Novos 'Mundos' para explorar: Tom Cruise e Steven Spielberg se concentram na família para tornar sua 'Guerra' uma história para nosso tempo

Bob Strauss
do Los Angeles Daily News

Cada geração tem a "Guerra dos Mundos" que lhe é apropriada.

A nova adaptação cinematográfica do romance de 1898 de H.G. Wells, que estreará mundialmente na próxima quarta-feira (29), tem tudo o que um sucesso arrasa-quarteirão de ficção científica moderno deve ter. Há centenas de efeitos especiais de última geração, o maior diretor do planeta (Steven Spielberg) e maior astro (Tom Cruise) comandando o show, e uma turnê mundial promocional adequada, completa com espetáculos paralelos geradores de fofocas para a voraz mídia de notícias de entretenimento atual.

Mas o filme em si reflete preocupações mais profundas de nosso tempo. Ecos da guerra contra o terrorismo e preocupações com os valores familiares reverberam por toda a narrativa de roer as unhas, que foi roteirizada para o cinema por David Koepp, que adaptou o "O Parque dos Dinossauros" para Spielberg.

"Eu nunca fiz nada assim antes", notou Spielberg, cujas obras têm variado do horror mecânico de "Tubarão" à esperançosa ficção científica de "E." e aos horrores da história, em filmes como "A Lista de Schindler" e "O Resgate do Soldado Ryan".

"Esta é minha primeira incursão em olhar para o céu e não ver beleza mas, em vez disso, ver coisas que me assustam. Talvez eu tenha olhado para o céu, como você e outras pessoas ao redor do mundo, e percebido que há mais tensão no ar. Parece que nós vivemos em um universo mais nervoso; eu acho que estou apenas reagindo ao meu próprio ambiente. Hoje, à sombra de 11 de setembro, eu acho que este filme encontrou um lugar na sociedade."

Sim, estes alienígenas são totalmente e irredimivelmente malignos. E o ponto de vista da família vem do personagem de Cruise, Ray Ferrier, e seus dois filhos, Rachel (Dakota Fanning), de 10 anos, e Robbie (Justin Chatwin), de 18 anos. Há muito tempo divorciado de sua ex-esposa grávida Mary Ann (Miranda Otto, de "O Senhor dos Anéis"), Ray opera um guindaste nas docas de Nova Jersey, adora carros e sabe muito pouco sobre os filhos que raramente vê. Mas quando trípodes alienígenas há muito tempo dormentes se erguem das profundezas da Terra e começam a destruir tudo à vista, ele deve fugir com seus filhos e fazer de tudo para mantê-los a salvo enquanto tentam chegar até Mary Ann, em Boston.

"Quando Steven e eu começamos a falar sobre este filme, e depois quando nos sentamos com David Koepp, a idéia era sempre sobre a família", disse Cruise. "O que você faria por sua família? O quão longe você iria se fosse desafiado? Você seria capaz de proteger sua família? Todas estas perguntas."

"Nós tentamos criar um sujeito que todos nós conhecemos", continuou o ator. "Um homem que não é necessariamente uma má pessoa, mas que não entende. Ele não sabe como ajudar seus filhos. Eu acho que há pais assim por aí; eles não sabem o que fazer."

O inglês Wells, um dos pais fundadores da ficção científica, também era um radical de esquerda que escreveu seu livro sobre a invasão marciana como uma espécie de parábola antiimperialista. A famosa versão de rádio de "Guerra dos Mundos" de Orson Welles, de 1938, que ocorreu um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial, foi apresentada como um noticiário falso que convenceu centenas de milhares de americanos que nós estávamos realmente sob ataque. A versão cinematográfica de 1953 (cujos astros, Gene Barry e Ann Robinson, fazem breves aparições no novo filme), como muitos filmes de ficção científica de sua época, faz referência à paranóia da Guerra Fria no início da Era Atômica.

Mas para não colocarmos peso demais na atualidade no novo filme, todos os envolvidos quiseram enfatizar que a meta principal era envolver o público na história. Depois, e igualmente importante, era assustá-lo para valer.

"É muito satisfatório para o cineasta quando você consegue explorar idéias muitos complexas e experiências emocionais como esta no contexto de algo que é puramente entretenimento", disse a produtora Kathleen Kennedy, que tem um parceria de longa data com Spielberg. "Nossa meta era fazer uma entretenimento emocionante e assustador para o verão. É um benefício adicional quando você pode ter este grau significados impícitos. (...) A idéia de qualquer tipo de invasão beligerante está certamente mais viva na mente das pessoas hoje do que há 15 anos."

