No México, não há cura para a "mamãezite"

Dane Schiller
Na Cidade do México
Do San Antonio Express-News

Artrite, gastrite e hepatite são problemas conhecidos em todo o mundo, mas é preciso passar algum tempo perto de mães mexicanas mimando seus filhos adultos para presenciar outra afecção infame: a mamãezite. Embora não seja uma doença, é considerada uma dor, pelo menos quando lemos colunas de conselhos ou escutamos esposas e namoradas queixando-se de como ela impede que seus homens sejam adultos responsáveis.

"Mamãezite" é a gíria para a dependência avassaladora de um homem de sua mãe, que certamente estará em plena exibição neste Dia das Mães. Ela pode ser considerada uma variante do "filhinho da mamãe", mas a mamãezite é diferente - é generalizada, inculcada na cultura latina, e deixa intacto o sentido de machismo do homem.

Não é necessariamente um insulto que chegue a provocar brigas. Alguns homens consideram mimar suas mães, e ser mimados em troca, um dever. "É um estilo de vida", observa Miguel Angel Hernandez, 30, um vendedor de loja de departamentos.

A mamãezite começa assim:

Uma mãe de certa idade mima seu filho cozinhando, lavando e passando roupa para ele - para sempre. O filho trata a mãe como a rainha de sua vida. Ele a vê como a mulher ideal, com a qual ninguém se compara - geralmente em detrimento de sua namorada ou esposa. "Eles fazem tudo o que suas mães dizem, e elas os tratam como bebês", diz Martha Cuellar, 33, uma vendedora de revistas. "Por isso me divorciei; ela dizia até como ele devia criar nossos filhos."

Dolores Prida, que escreve a coluna "Dolores Diz" para a revista "Latina", diz que a mamãezite destrói relacionamentos. "A mamãezite é uma doença séria que pode azedar o leite da bondade humana", explica. "O curioso é que toda mulher tem a cura em suas mãos - ela deveria criar seu filho tendo em mente que um dia ele será o marido de outra mulher, e não o filho mimado de outra mulher."

Seu conselho franco: "Deixe os pratos se empilharem na pia e sirva-lhe macarrão instantâneo num prato de papel. E compre cuecas descartáveis para ele".

Os homens afetados por mamãezite comparam as mulheres com suas mães em tudo, desde o guarda-roupa até a comida, diz Roberto Bermudez Sanchez, um sociólogo da universidade nacional da Cidade do México. As mulheres casadas ficam no banco de trás, "mas pode haver a esperança de que quando a mãe morrer ela consiga assumir seu lugar", ele disse.

A mamãezite é encontrada igualmente entre ricos e pobres. Ela pode atingir as filhas, mas é muito mais comum entre os filhos.

A primeira-dama do México, Marta Sahagun de Fox, moveu um processo no início do mês contra um jornalista que escreveu uma biografia não autorizada que afirma que ela mimou seus filhos a ponto de torná-los incompetentes.

Gloria Gonzalez-Lopez, professora-assistente de sociologia na Universidade do Texas em Austin, disse que idealizar a própria mãe ao extremo pode de fato evitar que alguns homens se tornem independentes e emocionalmente maduros, e pode afetar os relacionamentos românticos. "Então teremos um homem que nunca será capaz de encontrar a mulher certa porque não existe nenhuma mulher na Terra com atributos que se comparem aos de sua mãe", ela disse.

Guadalupe Sosa, 58, uma assistente social que tem dois filhos adultos, afirma que a mamite é uma forma de poder. "É uma maneira de controlá-los", ela diz. "Você lhes dá tudo o que eles querem e eles fazem o que você quiser."

Raquel Dergal, 50, uma professora primária, admite que lutou muito para impedir uma relação de mamãezite com seu filho. "Agora compreendo que o mais importante para meu filho são a mulher e a filha dele", ela diz. Seu filho ainda a visita diariamente. Raquel chegou às lágrimas quando disse que agora aceita que outra mulher possa amar seu filho tanto quanto ela.

A relação de mamãezite é sugerida na canção "Despedida", composta no início da Segunda Guerra Mundial. Ela relata os pensamentos de um soldado que vai para a batalha. A letra fala de um homem que se despede dos amigos e da namorada, mas continua: "Parte meu coração deixar mamãe para trás". Trata-se de uma gíria para a dependência do homem sobre a mãe Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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