Tatoos e piercings ainda dificultam achar trabalho

Tom McGhee
Em Denver, Colorado
The Denver Post

Antigamente, Eddie Campbell não teria entrado em nenhuma lista de candidatos a um alto cargo. Campbell, 25, usa pequenos brincos de prata nas orelhas. Um anel perfura seu lábio e dois parafusos de língua aparecem quando ele abre a boca. "Tive de tirar todas as minhas jóias antes de procurar emprego", ele disse.

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Eddie Campbell manteve seus piercings e conseguiu um bom emprego mesmo assim
Seu atual patrão diz que os adereços não importam. "Temos uma filosofia muito simples", disse Larry Leith, dono da rede de restaurantes Tokyo Joe's, da qual Campbell é gerente. "Você deve ter a mente aberta para qualquer pessoa que entre pela sua porta. O negócio é descobrir o conteúdo da pessoa, e não a embalagem."

Leith aceita tão bem os piercings e tatuagens que nas mesas do escritório de contratação da empresa há cartões dizendo: "Os poucos, os orgulhosos, os perfurados".

Empregadores mais tradicionais --especialmente os que contratam para cargos profissionais, de gerência e vendas-- continuam avessos à arte corporal visível.

"Não imagino um conselho da Fortune 500 se entusiasmando por um sujeito que chegue com um aro no nariz. Ainda acho que é bastante tabu", disse Fred Thompson, diretor do escritório em Denver da recrutadora de executivos Korn/Ferry International.

Alguns funcionários tatuados e perfurados aprenderam a contornar as objeções de seus patrões. Os braços de Heidi Scheck são cobertos por uma confusão de tinta colorida. Um aro atravessa seu nariz e pingentes de prata caem dos alargadores de 2 centímetros enfiados em suas orelhas. Scheck, 25, exibe tudo isso em seu emprego no balcão da Twisted Sol, um ateliê de tatuagem e piercing em Denver.

Mas quando ela vai para seu outro emprego, na SoundTrack, retira o anel do nariz, substitui os vistosos "plugs" de prata das orelhas por um par mais discreto e usa camisa de mangas compridas para esconder as tatuagens. "Eles têm um código de vestimenta", ela explica.

Apesar das objeções de alguns, a arte corporal, que já foi um sinal de excentricidade, exotismo ou machismo, está rapidamente sendo adotada pela corrente dominante. E as empresas vão ter de enfrentar essa tendência, segundo especialistas em recursos humanos.

Uma pesquisa da Clínica Mayo com 454 estudantes de graduação em 2002 mostrou que mais da metade tinha algum tipo de perfuração corporal --excluindo os lóbulos das orelhas das mulheres.

Um em cada dez americanos tem tatuagem, comparado com um em cada cem, três décadas atrás, segundo a Aliança de Tatuadores Profissionais de Annapolis, Maryland. Uma pesquisa da Harris Interactive descobriu que um em cada três americanos entre 25 e 30 anos tem tatuagem.

A publicidade e a cultura pop fazem parecer que os piercings e tatoos podem coexistir com a vida profissional. Uma publicidade do rum Bacardi apresenta uma modelo curvilínea com uma bebida na mão e a tatuagem de um morcego na parte inferior da costas. "Bibliotecária de dia, Bacardi de noite", diz o anúncio.

"Cinco anos atrás não víamos tantas tatuagens e piercings como vemos hoje", diz Diane Blau, presidente da firma de colocação profissional Fortress Staffing Group, em Denver. A companhia de Blau assessora os candidatos a empregos --incluindo jovens que fazem sua primeira incursão no mercado de trabalho-- sobre a importância da aparência, entre outros assuntos. Ela sugere que os candidatos retirem qualquer piercing visível e cubram as tatuagens.

Wael Batal, 25, experimentou a aversão que alguns patrões têm pelas jóias faciais. Quando ele se apresentou para um emprego numa loja de artigos esportivos em Boulder, lhe disseram que teria de retirar os adornos metálicos que usa na sobrancelha e no lábio. "Eu disse que não faria isso", ele conta. Não conseguiu o emprego e hoje trabalha no Tokyo Joe's.

As estações de esqui do Colorado podem cultivar uma imagem moderna para atrair um público jovem, mas a Vail Resorts exige que os empregados retirem as jóias faciais e cubram as tatuagens, disse a porta-voz da empresa, Kelly Ladyga. "Temos padrões de conduta, e achamos importante que a impressão que damos aos hóspedes seja profissional e amistosa."

