Depende dos EUA a tarefa de impedir ataques ao país?

David Westphal
do McClatchy News Service
em Washington

Enquanto a nação se aproxima do quarto aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro, há uma nova inquietação quanto a capacidade do governo de impedir um novo ataque em solo americano.

Os recentes atentados em Londres e no Egito, outra revisão do Departamento de Segurança Interna federal e o nervosismo em relação à guerra no Iraque estão provocando um novo debate sobre se o país está realizando progressos suficientes contra a ameaça terrorista.

"As perguntas chaves são: estamos tão seguros quanto precisamos? Estamos tão seguros quanto podemos? E estamos tão seguros quanto achamos que estamos?" disse Clark Ervin, ex-inspetor-geral do Departamento de Segurança Interna. "A resposta para todas estas perguntas, infelizmente, é não?"

Pesquisas de opinião mostram que a expectativa da população de um ataque doméstico está crescendo, com quase metade dizendo à Pesquisa Gallup que teme que ele ou alguém de sua família se tornará vítima de terrorismo. Também está crescendo o número de americanos que acredita que a guerra no Iraque deixou os Estados Unidos mais vulneráveis ao terrorismo. Enquanto isso, apenas 34% acham que os Estados Unidos estão vencendo a guerra contra o terror, mostrou uma pesquisa Gallup de julho.

Tal sentimento se espalhou recentemente no Congresso, quando o deputado Norm Dicks, democrata de Washington, se queixou do fracasso do Departamento de Segurança Interna em avaliar a ameaça da detonação de uma bomba nuclear em uma grande cidade americana.

"Há uma grande ansiedade no Capitólio e no país sobre quão bem o Departamento de Segurança Interna está se saindo", Dicks disse ao novo chefe do departamento, Michael Chertoff. "Você precisa mostrar ao país que agora há um líder encarregado da segurança interna. (...) Nós temos que lidar com as grandes ameaças (...) o uso de um dispositivo nuclear, por exemplo."

Chertoff defendeu seu comando inicial dos esforços de segurança interna, e até endossou o argumento geral de Dicks, dizendo que os Estados Unidos devem dedicar grande parte de seus recursos de prevenção para impedir ataques catastróficos.

Para desalento das autoridades das grandes cidades, que querem mais dinheiro gasto em segurança do transporte de massa, Chertoff tem usado seu período de lua-de-mel como chefe de segurança interna para argumentar que o país não pode desperdiçar dólares preciosos tentando impedir atentados no metrô.

"Um avião plenamente abastecido, um avião de passageiros, tem a capacidade de matar 3 mil pessoas. Uma bomba em um vagão do metrô pode matar 30 pessoas", disse Chertoff para a agência de notícias "Associated Press". "Quando você começa a pensar nas prioridades, primeiro você vai buscar se certificar de que não acontecerá algo catastrófico."

Apesar de Chertoff estar obtendo alguns aplausos por seu foco na avaliação de risco, os críticos dizem que a segurança interna em geral continua fraca demais, cheia de desperdício de dinheiro e despreparada para enfrentar os desafios de outro ataque.

"A América não têm uma cultura de prontidão", disse Jay Carafano, um especialista em segurança da Fundação Heritage, que em uma recente análise sugeriu que as autoridades de segurança interna têm fabricado "programas simbólicos que criam a ilusão de interesse".

Funcionários do governo disseram que não deveria ser surpresa a necessidade de algum tempo para que a enorme burocracia da segurança interna -- que tem apenas dois anos e meio de idade -- consiga lidar com o desafio monumental de proteger um país tão grande de um ataque. O Departamento de Segurança Interna, aprovado pelo Congresso em novembro de 2002, é uma reunião de 22 agências federais diferentes e que emprega 180 mil pessoas.

"Foram necessárias várias décadas de ajustes legislativos e de organização para revitalizar (...) o Departamento de Defesa", disse Tom Ridge, o primeiro diretor e ex-secretário do Departamento. Desenvolver um esforço nacional antiterrorismo é necessariamente um processo evolutivo, disse Ridge, porque os americanos estão lentamente aceitando a realidade de um novo mundo inseguro.

Ridge e outras autoridades envolvidas no combate ao terrorismo também argumentam que fizeram grandes progressos. "Nós estamos, eu diria, bem mais seguros do que estávamos antes de 11 de setembro", disse na semana passado o diretor do FBI, Robert Mueller.

Mas os críticos dizem que, dadas as conseqüências potenciais de um ataque catastrófico, as autoridades federais não têm agido de forma rápida o bastante, de forma inteligente o bastante. Na audiência no Congresso na qual repreendeu Chertoff, Dicks notou que uma bomba nuclear poderia matar 1 milhão de pessoas em Nova York ou Washington.

