Bush precisa falar a verdade sobre o Iraque, afirma pré-candidato democrata

Margaret Talev
McClatchy News Service
Em Washington

O senador Joseph Biden, do Estado de Delaware, o primeiro membro proeminente do Partido Democrata a ter anunciado formalmente sua intenção de ser candidato à presidência em 2008, afirmou nesta terça-feira (21/06) que a permanência do exército americano no Iraque deverá se estender muito além dos limites aceitáveis e que as declarações excessivamente otimistas do presidente Bush sobre o conflito acabaram criando um "abismo de credibilidade", que só poderá ser redimido se o presidente falar em termos mais imparciais e rigorosos a respeito da real situação no terreno.

O líder democrata no comitê das relações exteriores do Senado, que retornou recentemente da sua quinta visita ao Iraque, também acrescentou que, em sua opinião, serão necessários mais dois anos de permanência neste país até que os Estados Unidos possam considerar mais seriamente concluir a sua missão no Iraque, e que o exército americano precisa de mais ajuda por parte de outras nações.

"Nós não dispomos de muito mais forças para ampliar a nossa presença no terreno", disse Biden no discurso de 44 minutos que ele pronunciou na Brookings Institution (principal "laboratório de idéias" do Partido Democrata). "É por isso que nós precisamos de ajuda externa".

O senador prosseguiu afirmando que o presidente deveria pedir aos aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para fornecer um contingente de ao menos cinco mil soldados, os quais teriam por missão de ajudar a manter a guarda nas fronteiras do Iraque, e ainda que ele deveria aceitar as ofertas da França, do Egito e da Jordânia para ajudar a treinar as forças iraquianas.

Joseph Biden formulou estes comentários dois dias após ter anunciado no programa de debates da CBS "Face the Nation" (Encare a Nação) que pretende ser candidato à presidência e passará os próximos meses a analisar se existem possibilidades de gerar apoios suficientes em torno do seu nome, para então prosseguir ou não neste rumo.

Nesta terça-feira, ele relutou a responder quando indagado até que ponto a questão da guerra no Iraque poderia desempenhar um papel decisivo na próxima corrida presidencial, mas ele frisou que ele não tinha por objetivo enfrentar Bush, que está no seu segundo mandato e não pode pleitear um terceiro.

Contradizendo as posições de muitos membros do seu próprio partido, Biden disse concordar com a posição da administração republicana segundo a qual o presidente não deveria estabelecer um calendário para a retirada das tropas do Iraque, uma vez que isso apenas contribuiria para favorecer a atuação das forças insurgentes.

Mas Biden também afirmou que Bush deveria esclarecer e tornar público que os seus objetivos dizem respeito principalmente à segurança, à governança e à reconstrução do Iraque, e que ele deveria se empenhar mais em convencer outras nações a contribuír com dinheiro, recursos e estratégias --e se disse voluntário para apresentar relatórios, uma vez por mês, perante o Congresso, detalhando quais foram os progressos obtidos em relação a cada um desses objetivos, como uma forma de reconquistar a credibilidade junto ao povo americano.

"As discrepâncias entre a retórica da administração e a realidade no terreno não provocaram apenas uma pequena falha no plano da credibilidade; o que houve foi um abismo de credibilidade" que está comprometendo o apoio às tropas americanas em missão no exterior, avaliou Biden.

Ele citou pesquisas de opinião que mostram que cerca de 6 entre 10 americanos querem agora que seja dado início à retirada das tropas, enquanto menos da metade pensam que a guerra aumentou a sua segurança em relação ao terrorismo.

Biden rejeitou a idéia segundo a qual os americanos estão se mostrando simplesmente frustrados com a quantidade de soldados mortos até agora na ocupação do Iraque, cujo número já superou 1.700.

