Nova biografia de Hendrix é mais íntima e familiar

Gene Stout
Seattle Post-Intelligencer
Em Seattle, Washington

Em 1967, o ano em que Jimi Hendrix se tornou a sensação em Londres, um barman de um pub de classe operária em Liverpool confundiu o astro do rock como sendo alguém bem menos glamouroso.

"Lamento, colegas, mas não servimos pessoas como vocês aqui", disse o velho e rude barman para Hendrix e seu companheiro de banda, Noel Redding. "Nós temos regras, sabe como é."

A história engraçada é recontada no novo livro de Charles R. Cross, um jornalista de música de Seattle, "Room Full of Mirrors: A Biography of Jimi Hendrix" (Hyperion, 400 páginas, US$ 24,95).

Hendrix e Redding tentavam decifrar a reação do barman. Ambos os músicos usavam lenços púrpuras no pescoço e "auréolas de cabelo frisado", escreve Cross. Hendrix estava vestindo calças de veludo vinho, uma camisa de pirata cheia de babados, uma jaqueta militar britânica antiga e capa preta.

Hendrix se perguntou se estava sendo discriminado por causa de sua cor, apesar de tais problemas serem incomuns na época na Inglaterra.

Seu segundo pensamento foi que sua jaqueta militar, uma relíquia dos dias de glória do Império Britânico --comprada em um mercado de pulgas-- podia ser ofensiva para os veteranos de guerra ingleses. Ela já tinha lhe causado problemas antes.

Quando pressionado por uma explicação, o barman apontou furioso para uma placa na porta. "Se deixarmos um de vocês entrar, o lugar inteiro vai ficar cheio da sua espécie, e isto não é jeito de se dirigir um pub", ele berrou.

Redding caiu na gargalhada após encontrar um cartaz de circo na porta do pub, com uma nota abaixo que dizia: "Proibida a Entrada de Palhaços".

"Há um circo no fim da rua, e este sujeito não quer os palhaços aqui", disse Redding para um Hendrix incrédulo. "Ele acha que somos palhaços."

A história de Redding é uma das centenas de histórias bem pesquisadas no livro de Cross, que criam um retrato mais íntimo de um astro do rock flamboyant de Seattle do que qualquer biografia anterior.

"Foram necessárias várias entrevistas com Noel para obter a história toda, mas é uma muito poderosa porque é uma entrada para se falar de questões maiores enfrentadas por Jimi", disse Cross em uma entrevista.

"Sua raça era algo em que ele pensava muito. E seu exotismo era um desafio. Jimi Hendrix era quase um alienígena neste planeta. Ele seria assim se você o visse atualmente na rua. Mas no mundo sério dos anos 60, ele era uma viagem de ácido em todo lugar onde ia. Ser confundido com um palhaço de circo no momento em que você é o astro mais famoso na Inglaterra ilustra os estranhos contrastes em sua vida."

Os fãs que pensam que sabem tudo sobre Hendrix, o lendário guitarrista que morreu em Londres em 1970, ficarão intrigados com o livro de Cross, seu novo trabalho após "Mais Pesado Que o Céu", seu livro sobre Kurt Cobain, que esteve na lista de best sellers de The New York Times.

O que Cross trouxe à tona sobre a infância de Jimi é engraçado, comovente, provocativo e às vezes perturbador. Enquanto vivia nos apartamentos Rainier Vista, em meados dos anos 50, com uma das muitas famílias com a qual ficava quando as coisas não iam bem em casa, Jimi fez uma previsão "sobrenatural" sobre seu futuro: "Eu vou partir daqui, e vou para muito, muito longe. Eu vou ser rico e famoso, e todos aqui ficarão com ciúmes".

Mas Jimi, freqüentemente chamado de Buster por seus parentes e amigos, era tão pobre que freqüentemente era forçado a pedir comida. Ele pedia os restos de comida em um restaurante em frente ao colégio Garfield, após descobrir que os hambúrgueres e batatas fritas não vendidos eram jogados no lixo no fim do dia.

Anos depois, quando ele voltou para Seattle em 1968, para realizar seu primeiro concerto lá depois de se tornar famoso, Hendrix apareceu em uma reunião de sua escola, a Garfield, onde os estudantes que não tinham idéia de quem ele era --e que nunca tinham ouvido suas canções nas rádios de música negra-- começaram a importuná-lo.

"Na época, Garfield era altamente politizada e o movimento Black Power estava florescendo", lembrou um estudante. "A presença daquele músico estranho, hippie, incomodou os garotos."