Esta e múltiplas outras audiências no Congresso, neste verão, acentuaram a enormidade do desafio enfrentado pelas autoridades de segurança interna, e a dificuldade de escolher entre estratégias de prevenção extremamente diferentes.

Chertoff está tentando dar ao Departamento de Segurança Interna uma postura pragmática ao adotar o modelo de "avaliação de risco" para determinar o que merece os dólares do contribuinte e o que não. Ele manteve tal abordagem mesmo após os atentados no metrô de Londres, enfurecendo os políticos das grandes cidades que queriam adicionar milhões à segurança do transporte de massa.

Com alguma relutância, o Congresso também está adotando o padrão de avaliação de risco. Os membros do Congresso têm sido duramente criticados pela entrega de milhões de dólares em verbas de segurança interna para Estados como Wyoming e Dakota do Sul, lugares considerados como sendo de baixo risco de segurança. Mas pelo segundo ano consecutivo, eles estão reduzindo a proporção de dinheiro destinado a Estados altamente rurais e aumentando os recursos para as grandes cidades.

Mesmo assim, há grandes debates sobre qual seria o melhor uso do dinheiro da segurança interna. A segurança da aviação deveria ser a prioridade número um? Mais deveria ser destinado aos controles de fronteira? Tecnologia é a resposta?

Veronique de Rugy, do Instituto Empresarial Americano e uma crítica dos gastos da segurança interna, disse que as autoridades federais estão certas em se concentrar na detecção de uma bomba nuclear capaz de entrar no país por um de seus portos. Mas ela disse que a instalação de 470 portais detectores de radiação é um bom exemplo de como o governo pode estar desperdiçando enormes somas de dinheiro.

Especialistas em segurança interna não acreditam que os monitores possam detectar, com alguma confiabilidade, o urânio altamente enriquecido que se encontra no coração de um dispositivo nuclear, disse ela.

"Nós realmente gastamos US$ 800 milhões para nada?" ela escreveu no site Tech Central Station. "Possivelmente."

Alguns dizem que, dada a dificuldade de construir defesas confiáveis contra o terrorismo, o governo deve gastar de forma mais inteligente visando desbaratar os planos antes de serem executados.

Segundo análises do Escritório de Orçamento do Congresso, apenas 8% dos dólares federais de segurança interna são dedicados a inteligência e contraterrorismo neste ano. Em comparação, 37% dos fundos estão sendo gastos em operações de segurança nos transportes e nas fronteiras; 31% na proteção da infra-estrutura crítica; e 17% em prontidão para emergências.

Michael O'Hanlon, um especialista em segurança da Instituição Brookings em Washington, disse que muito mais precisa ser destinado ao contraterrorismo, particularmente em 25 a 35 das maiores cidades americanas.

O'Hanlon recomendou recentemente que o Congresso pague por 10 mil policiais adicionais para estas cidades e que, trabalhando em conjunto com o FBI, seriam os olhos e ouvidos que poderiam descobrir células terroristas domésticas.

"Localidades demais, mesmo as grandes, presumem que não serão alvos no futuro apenas porque não foram alvos de ataques bem-sucedidos no passado", ele disse.

O senador Joe Biden, democrata de Delaware, ofereceu um conselho semelhante na semana passada.

"É mais provável que seja algum policial local, saindo de uma loja da Dunkin' Donuts, passando por trás de um grande shopping (...) aquele que detectará um sujeito subindo em uma lixeira e que acabou de colocar gás sarin no sistema de ventilação", disse Biden.

Outros defendem uma estratégia nacional bem mais agressiva de confronto face a face com os terroristas.

John Yoo, um vice-secretário assistente de Justiça durante o primeiro mandato de Bush, disse que os Estados Unidos devem se tornar mais cruéis e astutos para combater a resistência da rede terrorista Al Qaeda. Por exemplo, ele disse que os Estados Unidos devem realizar assassinatos simultâneos de líderes chaves da Al Qaeda.

Ele também sugere a criação de organizações terroristas falsas que possam realizar ataques falsos, emitir reivindicações falsas de ataques reais e competir por recrutas da Al Qaeda -tudo em um esforço para "semear confusão dentro das fileiras da Al Qaeda".

Yoo reconheceu que a criação de sites falsos, emissão de declarações públicas falsas e uso de dinheiro dos contribuintes para tais fins poderia violar as leis existentes. Mas Yoo, um ferrenho defensor de Bush, disse que as atuais estratégias do presidente podem não ser suficientes para proteger o solo americano.

"A Al Qaeda tem sofrido perdas devastadoras nas mãos da CIA e das forças armadas americanas", disse ele em um discurso no mês passado. "Mas ela não sofreu um golpe fatal e pode até mesmo estar se recuperando." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos