George Lucas reflete sobre a jornada e olha a vida além de 'Star Wars'

Rob Lowman
Los Angeles Daily News

No Rancho Skywalker, George Lucas parece quase alegre.

Esta não é a forma como o celebrado diretor geralmente é visto por muitos na imprensa -próximo de impenetrável, como se estivesse vestindo a máscara de Darth Vader. Mas hoje, vestindo seu suéter familiar e camisa branca tradicional, ele disse estar aliviado por ter "cruzado a linha de chegada" com "Star Wars: Episódio III -A Vingança dos Sith", o capítulo final da trilogia "prequel' (que se passa antes), que estréia na quinta-feira.

"Quando você faz algo por 10 anos", disse o diretor, que fez 61 anos no sábado, "você espera ainda estar vivo para terminá-lo e que o mundo não acabe".

Para Lucas (e sem dúvida milhões de fãs), esta é uma conclusão após uma odisséia de mais de 30 anos e um história envolvendo seis filmes.

"Star Wars" (Guerra nas Estrelas) foi algo que ele iniciou em 1971, quando começou a escrever idéias para um filme ao estilo "Buck Rogers" -e o universo continuou expandindo. Quando o primeiro filme (agora chamado de "Uma Nova Esperança") foi lançado em 1977, nem Lucas e nem o estúdio esperavam que seria um sucesso. Mas os primeiros cinco filmes fizeram quase US$ 3,5 bilhões em bilheteria e US$ 9 bilhões em merchandising, e Lucas -olhando para trás- foi esperto o suficiente em manter os direitos desde o início.

Mas o cineasta nunca esperou que "Star Wars" fosse consumir sua vida, e após os três primeiros filmes terem sido concluídos em 1983, com "O Retorno de Jedi", ele deu as costas para a saga. Em vez disso, ele se concentrou em criar seus três filhos adotados e se voltou para outros projetos, como os filmes da série "Indiana Jones".

Ainda assim algo continuava a cutucá-lo. Assim, quando ele achou que seus "filhos já estavam crescidos o bastante" e que ele "dispunha da tecnologia para fazê-la", Lucas decidiu voltar para o início da história -a ascensão e queda de Darth Vader (pense em uma tragédia grega). Ele também tinha 50 anos na época e sabia que "iniciar o projeto quando tivesse 75 anos estava fora de cogitação".

Agora que "o quebra-cabeça está completo", Lucas está satisfeito. "Com sorte as pessoas a verão como uma saga em seis partes e não como um punhado de filmes individuais."

O diretor nem sempre foi tão sereno sobre comandar o império "Star Wars". Nos anos 80, segundo "Easy Riders, Raging Bulls" de Peter Biskind, Lucas sentia que "Star Wars" tinha desviado sua carreira como "O Poderoso Chefão" fez com seu mentor, Francis Ford Coppola, e até mesmo tinha prometido nunca mais voltar à franquia. Lucas até mesmo foi acusado de arruinar o cinema americano, uma acusação que ele rejeita.

Na escola de cinema da Universidade do Sul da Califórnia, nos anos 60, Lucas esperava se tornar um cineasta independente, criando filmes de arte, e seu primeiro trabalho, "THX 1138" de 1971, demonstrava isso. Muitos consideraram o filme interessante mas frio. Encorajado por Coppola a fazer algo mais caloroso, Lucas fez "Loucuras de Verão" (American Graffiti), que por sua vez lhe deu a chance de fazer "Star Wars".

Seu sucesso sem precedente o transformou em um objeto de constante exame pela mídia e pelos fãs. Enquanto trabalhava em "O Retorno de Jedi", ele começou a construir o Rancho Skywalker em uma área isolada de Marin County, um local que o protegeu dos holofotes de Hollywood.

Mas em algum ponto ao longo do caminho -em algum momento enquanto criava seus filhos- Lucas se reconciliou com a franquia, talvez porque sempre tenha amado os personagens.

Matt Stover, que escreveu a novelização de "Sith", disse que quando conversou com o cineasta sobre o projeto, era "quase como se estivesse conversando com outro fã, porque não havia fingimento, artifício. O entusiasmo dele com tudo isto era muito palpável".

Mas mesmo após voltar para fazer a trilogia prequel, que começou com "Episódio I -A Ameaça Fantasma" em 1999, Lucas nem sempre esteve em terreno firme. Em parte porque, como ele reconhece, "diálogo não é a minha área. Eu sou bom com a trama". Mas ele sentiu que ninguém mais poderia contar a história a não ser ele.

Ainda assim, ele concluiu o primeiro rascunho do roteiro de "Episódio II -Ataque dos Clones" apenas uma semana antes do início das filmagens, e então contratou um roteirista para ajustá-lo porque "decidi que era melhor voltar a ser diretor, e precisava de alguém com quem gritar".

Mas em "Sith", Hayden Christensen, que interpreta Anakin Skywalker, viu um Lucas diferente do homem que dirigiu "Clones".