Em vez disso, prosseguiu o senador, o verdadeiro problema é que os americanos estão sentindo que a sua opinião não está sendo levada em conta, que eles não entendem a situação como um todo, e ainda que muitos deles temem que tantas mortes tenham ocorrido em vão.

"Nenhuma política externa pode ser sustentável sem o consentimento esclarecido do povo americano", disse.

O discurso de Biden ocorre no exato momento em que vêm se avolumando as críticas, por parte de alguns republicanos e de um grande número de democratas, em relação à estratégia adotada pelo presidente Bush no Iraque, e também contra as condições de manutenção da prisão militar americana em Guantanamo Bay, Cuba, a respeito da qual vêm se acumulando denúncias de que haveria um grande número de violações dos direitos humanos sendo cometidas contra suspeitos de terrorismo.

A líder da minoria no Congresso, Nancy Pelosi, deputada democrata da Califórnia, junto com vários dos seus colegas, fez um apelo, nesta terça-feira, para que seja criada uma comissão independente com o objetivo de investigar os supostos maus-tratos que estariam sendo cometidos contra os detentos, e que estariam ocorrendo não só em Guantanamo como também no Iraque e no Afeganistão.

Um porta-voz da Casa Branca rejeitou a idéia, explicando que o Departamento da Defesa era o foro apropriado para investigar tais acusações.

A Casa Branca não fez nenhum comentário sobre o discurso de Joseph Biden, mas o porta-voz Ken Lisaius disse que "O presidente Bush sempre tem sido franco e sincero com o povo americano a respeito dos desafios que nós estamos enfrentando no Iraque. A todos aqueles que afirmam o contrário, só posso sugerir que eles estão mal informados ou que eles estão tentando pintar um quadro que está distante da realidade".

É de se presumir que os comentários de Biden não tenham causado grande surpresa junto ao presidente e a sua equipe. Biden afirmou que o conselheiro para assuntos de segurança nacional Stephen Hadley o procurou para fazer-lhe perguntas, logo depois da mais recente visita do senador ao Iraque.

Há muito, Biden vem se mostrando crítico em relação às estratégias da administração Bush no Iraque. No ano passado, ele foi considerado como um candidato possível a assumir o cargo de secretário de Estado, caso o democrata John Kerry tivesse vencido a eleição presidencial.

Biden também esteve na linha de frente da campanha dos democratas visando a bloquear a confirmação de John Bolton, que foi indicado pelo presidente Bush para o cargo de representante dos EUA nas Nações Unidas. Biden exigiu maiores informações sobre a folha de serviços de Bolton quando este era subsecretário de Estado.

Pesquisas de opinião publicadas recentemente mostram que Joseph Biden ocupa um modesto quarto lugar entre os candidatos à presidência potenciais do Partido Democrata.

Uma pesquisa da Fox News realizada em 14 e 15 de junho mostra que a senadora Hillary Rodham Clinton, de Nova York, está liderando este páreo com 44% das indicações entre democratas, seguida pelo candidato indicado no ano passado, John Kerry, e pelo seu companheiro de chapa, John Edwards.

Biden está atrás deles, com 6%. Uma pesquisa realizada pelo colégio marista no mês de abril havia indicado os mesmos candidatos, e na mesma ordem, entre os pretendentes democratas, atribuindo a Biden 7%.

Biden já havia manifestado suas ambições presidenciais em 1988, mas a sua tentativa de obter a nomeação do seu partido foi frustrada pouco tempo depois. Ele desistiu da candidatura depois de ter sido revelado que um dos seus discursos políticos retomava trechos inteiros de um discurso do líder do Partido Trabalhista britânico, Neil Kinnock, sem que a autoria seja mencionada.

No passado, Biden também havia enfrentado uma acusação --a qual não foi comprovada-- de que ele havia plagiado um ensaio de direito ao elaborar um trabalho universitário. Senador Joseph Biden acusa o presidente de esconder a realidade Jean-Yves de Neufville

UOL Cursos Online

Todos os cursos