Um novo exame detecta HIV semanas mais cedo

Sarah Avery
Raleigh News & Observer
Em Raleigh, Carolina do Norte

Um teste sofisticado que pode detectar infecções pelo vírus da Aids semanas mais cedo do que as análises padrões utilizadas até agora foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte e da Divisão de Saúde Pública do Estado. A novidade foi anunciada por representantes deste grupo nesta quarta-feira (4/5).

Este teste aprimorado detecta os casos de infecção por HIV quando as pessoas estão na fase mais contagiosa da doença --nos dias que se seguem imediatamente à infecção, quando o vírus se alastra insidiosamente e antes que o sistema imunológico tenha produzido os anticorpos que são "flagrados" pelos testes atuais.

Segundo informam os cientistas, uma detecção antecipada poderia permitir obter menores taxas de casos de infecção, eliminando o extenso intervalo entre o momento da infecção e o do diagnóstico, durante o qual as pessoas, por ignorarem que elas estão infectadas, transmitem o vírus para os seus parceiros sexuais.

"Esta ferramenta vai oferecer uma oportunidade a todos nós de combater a epidemia em tempo real", explicou o médico Leah Devlin, um diretor do sistema de saúde do Estado.

"Nós podemos passar da fase de teste para a etapa de acompanhamento médico que inclui o tratamento, tudo isso no espaço de 48 horas. Isso requer muita energia empenhada, mas eu posso lhes garantir, este novo método vai salvar muitas vidas".

A revista especializada "The New England Journal of Medicine" publicou os resultados desta pesquisa nesta quarta-feira.

Ao testarem 109.250 pacientes entre novembro de 2002 e outubro de 2003, os cientistas identificaram 583 pessoas infectadas pelo HIV por meio apenas do teste padrão de detecção de anticorpos.

Mas quando eles passaram a utilizar o teste mais sofisticado --chamado de teste por ampliação do ácido nucléico-- em todas as amostragens que haviam dado um resultado negativo, eles conseguiram detectar 23 casos adicionais que o antigo teste havia deixado passar.

Além disso, após terem entrevistado os pacientes que haviam sido infectados recentemente, os médicos e os funcionários do sistema público de saúde encontraram outras 18 pessoas --quase todas elas parceiras sexuais dos 23 novos pacientes-- cujo teste se revelou positivo.

Uma mulher grávida também foi identificada como tendo sido infectada recentemente pelo HIV, o que permitiu aos médicos ministrar-lhe um conjunto de remédios anti-retrovirais destinado a impedir a transmissão da doença ao seu bebê, relatou o médico Peter Leone, um dos principais autores desta pesquisa. Desde então, duas outras mulheres grávidas foram testadas como positivas por meio do novo teste, precisou o médico.

"Este novo teste vai permitir ao sistema de saúde economizar várias centenas de milhares de dólares em tratamentos", protegendo crianças da infecção e dos tratamentos subseqüentes aos quais elas teriam de se submeter pelo resto das suas vidas, prosseguiu Peter Leone, que é um professor da universidade da Carolina do Norte e um diretor do serviço de medicina da agência do Estado, responsável pela prevenção do HIV.

Embora a fase experimental estivesse concluída, o Estado continuou a fornecer o teste de ácido nucléico para as pessoas que solicitavam um teste de HIV, precisou Leone.

A Carolina do Norte é o único Estado americano a proceder desta forma, a um custo de cerca de US$ 450.000 (R$ 1.114.425,00) com despesas com material de laboratório --cada teste custando US$ 3,63 (R$ 7,42).

Obter uma redução significativa destes custos tem sido um dos objetivos mais importantes das equipes da universidade e do sistema de saúde pública da Carolina do Norte envolvidas neste projeto.

Os custos elevados constituíam sem dúvida o entrave mais importante para a ampliação da utilização do teste de ácido nucléico para diagnosticar a infecção por HIV.

"A verdadeira inovação provém do fato de que uma grande organização - o departamento da saúde do Estado --estava querendo sair do limbo no qual ela se encontrava e resolveu pôr os seus conhecimentos a serviço da luta contra as opiniões pré-concebidas", explicou Christopher Pilcher, um outro professor de medicina da universidade da Carolina do Norte e um dos principais coordenadores da pesquisa.

Quando o teste foi desenvolvido, há mais de uma década, para permitir aos bancos de sangue detectarem o sangue infectado com HIV em meio as doações, ele acabou sendo considerado também como uma ferramenta para diagnóstico.

Mas os bancos de sangue descobriram que apenas uma entre 1 milhão de doações apresentava sangue contaminado pelo vírus HIV, prosseguiu Pilcher. Estes dados pareciam inviabilizar todo e qualquer benefício obtido com o diagnóstico, levando-se em conta o seu custo.

Mas Christopher Pilcher acrescentou que o grupo da universidade da Carolina do Norte reconheceu que os bancos de sangue selecionavam as pessoas antes do início do processo, descartando doadores potenciais que pertenciam a grupos de alto risco, e, portanto, testando um conjunto de amostragens perfeitamente limpas.

Entretanto, as clínicas que pertencem à rede do serviço público de saúde acabam tratando naturalmente muitas pessoas que fazem parte de grupos de alto risco.

Em particular, os pacientes que estavam à procura de tratamento para doenças transmitidas sexualmente despontaram como alvos preferenciais para pôr em prática o novo teste de detecção do HIV.

Os cientistas da universidade da Carolina do Norte e os funcionários do serviço de saúde pública uniram esforços com o objetivo de desenvolver pesquisas de âmbito mais reduzido, as quais proporcionaram resultados promissores.

"Nenhum de nós havia imaginado encontrar tantos casos quanto os que foram detectados", precisou Peter Leone.

Leone e Pilcher concluíram afirmando que eles seguem acumulando e comparando os dados obtidos com o novo teste, e que eles estão também avaliando se o tratamento é mesmo mais eficiente caso ele for iniciado nos primeiros dias depois da infecção.

Contudo, estes aspectos da pesquisa levarão anos até que os seus resultados sejam realmente comprovados. Teste indica vírus nos primeiros dias, o que pode evitar transmissão Jean-Yves de Neufville

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