"Ele claramente estava mais empolgado com a história que estava contando. Você podia dizer pela forma como ele chegava ao set todo dia, com uma paixão para fazer a cena direito. Eu acho que talvez havia uma tranqüilidade ou confiança que ele não tinha no último filme, porque ele estava confiante na história, como todos nós estávamos."

Ao dar início aos prequels, Lucas sabia que as coisas seriam diferentes nestes filmes "Star Wars". "Eu aceitei o fato de que eu não era mais uma criança." E apesar de que "queria estilisticamente a mesma coisa" -uma seriado de matinê de sábado e um estilo de ação de um filme dos anos 40- ele sabia que os filmes seriam mais sombrios.

"Não era um arco de história tradicional. Não era uma trama. Era um estudo de personagem. Esta parte é diferente. Eu sabia que isto seria uma visão mais madura da mesma idéia."

Apesar da "Ameaça Fantasma" (US$ 925,5 milhões) e "Clones" (US$ 648,3 milhões) terem atraído os fãs, ambos deixaram uma sensação de algo inacabado. O desfecho viria em "Sith".

Lucas disse que queria terminar a saga porque sentiu que muitas pessoas não entenderam que os filmes "Star Wars" eram na verdade a história de Anakin Skywalker/Darth Vader.

Rick McCallum, o produtor de "Sith", acredita que o filme - feito por US$ 113 milhões - "agradará ao público", incluindo os mais jovens que vibraram com Anakin em "I" e "II" e que querem ver como ele se tornará o maligno Vader.

Um tom mais sombrio levou a uma classificação PG-13 para "Sith" (o que significa que menores de 13 anos só podem entrar acompanhados de pai ou responsável), o primeiro filme da série a não receber uma classificação PG (que apenas sugere o acompanhamento de pai ou responsável, pois pode haver conteúdo inadequado para crianças). Lucas disse que não pôde evitar por causa da história que queria contar.

Ele disse que "Star Wars" sobreviveu porque é "baseada em motivos mitológicos que estão presentes há milhares de anos". Isto reflete o interesse de Lucas no trabalho clássico de Joseph Campbell sobre os mitos, "O Herói de Mil Faces". Lucas disse ter relido o livro após o início de "Star Wars" e considerava o falecido Campbell, cuja obra ele ajudou a popularizar, algo como um mentor.

Atualmente, o diretor defende o trabalho de Daniel Goleman, cujo livro de 1995, "Inteligência Emocional", ajudou a dar forma à missão da Fundação Educacional George Lucas. Em uma declaração no site da fundação (edutopia.org), o cineasta diz que a organização foi criada porque "o ensino público é a base de nossa democracia" e porque se perguntava "por que a escola não pode ser empolgante o tempo todo". Para isto, a fundação produz filmes, livros, uma revista, um boletim eletrônico, CD-ROMs e DVDs para escolas. A inteligência emocional, segundo Coleman, é a idéia de que habilidades como autocontrole, convivência, perseverança e automotivação são mais importantes do que o QI para o sucesso ao longo da vida. Lucas colocou desta forma: "No meu trabalho de direção, nós precisamos de indivíduos talentosos com perícia técnica, mas as habilidades deles de comunicação e trabalho em grupo são igualmente valiosas".

Falando com ele sobre a história de "Star Wars" você verá por que Lucas está interessado no trabalho de Goleman.

"Emocionalmente, nós não mudamos muito nos últimos 3 mil anos. Eu acho que sentimentos enraizados sobre muitas coisas e a necessidade de saber como as coisas funcionam em termos de uma família, em termos de nosso lugar na sociedade (...) são exatamente os mesmos. Este é o motivo por que as pessoas se relacionam com isto. Eu venho dizendo isto desde o início, quando as pessoas diziam (que 'Star Wars') se tratava de espaçonaves (...). Você podia fazer o filme com bigas e contar a mesma história."

Apesar da Lucasfilm continuar produzindo "Guerras Clônicas", uma série em desenho animado derivado da franquia, e planejar eventualmente produzir uma série filmada que transcorrerá entre os episódios "III" e "IV", Lucas disse que está "aguardando ansiosamente para fazer outras coisas na minha vida".

Isto inclui aqueles filmes de arte não lineares que pretendia fazer após a faculdade. Quando pressionado sobre como seriam, ele mencionou apenas "Powaqqatsi: Uma Vida em Transformação" um documentário visualmente estonteante de Godfrey Reggio, que Lucas produziu em 1988. Mas fora isto, o cineasta apenas sorriu e disse: "Eu não sei. Eu não tenho nada ainda".

"Eu nunca teria acreditado que estaria onde estou agora -nem em um milhão de anos, e abordei isto de forma completamente errada", disse Lucas, que será homenageado no Festival de Cannes, onde "Sith" fará sua estréia mundial e ele receberá um troféu pelo conjunto de sua obra.

"Eu estava seguindo na direção oposta. De alguma forma acabei aqui. É assim que é a vida. Você segue para o norte e acaba no sul."

Em algum ponto ao longo do caminho, Lucas - seja o cineasta de arte ou o mago da cultura pop - parece ter abraçado seu destino, independente da direção em que estava seguindo. George El Khouri Andolfato

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