Em uma pesquisa recente com gerentes, o site de profissões na web Vault.com descobriu que 58% tinham menor probabilidade de contratar alguém com tatuagens e piercings visíveis. Os candidatos com arte corporal simplesmente não se encaixam na norma atual do mundo corporativo, disse Martin Pocs, vice-presidente do escritório em Denver da firma de recrutamento de executivos DHR International.

Os gerentes que estão contratando pensam: "Será algum tipo de radical, uma espécie de espírito livre, alguém que está tentando ser um indivíduo, mais que um jogador da equipe?"

Com tantos jovens adotando a arte corporal, as empresas terão de repensar seus códigos de aparência, ou correrão o risco de exacerbar a potencial falta de mão-de-obra, disse John A. Challenger, principal executivo de colocações globais da firma Challenger, Gray & Christmas.

O Escritório de Estatísticas do Trabalho, agência federal dos EUA, estima que haverá 167,7 milhões de empregos no país até 2010. Mas somente 159,9 milhões de trabalhadores estarão disponíveis para preencher esse postos. Nesse período, o aumento do número de americanos com mais de 65 anos vai eclipsar o índice de crescimento das faixas etárias que serão necessárias para substituí-los.

"As companhias inteligentes realmente deveriam examinar essas estatísticas da Clínica Mayo e dizer: 'Isso é apenas o jeito desses estudantes. Não tem muita importância. Eu quero encontrar as melhores pessoas possíveis", disse Challenger.

Preocupações com o emprego levam algumas pessoas a mandar remover suas tatuagens, processo caro, demorado e doloroso, segundo Jonathan Lee, um médico que usa laser para apagar tatuagens. Geralmente custa entre US$ 3 mil e US$ 5 mil para retirar uma tatuagem do tamanho de uma bola de tênis, disse Lee, que é dono da Expert Laser Clinic.

Valerie Medina, 20, uma ex-membro de gangue, procurou Lee na semana passada para a primeira das várias sessões necessárias para retirar de sua mão as letras VL --iniciais de "Vida Loca", uma gangue de St. Louis. Medina vai pagar cerca de US$ 200 por sessão. "Não é profissional ter tatuagens em lugares onde as pessoas possam ver", ela disse. "Estou tentando trabalhar como enfermeira."

As leis de igualdade no emprego proíbem que as empresas adotem decisões de contratação com base em idade, gênero, raça e religião. Mas os tatuados e perfurados não constituem uma classe protegida.

Os funcionários têm pouca proteção contra a discriminação baseada na aparência, a menos que haja outro preconceito envolvido, disse Jen Jorgensen, porta-voz da Society for Human Resource Management. Mas na sociedade litigiosa de hoje, as corporações precisam tomar cuidado para elaborar códigos de aparência, tendo em mente uma sólida razão comercial, ela acrescentou.

Depois que a Costco proibiu todas as jóias faciais, com exceção de brincos, em 2001, uma funcionária em Massachusetts foi ao tribunal. Em seu processo de US$ 2 milhões por discriminação religiosa, Kimberly Cloutier, que é membro da Igreja da Modificação do Corpo, disse que seu piercing na sobrancelha é uma obrigação religiosa. Um tribunal de apelação federal recusou o caso no ano passado.

Algumas empresas, especialmente as que exigem criatividade, têm maior probabilidade de adotar os perfurados e tatuados do que outras, disse Challenger. "Você vê muito mais disso na tecnologia, entretenimento, publicidade e marketing, e menos em áreas mais tradicionais."

Firmas de advocacia ou de contabilidade, bancos e outras empresas mais sisudas geralmente preferem uma aparência conservadora. A tolerância por funcionários tatuados e perfurados em restaurantes depende do cargo. Os funcionários da cozinha, que não lidam com o público, podem sofrer menos restrições sobre sua aparência.

Em funções de atendimento, os garçons de restaurantes caros provavelmente têm menor probabilidade de usar arte corporal do que seus colegas em estabelecimentos menos caros, disse Cindy Weindling, vice-presidente executiva da Associação de Restaurantes do Colorado. Mas a tendência é que os empregadores se tornem mais tolerantes Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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