Mesmo sem grades, ainda é uma prisão

Mike Meyers
Em Minneapolis

Kyle Phernetton quer ganhar a vida honestamente. Mas é difícil encontrar
alguém que o deixe fazer isso. Depois de cumprir pena por tráfico de drogas, Phernetton, 22, conseguiu um emprego potencialmente perigoso, que poucas pessoas desejariam - remover amianto de prédios antigos.

Depois de alguns meses ele foi demitido. O patrão de Phernetton ganhou um
grande contrato - retirar amianto do Centro de Governo do Condado de
Hennepin (Minnesota). Segundo Phernetton, lhe disseram que uma pessoa com
ficha policial não poderia trabalhar no tribunal.

Isso não é necessariamente verdade. O condado [município] de Hennepin exige verificação do passado dos funcionários de firmas que trabalham em prédios da prefeitura, disse Judy Hollander, diretora de serviços de manutenção. Mas ex-condenados não são automaticamente impedidos, dependendo da natureza do crime cometido.

"Não há uma regra rígida", disse Hollander. "Nós realmente nos esforçamos. Queremos que essas pessoas consigam trabalho. Mas algumas empresas não querem enfrentar esse incômodo. Na minha linha de
trabalho, se você tem registro policial eles simplesmente arranjam outra
pessoa", disse Phernetton. Muitos ex-condenados têm histórias semelhantes.

Embora nunca tenha sido fácil para um ex-presidiário conseguir um emprego
fixo, o aumento das verificações eletrônicas da ficha pessoal e o medo de
processos entre potenciais empregadores estão criando barreiras cada vez
maiores para os que saem da prisão.

E ao mesmo tempo nunca houve tantos ex-condenados nos Estados Unidos
tentando encontrar um meio de vida - cerca de 12 milhões, ou cerca de 8% da força de trabalho total. Em 1988 eram 5,5 milhões, ou 4,5% da força de
trabalho.

Cerca de 600 mil prisioneiros são libertados a cada ano em todo o país,
entrando em um mercado de trabalho no qual os que têm formação, experiência e ficha criminal limpa às vezes demoram meses para conseguir um emprego. Em Minnesota há cerca de 246 mil ex-presidiários.

"Hoje você tem menor possibilidade de esconder a condenação do que 15 anos atrás", disse Chris Uggen, um sociólogo da Universidade de Minnesota. "A natureza pública da ficha criminal provavelmente reduzirá suas probabilidades de garantir um emprego legítimo."

Segundo uma estimativa, mais de 450 firmas na Internet oferecem verificação de histórico criminal com facilidade, rapidez e baixo custo. Acadêmicos que estudaram os sites dizem que esses relatórios às vezes são incompletos ou imprecisos, mas isso não os torna impopulares, especialmente diante da responsabilidade jurídica decorrente de contratar um ex-condenado.

"Em alguns casos os empregadores foram responsabilizados por danos causados por funcionários ex-presidiários", disse Divah Pager, uma criminologista da Universidade de Princeton. "Esses processos por contratação negligente supõem que os empregadores deveriam prever quem vai ser inconfiável ou perigoso no futuro."

A pesquisa de Pager sugere que, em conseqüência disso, os empregadores
relutam em contratar ex-infratores, mesmo para os trabalhos mais simples. A ameaça legal é uma "pressão sobre os empregadores para fazer checagens e eliminar pessoas com histórico criminal", ela disse.

O governo federal apóia um programa destinado a reduzir os riscos das
firmas, mas é apenas uma medida parcial.

O programa protege os empregadores da responsabilidade por crimes contra a propriedade envolvendo funcionários ex-condenados, mas não de responsabilidades relativas a crimes físicos.

"Enfrentar os fatos"

Richard Allen contraria o estereótipo de ex-condenado - jovem, com pouca
educação, rumando para uma rápida viagem de ida e volta à prisão. Allen, 52, passou as últimas semanas num emprego de meio período na construção de uma igreja no norte de Mineeapolis. Trinta e cinco anos atrás ele foi condenado por um assalto armado em que um vendedor de loja foi morto. Allen não foi o assassino, mas participou do assalto e pagou por isso desde então.

