George W. Bush enfrenta baixa popularidade e abatimento em seu segundo mandato

John Alysius Farrel
The Denver Post
Em Washington

Abalado pela guerra, marcado por escândalos e questionado pelo vigor surpreendente dos seus inimigos domésticos, o segundo mandato do presidente Bush chegou a um tal ponto de apatia que, se não forem tomadas providências rápidas, a situação poderá penalizar o seu partido nas eleições do ano que vem e macular a sua presidência, dizem analistas e estrategistas políticos.

A guerra no Iraque continua custando vidas e dinheiro, e há tantos fracassos quanto sinais tangíveis de progresso. Agosto tem sido um dos períodos mais caros, em termos de mortes de soldados norte-americanos em combate, do que qualquer outro desde a queda de Bagdá.

Apesar de todos os seus esforços, a grande iniciativa doméstica de Bush --a árdua transformação política do Social Security (a previdência social norte-americana) em um sistema misto público e privado-- empacou no Congresso controlado pelos republicanos.

E os principais estrategistas republicanos --como o líder da maioria na Câmara, Tom DeLay, o vice-chefe da equipe da Casa Branca, Karl Rove e outros assessores de Bush-- estão distraídos pelas investigações federais de suas condutas profissionais.

Aliados republicanos no Congresso têm lutado abertamente contra a Casa Branca em questões como os gastos indevidos do governo e as pesquisas com células-tronco. Um cenário econômico que tinha tudo para ser róseo vem sendo destroçado pelos preços crescentes dos serviços médicos e da gasolina.

"Se eu estivesse sentado na cadeira de Karl Rove, não me sentiria muito encorajado", diz o estrategista republicano Ed Rollins. "Não houve boas novas desde janeiro... a legislação presidencial relativa ao Social Security não avançou nem um pouco... a guerra no Iraque não se desenrolou como todos desejariam".

As atuais pesquisas de opinião dão a Bush o seu menor índice de aprovação no cargo. Após obter um índice médio de aprovação de 62% no seu primeiro mandato, Bush só conta agora com a aprovação de 44% dos eleitores, segundo uma recente pesquisa nacional Gallup.

Segundo o Gallup, Bush fica atrás dos presidentes Eisenhower, Reagan, Clinton e Truman, e empatado com Richard Nixon (44% em meio à crise de Watergate) e Lyndon Johnson (42% durante a Guerra do Vietnã) em períodos equivalentes de seus mandatos.

"Normalmente, um presidente conta com um período de 18 meses no segundo mandato para conseguir a aprovação de legislações significativas", afirmou David Gergen, analista e assessor que serviu na Casa Branca sob governos democratas e republicanos, durante um fórum sobre segundos mandatos presidenciais promovido pelo Instituto de Empreendimentos Americanos.

"No caso de Bush, esse período pode ter acabado prematuramente. A sensação quase que uniforme é que o seu segundo mandato está entrando para o panteão de outros segundos mandatos medíocres", disse Gergen.

Na memória recente, Nixon, Johnson, Clinton, Reagan (o escândalo Irã-Contras) foram afetados por períodos depressivos de segundo mandato. Eles seguiram a trilha de, entre outros, Thomas Jefferson, Franklin Roosevelt e Woodrow Wilson.

"Os segundos mandatos são caracterizados por arrogância, perda de energia, falta de novas idéias, escândalos, divisões no seio do próprio partido, problemas junto à base ideológica e uma oposição unida", explica Norman Ornstein, analista do Instituto de Empreendimentos Americanos.

"Creio que a questão da arrogância é a mais significativa neste caso", diz Ornstein. "Na Casa Branca a crença era de que eles haviam suspendido as regras normais da política e que não precisavam se preocupar com aqueles problemas que afligiram segundos mandatos anteriores. E agora descobriram que quase todos esses problemas estão presentes".

Freqüentemente --como em 1938, 1958, 1974 e 1986-- as eleições congressuais que ocorrem em meio a segundos mandatos presidenciais se constituem em fracassos para o partido presidencial, observa Ornstein.

Devido ao fato de os presidentes de hoje se protegerem com reformulações distritais e arrecadação excessiva de verbas, não é provável que presenciemos desastres de tais proporções", afirma Ornstein. "No entanto, o nível de nervosismo cresce entre os parlamentares republicanos à medida que 2006 se aproxima, já que as eleições serão um referendo sobre uma guerra fracassada".

"Os membros do Congresso estão 'tomando marteladas' quando vão aos seus redutos eleitorais e discutem a guerra com os seus eleitores", diz o consultor político James Carville. "Eles não podem continuar perdendo apoio público neste ritmo".

