Discovery requer um conserto preciso para voltar

Mark Carreau
Houston Chronicle
Em Houston, Texas

O astronauta Steve Robinson sabe que terá que ser cuidadoso ao se aproximar da parte inferior da Discovery, em uma caminhada pelo espaço na manhã desta quarta-feira (3/8), para o primeiro reparo da história nos escudos contra o calor de uma nave espacial em órbita.

Para começar, ele não quer bater com seu grande capacete contra as frágeis placas que impedem o superaquecimento da nave em sua volta à Terra. Ele também não quer fazer incisões no material macio com a serra ou tesoura que talvez tenha que usar para cortar as pontas de material de preenchimento parecido com feltro que estão escapando .

"Sem dúvida, vai ser uma tarefa muito delicada --mas simples", disse Robinson, na terça-feira. O conserto sem precedentes, a ser executado enquanto o ônibus espacial está atracado na Estação Espacial Internacional, deve ser iniciado às 6h30, ao final da missão extra-veicular de seis horas com o astronauta japonês Soichi Noguchi.

Robinson estará preso à ponta do longo braço robótico da estação e pretende puxar, serrar ou cortar as protuberâncias de quase 3 cm perto do nariz da nave.

As irregularidades na superfície da barriga da Discovery ameaçam criar turbulências que podem provocar um superaquecimento na volta à Terra, na segunda-feira.

"Tenho aviões antigos em casa... então estou acostumado a usar ferramentas com muito cuidado", disse Robinson à imprensa na terça-feira.

As protuberâncias de tecido resistente ao fogo colado entre centenas de placas isolantes na parte de baixo do ônibus espacial foram observadas nas fotografias após o lançamento, na semana passada.

Na terça-feira, a Nasa demonstrou a estratégia de reparo cuidadosamente estudada nos quatro dias anteriores.

A solução parece simples: Robinson prende seus pés no braço robótico de 17m da estação. Os astronautas James Kelly e Wendy Lawrence, da cabine de controle dentro da estação, movem o braço mecânico e seu passageiro cuidadosamente ao local de trabalho, com uma caixa de ferramentas que inclui um fórceps, uma serra, uma tesoura e uma câmera eletrônica. A 30 cm de distância da nave, Robinson primeiro se debruça e estende os braços.

Ansiosos, os controladores de vôo esperam que ele possa simplesmente puxar as saliências de tecido com as mãos, mesmo usando luvas.

"O que eu vou ter que vigiar será o topo do meu capacete, porque vou começar me debruçando", disse Robinson, engenheiro aeronáutico e piloto de 49 anos.

Se o tecido não se soltar com um puxão, o astronauta deve segurá-lo com o fórceps, esticá-lo e cortá-lo com a serra ou a tesoura.

"A serra é realmente para uma eventualidade", disse Robinson. "A idéia é puxar o enchimento com a mão ou com o fórceps."

Duzentos especialistas, pelo menos, foram envolvidos no esforço de criar e ensaiar uma estratégia em terra que garantisse a possibilidade de reparo sem danos para a espaçonave.

Robinson terá ainda a dificuldade do traje espacial, formulado para protegê-lo da falta de ar e das mudanças de temperatura quando a estação e o ônibus passam da luz do dia para a noite.

"Treinamos em vários ambientes --de realidade virtual ou em laboratórios submersos", disse David Wolf, da Nasa, que chefia o setor de caminhadas espaciais do departamento de astronautas. "Mas nada se compara ao espaço. Não tem cima ou baixo. Tudo pode estar escuro, pode gerar muita confusão."

Robinson e Noguchi já fizeram duas caminhadas no espaço na missão da Discovery. Durante a tarefa de reparo de hoje, Noguchi vai ficar posicionado perto da estrutura solar da estação, onde poderá vigiar o colega e, se necessário, agir como elo de comunicação entre Robinson e o Controle da Missão.

Câmeras do braço robótico da própria Discovery também vão transmitir para a Terra imagens ao vivo das atividades de Robinson.

Nesta missão, a primeira desde a tragédia da Columbia, o ônibus espacial foi extensamente analisado por câmeras e outros instrumentos durante o lançamento. Uma inspeção exaustiva do escudo térmico revelou as duas saliências do preenchimento.

Especialistas em vôos de alta velocidade convenceram os diretores da missão que mesmo uma pequena perturbação no fluxo de ar na parte inferior da Discovery durante sua descida para a Terra poderia causar maior turbulência e calor. As temperaturas, assim, podem exceder os limites das asas.

"Estamos bem no limite da capacidade do sistema. Há tantas incertezas, que resolvemos fazer o reparo. Não vamos correr riscos", disse o diretor de vôo da Discovery Paul Hill, que reverteu sua oposição inicial ao reparo no espaço. Protuberâncias na parte inferior da nave poderiam superaquecê-la Deborah Weinberg

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