós temos que priorizar."

Eric Reeves, um professor do Smith College que passou vários anos de licença como pesquisador em tempo integral no Sudão, disse: "Nós estamos falando sobre um país que está bem no coração da África, em uma fronteira volátil entre a África islâmica e não-islâmica, entre a África árabe e a África negra no sentido racial".

"É muito possivelmente um barril de pólvora. É motivo para nós questionarmos seriamente a sabedoria geopolítica de discutirmos o assunto mas não fazermos realmente o que precisa ser feito."

O conflito começou em fevereiro de 2003, quando rebeldes não-árabes na região atacaram as forças do governo de liderança árabe, protestando contra políticas que viam como evidência de opressão e tratamento de segunda classe ao seu povo.

A resposta oficial do governo foi seguida por ataques disseminados e devastadores contra aldeões, realizados por milicianos que acredita-se tenham sido armados e apoiados pelo governo em Cartum.

Apesar das estimativas imprecisas, os números mais recentes da ONU sugerem que pelo menos 180 mil pessoas morreram no conflito; alguns ativistas dizem que o número é duas vezes maior.

O governo Bush tem caminhado sobre uma linha cuidadosa -abastecendo os esforços de alimento e ajuda humanitária internacionais para a região, apoiando o monitoramento pela União Africana de um cessar-fogo de um ano que ainda não provou ser eficaz, e pedindo publicamente ao governo sudanês para reprimir os ataques das milícias -mas resistindo a uma intervenção unilateral. Os Estados Unidos também autorizaram o Tribunal Penal Internacional a processar os criminosos de guerra em Darfur, ao concordar no mês passado em se abster em vez de vetar uma resolução da ONU para transferir os casos para Haia.

O vice-secretário de Estado, Robert Zoellick, percorreu Darfur no início deste mês e se encontrou com autoridades do governo sudanês. Mas a secretária de Estado, Condoleezza Rice, ainda precisa visitar Darfur ou apresentar planos para Darfur em detalhes, e uma audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado na quinta-feira (28/04) sobre Darfur, que teria Rice como depoente chave, foi cancelada.

O próprio Congresso está dividido sobre como proceder. Vários projetos de lei sobre Darfur na Câmara e no Senado ainda precisam ser debatidos.

Membros de ambos os partidos estão divididos sobre a validade de aumentar as sanções, abrir uma Caixa de Pandora ao intervir nos mercados de capital, ou agir independentemente da ONU dada as conseqüências negativas do ataque ao Iraque.

Em uma declaração na semana passada, o líder da maioria no Senado, Bill Frist, republicano do Tennessee, um médico que visitou campos de refugiados em Darfur, condenou a morte de um funcionário da Usaid que percorria a região.

Ele pediu para a ONU reconhecer a crise como genocídio como fez os Estados Unidos, e para exercer mais pressão.

"A cada dia que o mundo deixa de agir, Cartum se aproxima cada vez mais de sua meta genocida. E a cada dia que o mundo deixa de agir, isto aumenta sua vergonha", disse Frist.

"O governo em Cartum não deterá as mortes até enfrentar uma forte pressão internacional. Nós não podemos deixar isto acontecer. Nós não podemos abandonar a população de Darfur. Ela está implorando por nossa ajuda. Eles estão implorando por suas vidas."

Mas Frist pode não ser tão inflexível em relação ao uso de pressão americana, particularmente por meio de Wall Street. Ao ser perguntado sobre sua posição sobre a legislação específica, incluindo a idéia de retirar do mercado certas ações até o fim do genocídio em Darfur, o porta-voz de Frist, Nick Smith, disse apenas: "Tais medidas precisam passar pelo processo apropriado do comitê".

Smith disse que Frist "continua defendendo fortemente a importância de maiores sanções da ONU e a pressão para que a ONU defina a situação como genocídio, para que a comunidade global possa agir de acordo".

De qualquer forma, ativistas de direitos humanos disseram que a União Africana, com cerca de 2.200 soldados em Darfur a esta altura, carece de pessoal, equipamentos e mandato para cumprir seu trabalho.

As atrocidades continuam e a fome, doença e imigração indesejada para países vizinhos são problemas crescentes.

Até janeiro, autoridades americanas estavam preocupadas em como suas exigências em relação a Darfur poderiam ameaçar as negociações com o governo sudanês para colocar um fim a um conflito separado, que já durava 21 anos, entre muçulmanos no norte do Sudão e uma minoria cristã no sul, que já tinha matado 2 milhões de pessoas.

Desde o acordo de paz, à medida que Cartum buscava bilhões de dólares de outros países para ajudar na reconstrução, alguns estavam esperançosos em ver uma repressão do governo à violência em Darfur.

"Mas isto foi em janeiro, e já estamos em abril", disse a pesquisadora sudanesa Jemera Rone, do Human Rights Watch. George El Khouri Andolfato

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