Como os republicanos contam com maiorias relativamente estreitas nas duas casas do Congresso, qualquer erosão sofrida nas eleições de 2006 tornará as coisas mais difíceis para o partido, especialmente para um presidente que não possui um sucessor prontamente identificável para disciplinar e unir o partido.

Bush, que está no Texas para férias de um mês, terá pela frente várias oportunidades para mudar este estado de coisas. A percepção popular da situação no Iraque poderá melhorar caso os políticos atendam ao prazo que expira nesta segunda-feira (15/08) para a redação de uma nova constituição e preparem um referendo político para outubro e façam eleições em dezembro.

O juiz John Roberts, nomeado para a Suprema Corte, poderá conquistar aprovação nacional e obter uma confirmação rápida após as audiências que terão início em 6 de setembro. Quando retornarem do recesso de verão, os republicanos do Congresso poderão reativar o plano para o Social Security ou lançar uma outra iniciativa do presidente: a reforma fiscal.

Qualquer dessas medidas se fundamentará em um histórico legislativo de segundo mandato que inclui a aprovação de importantes legislações relativas aos setores de energia e de transporte e à questão das falências, além de não prescindirem de um crescimento econômico consistente. Esse sucesso, por sua vez, melhoria a já considerável estatura de Bush como líder político.

"Pode muito bem ser que, no futuro, ele seja lembrado, entre outras coisas, pelo seu legado político. Ele é um político formidável", afirma Gergen. "George W. Bush fez algo realmente importante no campo político. Bush é o primeiro presidente desde Franklin Roosevelt cujo partido ganhou consistentemente cadeiras no Congresso enquanto ele disputava o cargo".

"O presidente dos Estados Unidos lidera no que diz respeito às grandes questões", afirma o líder da maioria no Senado, Bill Frist, do Tennessee, rejeitando a idéia de que Bush foi reduzido a um "pato manco". "Ele lidera com coragem. E lida com questões que algumas pessoas acham que não podem ser resolvidas".

Frist diz ainda que os problemas de Rove não podem ser comparados aos escândalos que atingiram os presidentes Nixon, Reagan e Clinton nos seus segundos mandatos.

"Com base em tudo o que li, não vejo absolutamente nada de errado", diz Frist.

Em uma série de eventos na semana passada, Bush e seus assessores procuraram fazer com que a atenção do país se voltasse para sinais econômicos positivos. Os indicadores mostram que a economia está em expansão e que a indústria dos Estados Unidos tem se tornado mais produtiva, sem perigos de surtos de inflação.

"A economia está crescendo mais rapidamente do que a de qualquer outra grande nação industrializada. O aumento do número de empregos é forte", disse Bush. "O índice de desemprego é de 5%, o que está abaixo da média dos anos 70, 80 e 90. Os norte-americanos estão com dinheiro no bolso".

Mas Bush e a sua equipe econômica admitem que não possuem um remédio imediato para os aumentos recordes do preço do petróleo, e tampouco para a elevação dos custos dos serviços e planos de saúde. Ben Bernanke, diretor do conselho de assessores econômicos da Casa Branca, reconhece que os custos da energia e da saúde representam grandes "riscos para a economia".

Os dois pontos vulneráveis da economia podem ajudar a explicar por que, em um período de expansão econômica, tantos norte-americanos ainda dizem nas pesquisas de opinião que o país está no rumo errado, e que desaprovam a maneira como Bush conduz a economia.

Grande parte das principais legislações aprovadas pelo Congresso --para manter Terri Schiavo vivas (mesmo vegetativamente), aumentar a produção de energia, promover o comércio exterior ou proteger credores e fornecedores de serviços de saúde --ofereceu pouco alívio imediato às famílias trabalhadoras e são vistas por muitos cidadãos como recompensas aos eleitores republicanos. A popularidade de Bush tampouco foi ajudada pelas fotos que o mostram apertando a mão de príncipes sauditas.

"Durante 101 dias o Senado dos Estados Unidos esteve aberto para negócios. E por 101 dias os republicanos colocaram os interesses especiais à frente dos interesses das famílias norte-americanas", critica o líder da minoria no Senado, Harry Reid, de Nevada. "Para quem for lobista da Exxon, juiz de tendências direitistas ou um vazador da Casa Branca, então, sim, esse foi um período produtivo".

E, acima de tudo, paira a guerra.

"Este é, de longe, o principal problema enfrentado por Bush", diz Harry McPherson, que integrou a equipe de Lyndon Johnson durante a Guerra do Vietnã.

"As guerras no Iraque e no Afeganistão não são boas novas no momento, e como alguém que participou de um governo fracassado em momento similar, a mim parece que estamos nos aproximando cada vez mais da situação do final dos anos 60". O governo reage com apatia a dificuldades domésticas e no Iraque Danilo Fonseca

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