Ao longo dos anos ele cavou valas, lavou pratos e fez todo tipo de trabalhos secundários.

Ele se formou em sociologia pela Universidade de Minnesota em 1978 e depois tentou empregos em órgãos beneficentes - ajudando a conseguir abrigo para sem-tetos ou preenchendo formulários para novos clientes da assistência social.

Mas o alcoolismo impediu que conseguisse empregos duradouros e
ajudou a colocar mais uma mancha em sua ficha policial dois anos atrás -
uma acusação de assalto em segundo grau.

Allen disse que está sóbrio há um ano e meio, com a ajuda dos Alcoólicos
Anônimos. Mas, como as verificações de ficha corrida tornaram-se mais
comuns, Allen sente-se cada vez mais distante dos empregos de período
integral.

"Quando verifico os papéis e sento ao computador, destrincho muitas coisas onde sei que vão verificar minha ficha", ele diz. "Então caio fora."

Com dois filhos, Allen disse que não viu seu filho mais velho crescer, mas quer participar da educação da filha menor. "Eu ficaria feliz em pagar a pensão. Neste momento mal posso pagar uma roupa para ela vestir", disse Allen. "É difícil ser rejeitado e ter de encarar os fatos."

Ninguém sabe exatamente qual é o índice de desemprego entre ex-condenados, mas Uggen disse que não é difícil entender por que eles são os primeiros a ser atingidos por qualquer tendência negativa no mercado de trabalho.

"Um aumento de meio ponto no índice de desemprego tem um efeito drástico
sobre os ex-condenados. Eles estão em último lugar na fila do emprego. Mas é preciso permitir que as pessoas de alguma forma conquistem a redenção", ele disse.

"Numa caixa"

Assim como Allen, o ex-traficante Phernetton tem dois filhos para sustentar.

Atualmente ele trabalha fazendo bicos como servente de obras. Também é um
dos 150 homens que recebem ajuda para terminar a educação de segundo grau, participar de programas de controle da raiva ou de treinamento profissional, e aprende a se inscrever para empregos no Centro de Ação do Emprego do programa Jovens Pais de Minneapolis.

"Quase 80% deles têm ficha criminal", disse Kirkland Johnson, diretor do
programa. "Estamos lidando com os pais de maior risco de nossa comunidade. Nós os tiramos diretamente do tribunal."

O programa Jovens Pais dá aos ex-condenados uma atenção especial para
navegar pelo processo de buscar trabalho. Alguns conselhos são tão simples quanto importantes:

- Nunca minta em uma inscrição para emprego. Se o empregador perguntar sobre condenações, admita que tem um registro criminal, mas acrescente uma linha dizendo: "Vamos conversar";

- Consiga cartas de um juiz ou oficial de condicional atestando seu bom
comportamento desde que saiu da prisão - o tipo de evidência de
reabilitação que visa acalmar os temores dos empregadores;

- Mostre diplomas de programas de treinamento profissional que demonstram
novas capacidades.

"Você cometeu erros no passado. Não pode desfazê-los", disse Johnson. "Mas você está concentrado em olhar para o futuro."

O programa Jovens Pais aconselhou 120 ex-presidiários no ano passado.
"Somente dois voltaram à prisão por violação da condicional", disse Johnson. E 76 deles conseguiram empregos de período integral que duraram 90 dias ou mais, ele disse.

Muitos encontram trabalho nos setores de construção ou reformas, onde é
fácil verificar o desempenho do trabalhador e não é necessário lidar com
dinheiro. Mas ainda é difícil vender ex-condenados para os empregadores.
"Eles o colocam numa caixa e depois dizem que não existe caixa", disse
Phernetton. Conheça a luta de ex-presidiários por um emprego fixo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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