Segundo mandato de Bush tem início inesperadamente problemático

David Westphal, em Washington
McClatchy News Service

Após três meses de segundo mandato presidencial, George W. Bush se vê em uma posição na qual não esperava estar - prejudicado pelos altos preços da gasolina, pelo declínio nas pesquisas de opinião e pela luta para recuperar o ímpeto da sua prioridade número um, a reforma do Social Security (a previdência social dos EUA).

Apesar de ter derrotado o democrata John Kerry no outono passado de uma forma que fez com que muitos republicanos falassem de um segundo mandato grandioso, Bush tem se mostrado incapaz de assegurar aquela espécie de maioria sólida dos índices de aprovação popular com a qual contaram, durante mais de meio século, todos os presidentes de segundo mandato que o antecederam.

Começando com Harry Truman, as pesquisas Gallup realizadas dois meses após a posse do segundo mandato sempre revelou índices de aprovação popular no mínimo iguais aos 56% obtidos por Ronald Reagan em 1985. Comparativamente, apenas 45% dos norte-americanos aprovaram o desempenho de Bush no período correspondente, segundo o Gallup.

O especialista em pesquisas de opinião John Zogby diz que esse início instável de segundo mandato já faz com que Bush pareça algo impotente. "É difícil enxergar de onde o presidente retirou um mandato na última eleição", afirma Zogby.

Mesmo assim, Zogby e outros especialistas dizem que mesmo um Bush historicamente fraco poderia conseguir grandes realizações no segundo mandato. O presidente já obteve significantes vitórias neste ano com a aprovação no Congresso de leis relativas a ações de classe e falências. Medidas importantes referentes ao setor de energia poderão em breve ser submetidas ao Legislativo. E poucas pessoas estão prontas para vetar a sua problemática proposta para o Social Security.

"Muita coisa pode mudar, e mudar rapidamente, nos próximos anos", disse o chefe de pesquisa do Gallup, Frank Newport, ao avaliar a situação política de Bush.

O próprio Bush sofreu uma derrota ao procurar reverter a sua situação, quando deu uma rara entrevista coletiva à imprensa, no horário nobre de televisão, a fim de apresentar uma nova e arrojada proposta para o Social Security que limitaria drasticamente os futuros aumentos de benefícios para a maioria dos aposentados.

Ele também desprezou os seus últimos índices de aprovação nas pesquisas. "Vocês sabem, se um presidente tentar governar com base nas pesquisas, ficará como um cão que persegue o próprio rabo", afirmou. "Creio que no final das contas, apresentaremos muitas realizações".

Mesmo assim, a disposição do presidente gravar o seu nome em um plano para o Social Security que envolveria reduções maciças de benefícios foi vista por muitos como um reconhecimento por parte de Bush de que a sua prioridade principal enfrenta problemas.

Bush saiu do dia da posse em um movimento ascendente, com a bem sucedida eleição iraquiana elevando o seu índice de aprovação em fevereiro para 57%. Mas depois os preços da gasolina começaram a lhe causar problemas. Quando o ano começou, o preço do combustível mal consistia em uma questão política para os norte-americanos. Mas, segundo o Gallup, em meados de abril essa havia se tornado a prioridade número um para os eleitores.

Na sua coletiva à imprensa, Bush procurou persuadir os motoristas de que entende o problema que os aflige. "Milhões de famílias norte-americanas e de empresários estão sendo prejudicados devido aos elevados preços da gasolina", disse Bush, que admitiu que as soluções que propôs para o problema provavelmente não terão um efeito imediato.

O preço combustível, que subiu cerca de 13 centavos de dólar por litro desde 1º de janeiro, é apenas um dos problemas enfrentados por Bush no campo econômico. O crescimento médio nos três primeiros meses do ano caiu para o ritmo mais lento em dois anos, fazendo com que alguns economistas reavaliassem para baixo as projeções econômicas para 2005. Em abril, a confiança do consumidor desceu para o seu ponto mais baixo desde o outono do ano passado. E, em um grande golpe para a proposta de Bush para o Social Security, o mercado de ações caiu mais de 6% desde o primeiro dia do ano, quando o presidente deu início a um esforço concentrado para obter apoio ao seu plano de contas particulares.

