Tropas dos EUA no Iraque têm dificuldade para identificar insurgentes

Bruce Finley
Em Tall Afar, Iraque
The Denver Post

Soldados norte-americanos em veículos blindados rumaram para um local próximo à mesquita Al-Farouk, crivada de balas. Eles desembarcaram dos veículos e, agachando-se com os fuzis erguidos, mergulharam no solo em posição de combate.

Deitado em meio ao cascalho e a chifres de cabras, o cabo Kris Guido, de El Paso, Texas, observava através da luneta do seu fuzil aquilo que parecia ser um grupo de pedreiros a cerca de 400 metros de distância.

Quando um dos trabalhadores se deslocou para trás de um monte de lixo e acendeu uma fogueira, Guido percebeu a manobra na mesma hora. "Ei", disse ele, chamando a atenção do sargento Charles Rumschlag, 25, de Colorado Springs, Colorado, também deitado de bruços, poucos metros a sua esquerda. Rumschlag deu uma olhada e achou que os trabalhadores poderiam estar fazendo um sinal para alguém.

Os soldados - membros do 3º Regimento de Cavalaria Blindada - estavam prontos para atirar em qualquer um que pegasse em armas ou instalasse bombas de beira de estrada.

Poucas horas antes, combatentes antiamericanos em um prédio próximo haviam disparado uma granada lançada por foguete contra um veículo blindado Stryker. A granada atingiu a grade protetora do blindado, ricocheteou e explodiu a uma distância suficiente para que ninguém se ferisse. No dia anterior, outros soldados do 3º Regimento de Cavalaria Blindada foram atingidos por uma bomba disparada por controle remoto nesta mesma estrada estratégica, em frente à mesquita. A estrada, ligando a Síria a Tall Afar (cidade de 200 mil habitantes) e a Mosul, a capital do norte do Iraque, é considerada uma grande rota de suprimentos para os insurgentes.

Um dia após essa missão, uma bomba instalada nas proximidades provocaria graves ferimentos em quatro soldados norte-americanos, incluindo dois do 3º Regimento de Cavalaria Blindada. Nesta manhã, Guido, Rumschlag e cerca de 25 outros soldados agiam com base em recentes dados da inteligência. Os insurgentes aparentemente estavam usando a mesquita Al-Farouk para planejar os ataques, diziam os relatórios de inteligência.

"A mesquita, liderada por um imã, estaria sendo usada à noite por 'forças antiiraquianas' para coordenar ataques", dizia o relatório. De dentro dos seus muros, os atacantes atiravam nos soldados.

As tropas norte-americanas têm evitado invadir mesquitas ou tomar outras medidas que ameacem esses locais sagrados. Há cerca de dois anos, iraquianos sunitas que administravam a mesquita Al-Farouk começaram a recrutar jovens desempregados para atacarem os norte-americanos, segundo homens de Tall Afar empregados como intérpretes. Os recrutadores ofereciam US$ 50 pelos ataques. A seguir, eles procuraram coagir os recrutas a realizarem mais ataques, ameaçando divulgar as suas primeiras operações.

Um intérprete de 29 anos que trabalha em uma base norte-americana ao sul da cidade disse que pessoas na Síria apoiavam a mesquita e levavam os recrutados até um campo de treinamento de terroristas em Latakiya, ao longo da costa norte da Síria.

"Nós os detestamos", disse o intérprete, referindo-se aos insurgentes. "Sabemos que eles estão prejudicando a nossa comunidade".

Assim, os soldados que se posicionaram nas proximidades da mesquita nessa recente manhã também estavam fazendo uma demonstração de força. Mas os militares que olhavam pelas lunetas de seus fuzis também viram civis engajados em suas tarefas cotidianas: um homem em uma motocicleta passando por um depósito de ferro-velho; um camponês conduzindo gansos; crianças entrando e saindo na escola, incluindo garotas de uniformes e véus.

Era difícil saber quem era quem. "Hoje em dia, o ponto forte dos insurgentes iraquianos é a sua capacidade de se misturar à população local", explica o coronel H.R. McMaster, comandante do 3º Regimento de Cavalaria Blindada.

Quanto mais os insurgentes aumentam a eficiência das suas bombas, mais eles forçam os soldados norte-americanos a adotarem uma postura ameaçadora. Os veículos blindados Humvee que o 3º Regimento de Cavalaria Blindada trouxe para o Iraque na sua segunda mobilização para o combate já não são suficientes. Guido, 21, Rumschlag e outros soldados se aproximaram da mesquita em quatro tanques M1A2 e dois veículos de combate Bradley.

Enquanto apontavam os fuzis para possíveis inimigos, e observavam, das torres dos tanques, o tráfego ao longo da estrada, helicópteros de combate Apache circulavam acima. Guido os ouviu enquanto aguardava de bruços. "Legal", disse ele, sem olhar para cima. "Me sinto mais seguro".

Dentro do Bradley de Guido e Rumschlag, um intérprete aguardava - um homem de 39 anos, pais de oito filhos, membro de uma seita religiosa que reverencia os anjos caídos, o povo Yezidi.

"Nós pertencemos a Malak Taus", explica ele, referindo-se ao "anjo pavão" que os yezidis reverenciam na capela de uma montanha próxima. Assim como outros grupos religiosos e minorias étnicas, os yezidis sofreram sob o regime de Saddam Hussein.

Agora ele está frustrado. A segurança em Tall Afar e outras cidades vizinhas "está piorando", garante. Ele pede que o seu nome não seja divulgado porque tem sofrido ameaças desde que foi trabalhar para os norte-americanos.

O fogo que Guido e Rumschlag suspeitavam que servia como sinal era usado, na verdade, para fazer argamassa para a construção da estrada, disse ele.

"Os soldados norte-americanos aqui perto da mesquita não estão fazendo nada", lamentou o intérprete. "Eles precisam capturar o centro da cidade. Todos os malfeitores estão lá".

Por volta do meio-dia, os soldados viram um homem escavando à beira da estrada. Os motores foram ligados. As tropas rumaram em massa para o local. Uma multidão se reuniu para observar a cena, enquanto os norte-americanos em seus blindados convergiam para o escavador, que rapidamente largou a pá.

Rumschlag se aproximou dele. "Salam", disse. Paz. O homem olhou espantado para o militar.

Por intermédio do intérprete, Rumschlag perguntou: "O que você está fazendo?".

O homem disse que se chama Asad Rasol, está desempregado e é pai de 11 filhos. Ele explicou que estava cavando para limpar um bueiro à beira da estrada cheio de água estagnada que exalava mau cheiro.

"Todos os dias escavamos este bueiro par garantir que a água seja drenada", afirmou. Olhando para os soldados e os seus tanques, ele acrescentou: "Precisamos que esta área seja segura".

Os soldados aceitaram a explicação, e voltaram à sua posição perto da mesquita. Eles ficaram lá observando a estrada por mais duas horas, até que uma outra equipe da base os substituiu.

Deitado de bruços, Guido agora via um dos pedreiros erguendo-se e abaixando-se em suas orações. Ele se sentiu embaraçado por apontar o fuzil para esse trabalhador, ainda que o homem não tivesse percebido. "É uma questão de respeito", diz Guido. "Só vou observá-lo de vez em quando. Quando estão rezando eles não parecem representar uma ameaça". Danilo Fonseca

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