Uma das revelações mais surpreendentes do livro é a história da farsa elaborada de Hendrix para sair do Exército no início dos anos 60, fingindo ser homossexual. Ele contou para o psiquiatra da base uma história escandalosa sobre como tinha desenvolvido desejos homossexuais pelos seus companheiros.

Cross tomou conhecimento da farsa depois de localizar documentos do Exército que não tinham sido divulgados. "Foi absolutamente chocante", disse Cross. "Ali estava um homem que identificamos como um dos maiores símbolos sexuais da cultura popular fingindo ser gay para escapar do serviço militar, o que poderia causar sua morte naquele ambiente. Foi uma jogada arriscada. Se ele não tivesse deixado o serviço, ele poderia cair no ostracismo."

A história da dispensa de Hendrix do Exército é uma das muitas revelações pessoais que tornam "Room Full of Mirrors" incomum entre as biografias de Hendrix. A realidade de sua vida nem sempre bate com a lenda.

"É um grande exemplo do contraste entre o que realmente aconteceu na vida de Jimi e o que Jimi contava para as pessoas", disse Cross.

Cross realizou mais de 300 entrevistas para "Room Full of Mirrors", um livro tão difícil quanto "Mais Pesado Que o Céu". "A principal diferença neste livro foi que nunca me encontrei com Jimi Hendrix, e não fui um afro-americano que cresceu em Seattle", disse Cross.

"Assim, foi um terreno emocional diferente, que exigiu muito mais pesquisa histórica. Ele realmente me forçou a voltar a aprender um pouco sobre a experiência afro-americana em Seattle."

O que Cross buscou como biógrafo foi um senso de autenticidade.

"Um dos grandes desafios para um biógrafo é que você não pode voltar e recriar a história 100%, apesar de tentar com o máximo de vozes possível. O que você quer é um tom emocional que as pessoas que conheceram Jimi reconheçam. Mesmo se os detalhes específicos não corresponderem ao que se lembram, elas lerão o livro e sentirão como se estivessem se encontrando com ele novamente."

A história da infância de Hendrix oferece o que Cross chama de "uma história secreta" da experiência afro-americana em Seattle nos anos 40, 50 e 60.

"A história dos afro-americanos em Seattle é um assunto sobre o qual não se escreveu muito", disse Cross. "Nós gostamos de pensar em Seattle como sendo este lugar branco, liberal. Nós colocamos os antolhos. A verdade é que Seattle não tinha o racismo aberto do Sul; era mais baseado em economia e habitação. Os negros não podiam viver fora da Área Central, e havia pactos que os impediam de viver em muitas áreas."

O que pode surpreender os fãs de Hendrix, que se lembram do pai de Jimi como o velho e gentil cavalheiro que vivia do legado do filho, é que o relacionamento entre eles foi freqüentemente tão feio e tenso quanto qualquer relacionamento pai e filho pode ser.

Al Hendrix, que freqüentemente bebia em excesso, podia ser mal e brutal, tomando más decisões que marcariam emocionalmente seus filhos Jimi e Leon. Cross se esforçou de forma extraordinária para montar a história da mãe de Jimi, Lucille, que morreu em 1958 sob circunstâncias misteriosas. Jimi era profundamente dedicado a ela e posteriormente escreveu canções sobre ela.

No Renton's Greenwood Memorial Park, onde os restos mortais de Jimi, Al e outros membros seletos da família estão depositados em uma nova cripta elaborada, Cross perseguiu os diretores do cemitério para encontrar o túmulo perdido, negligenciado, onde Lucille Hendrix Mitchell (antes Lucille Jeter Hendrix) foi enterrada décadas antes.

"A redescoberta do túmulo da mãe de Jimi Hendrix foi o momento mais assustador nos quatro anos que levei para escrever 'Room Full of Mirrors'", disse Cross no prefácio do autor.

Ele ficou atônito com o fato de Lucille estar enterrada em uma sepultura de indigente.

"Eu ainda não posso acreditar que Al Hendrix deixou sua ex-esposa, a mãe de Jimi, ser enterrada em uma sepultura de indigente sem uma lápide. Esta é uma família que gastou US$ 40 milhões em despesas legais e ninguém tinha US$ 2 mil para comprar uma lápide para a mãe de Jimi Hendrix? É ofensivo. É um crime contra a natureza. Isto apenas mostra a mesquinhez rancorosa desta família e seus segredos."

A meta de Cross como biógrafo de Hendrix é atingir o público em geral.

"Esta é uma grande história americana. É uma grande história afro-americana. Eu estou tentando escrever uma história cultural, não uma história do rock", disse Cross. "Estou tentando escrever biografias que idosos em clubes do livro possam considerar fascinantes." Livro alterna passagens curiosas com a experiência racial e social

UOL Cursos Online

Todos os cursos