A fragilidade do presidente parece estar se revelando por todo o país - tanto nos Estados vermelhos (republicanos), quanto nos azuis (democratas). Nos Estados que o apoiaram na eleição do ano passado, Bush recebeu avaliações negativas em todas as questões, com exceção do combate ao terrorismo, segundo uma recente pesquisa conduzida por Zogby.

Alguns democratas sentem que Bush está na defensiva. Descrevendo o presidente como "desesperado" e a sua proposta para o Social Security como "fracassada", o líder da minoria no Senado, Harry Reid, de Nevada, disse que Bush "não está habituado a perder".

"Alguém tem que enfiar na cabeça desse homem que a privatização não vai funcionar", afirmou Reid.

Por ora, a economia deslocou a maioria das outras questões, especialmente a guerra no Iraque, para um grau de prioridade mais baixo entre as preocupações dos norte-americanos. Mas, apesar de alguns sinais de progressos no Oriente Médio, o presidente enfrenta também dificuldades quanto ao conflito no Iraque. Dentre os norte-americanos entrevistados, 53% disseram ao Gallup no início de abril que não valia a pena lutar nessa guerra, um índice equivalente ao maior já registrado quando se trata de oposição declarada à guerra.

Bush também se envolveu em uma série de lutas divisivas no Congresso que desviaram as atenções do seu plano relativo ao Social Security - a briga em torno da nomeação de John Bolton para o cargo de embaixador dos Estados Unidos na ONU, uma discussão ética envolvendo o líder republicano na Câmara, Tom DeLay, e a polêmica relativa aos nomes indicados por Bush para o Judiciário.

Apesar desses problemas, os analistas dizem que os números anêmicos do presidente nas pesquisas não se traduzirão necessariamente em problemas políticos no decorrer do seu mandato.

Afinal, se Bush perdeu o impulso pós-reeleição que beneficiou muitos dos seus predecessores, ele também não enfrentou os abismos de impopularidade que afligiram a maioria deles. Segundo a pesquisa Gallup, desde Truman todo presidente, com a exceção de Dwight Eisenhower e John F. Kennedy, apresentaram índices de popularidade mais baixos do que os 45% de Bush.

Além disso, Bush não é exatamente um presidente que se depara pela primeira vez com o problema de presidir um país divido meio a meio. Embora a sua popularidade tenha disparado após os ataques terroristas de 2001, Bush passou grande parte da sua presidência em um nível intermediário de aprovação popular. E, ainda assim, com a ajuda de um congresso de maioria republicana, ele obteve grandes vitórias legislativas nas áreas de reduções de impostos, educação e Medicare (tipo de seguro de saúde federal nos EUA).

O próprio Bush revela poucos sinais de que a sua queda de popularidade o esteja afetando. "Faz muito tempo que não me sinto tão feliz em Washington", disse Bush a editores de jornais em um discurso em meados de abril. "Estou me divertindo".

Segundo Andrew Busch, professor de políticas de governo da Faculdade Claremont McKenna, o percurso acidentado enfrentado pelo presidente neste início de segundo mandato pegou nitidamente a Casa Branca de surpresa.

"Ele definitivamente está passando por um período mais difícil no segundo mandato do que os estrategistas pensaram ser possível", diz Busch. "Mas ainda é muito cedo para afirmar que o presidente fracassará, até mesmo com relação ao Social Security".

Busch afirma que os números do presidente na pesquisa refletem uma "clivagem rígida" entre os eleitores norte-americanos, o que praticamente garante que a sua popularidade oscilará para cima ou para baixo segundo uma margem estreita. Mas ele frisa que isso não quer dizer que o presidente não repetirá os seus triunfos legislativos do primeiro mandato.

"Ele já tirou coelhos da cartola em outras ocasiões", observa Busch. Danilo Fonseca

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