Quanto ao ponto de vista familiar, ele não foi influenciado pela atual retórica política, ou mesmo pelo conhecido instinto paternal de Spielberg e Cruise (o diretor tem sete filhos, o ator tem dois), mas sim por uma necessidade narrativa.

"O narrador viaja sozinho no livro, o que é bom", explicou Koepp. "Mas é um expediente literário, e há a liberdade no livro de escutar o que alguém está pensando e sentindo. No filme, nós temos apenas o que os personagens dizem o que eles fazem, de forma que Ray precisava de alguém com quem falar."

Mas transformar seus filhos ressentidos nestas caixas de ressonância abriu todo tipo de possibilidade dramática -algumas delas mais relevantes hoje do que quando Koepp entregou o primeiro esboço do roteiro um ano atrás (após anos de desenvolvimento infrutífero, a produção de US$ 135 milhões foi realizada mais rapidamente do que quase qualquer outro filme de seu porte).

Em uma seqüência, por exemplo, Ray tenta impedir Robbie de cruzar um colina para ajudar militares norte-americanos a enfrentar os invencíveis trípodes de 60 metros de altura.

"Eu aposto que há alguns recrutadores americanos que podem se relacionar com isto", observou Koepp ironicamente. "Mas sempre (durante a etapa de
roteirização) que eu tentava iniciar uma discussão política a respeito, Steven dizia: 'Vamos acertar a história e os personagens, se tentarmos fazer o contrário, se tentarmos defender argumentos, vai ficar pomposo e ruim'. Eu acho que desta forma aconteceu de obtermos a resposta paterna correta."

"Eu esperava que todos pudessem ver, neste filme, a faceta de um prisma, aquilo que escolhessem tirar de 'Guerra dos Mundos'", disse Spielberg. "Assim eu tentei deixar o mais aberto possível para interpretação sem fazer alguém expor polêmicas políticas."

Outra restrição na qual Spielberg insistiu: nós não vemos ou sabemos nada além do que Ray vê ou sabe. Apesar de "Guerra" certamente ter a abundância de destruição que os fãs de filmes de desastre adoram, não espere ver marcos famosos serem destruídos ou cidades inteiras serem vaporizadas em uma grande cena de computação gráfica.

"Eu não queria fazer isto. Eu queria que este fosse um primo de 'O Resgate do Soldado Ryan', de uma forma estranha, no gênero ficção científica. Ele é narrado do ponto de vista da primeira pessoa, e todos os personagens tinham que ser o mais realistas e normais como nós."

Todavia, Spielberg deixou espaço para cenas tão complexas como a lendária e longa seqüência de abertura de "A Marca da Maldade" de Orson Welles -com o acréscimo de boa dose de prédios explodindo, carros voando e pessoas sendo vaporizadas. Mas, seguindo a trama do romance, o filme segue para o subterrâneo em um momento chave para uma longa seqüência de terror mais intimista.

"Nós ficamos dentro daquele porão por 20 minutos", se maravilhou Cruise. "Ser capaz de coreografar e sustentar aquele tipo de tensão (...) É por isso que, quando estou trabalhando com diferentes cineastas, eu sempre volto e estudo os filmes de Steven."

"Nós sabíamos que haveria cenas assustadoras de grande escala na primeira metade do filme", explicou Tim Robbins, cujo perturbado personagem Ogilvy oferece a Ray e Rachel um asilo apreensivo em um porão. "Nós tivemos que construir o mesmo tipo de medo e terror em um local confinado. Era uma questão de saber que a ameaça estava do lado de fora da porta, mas também saber que a ameaça estava bem ao seu lado."

No final, "Guerra dos Mundos" de Spielberg luta para trazer o atual sentimento de medo em escala internacional para a mais localizada das experiências.

"Há uma imensa relação com o que está acontecendo no mundo", notou a atriz australiana Otto, que realmente estava grávida de seu primeiro filho quando filmou "Guerra dos Mundos" no início do ano. "Você realmente não pode mais considerar nada certo na vida. Se foram os ataques de 11 de setembro ou o tsunami na Ásia, nós vimos imagens de pessoas que acordaram de manhã e à tarde tudo o que sabiam em suas vidas tinha mudado completamente."

Cruise resumiu sucintamente: "Eu achei que o livro era relevante e eterno por ser sobre pessoas". George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos