Apesar da discriminação, aumenta número de ateus nos EUA

Melissa Fletcher
San Antonio Express-News

Melissa e Chanse mordiscam sanduíches e batatas fritas em uma lanchonete local. Para quem os vê, eles são apenas mais um jovem casal saboreando um lanche em uma tarde de fim de semana. Ela usa óculos de armação elegante e a sua densa cabeleira negra está amarrada em um rabo de cavalo.

O único sinal de uma pequena tendência rebelde é uma tatuagem que pode ser parcialmente vista por sob a manga da camisa. Ele é um homem pequeno, de fala mansa, calmo e de barba cerrada. O filho do casal, Echo, um garoto de olhos castanhos, de cinco anos, está sentado entre os pais. Como quaisquer pais do mundo, eles dizem ao garoto para que permaneça sentado e termine de comer os ovos mexidos.

Melissa e Chanse são jovens ateus. Eles não acreditam em Deus. E estão criando o filho de forma que este questione a existência de Deus em meio a uma sociedade composta majoritariamente por crentes. São parte de uma minoria pequena, mas substancial, que caminha em sentido contrário à maioria religiosa dos Estados Unidos, representando uma tendência que tem se tornado mais visível ultimamente, à medida que as questões relativas à fé estão cada vez mais emaranhadas à política e às decisões da administração pública.

Embora o casal tenha concordado em falar sobre as suas crenças - ou sobre a ausência destas -, os dois se negaram a permitir que o seu sobrenome, que é claramente de origem hispânica, fosse revelado. A mãe de Chanse trabalha em um escritório administrado por cristãos conservadores. Chanse teme que o fato de falar publicamente a respeito da sua condição de ateu possa trazer conseqüências negativas para a mãe. Isso expressa o dilema enfrentado atualmente pelos ateus nos Estados Unidos.

Ultimamente, a face pública do ateísmo tem sido Michael Newdow, que moveu uma ação contra o governo por este ter obrigado a sua filha a repetir a expressão "sob Deus" no juramento de lealdade à bandeira e à república norte-americanas. A Suprema Corte dos Estados Unidos acabou rejeitando o seu caso, afirmando que ele não demonstrava uma postura paterna apropriada com relação à filha. A história foi manchete na mídia durante meses.

Mas a maioria dos ateus não quer manchetes nem escândalos. Eles desejam simplesmente viver suas vidas sem brigas ou pressões. "As pessoas lhe dizem: se você é ateu, deve adorar a Satã'", diz Melissa, enquanto mergulha as batatas fritas em ketchup. "Elas não entendem que se você não acredita em Deus, também não acredita no demônio". Eles lamentam o fato, afirmando que os ateus são a última das minorias do país que se
constitui em alvo declarado do fanatismo. Os especialistas que estudam a religião na vida pública concordam.

"Os ateus não são muito bem vistos nos Estados Unidos", diz John Green, pesquisador do Fórum Pew de Religião e Vida Pública. "Ainda é aceitável criticar os ateus de uma forma impolida. Os indivíduos podem alimentar imagens negativas quanto a judeus, católicos, muçulmanos ou evangélicos, mas sabem que não devem expressar tais idéias. Mas ainda não há problema algum em falar mal dos ateus".

A maioria esmagadora dos cidadãos norte-americanos professa algum tipo de fé religiosa, embora uma porção bem menor realmente compareça aos cultos religiosos regularmente. O cenário público tem ficado cada vez
mais dominado pela retórica religiosa (especialmente a cristã), desde os "eleitores que votam em valores" da eleição presidencial de 2004, até os tópicos culturais polêmicos que passam por questões religiosas - aborto, direitos dos gays, pesquisa com células-tronco, "desenho inteligente" da vida, iniciativas baseadas na fé e direito a morrer.

Os juízes dão pareceres favoráveis e contrários à exibição pública dos Dez Mandamentos. Os políticos parecem competir uns com os outros para demonstrarem quem professa a espiritualidade de forma mais sincera.
Um filme mostrando as últimas horas da vida de Jesus bate recorde de bilheteria. Um presidente declaradamente religioso proclama que Jesus foi o filósofo que exerceu maior impacto sobre sua vida.

Mas, ao mesmo tempo, há uma corrente contrária em ação. Um estudo realizado pelo Centro de Pós-Graduação da City University de Nova York revelou que o número de pessoas que se descreve como "não religiosa" mais do que dobrou de 1990 a 2001, passando de 14,3 milhões para 29,4 milhões. O único outro grupo que também cresceu foram os muçulmanos.

"Neste momento, a identidade religiosa que cresce mais rapidamente nos Estados Unidos é a dos não religiosos", afirma Dan Barker, vice-presidente da Fundação Liberdade da Religião, um grupo de Madison, no Estado de Wisconsin, que defende a separação entre igreja e Estado e trabalha no sentido de educar a população sobre o ateísmo.

Um estudo feito pelo Fórum Pew de Religião e Vida Pública revelou que 16% dos norte-americanos (cerca de 35 milhões de pessoas) se consideram "não afiliados" - uma categoria que inclui "crentes não afiliados", "secularistas" e ateus/agnósticos. Segundo Green, o último termo - ateus/agnósticos - é uma aglutinação porque os dois grupos têm muita coisa em comum. Mas há uma diferença sutil. Os ateus afirmam
diretamente que não existe Deus. Já os agnósticos dizem simplesmente que os seres humanos nunca poderão saber se Deus existe ou não. Juntos, eles representam 3% da população norte-americana. "São seis milhões de pessoas", explica Green. "A título de comparação, existem 54 milhões de adultos católicos".

Mas, ao se olhar a questão por outro ângulo, o grupo formado por ateus e agnósticos é maior do que a população judaica, que corresponde a cerca de 2% dos adultos norte-americanos. Segundo Green, os ateus e agnósticos, como grupo, tendem a possuir alto nível educacional e a ser
politicamente liberais (embora, de acordo com Green, existam republicanos ateus). Eles tendem a se concentrar nas grandes cidades das costas leste e oeste. Geralmente são jovens, e há mais homens do que
mulheres nessa categoria.

Mas no que exatamente acreditam os ateus, já que não crêem em Deus? Resumindo, os ateus acreditam somente na razão, naquelas coisas às quais se pode chegar por meio do intelecto e do método científico. Eles
argumentam que simplesmente não há evidência concreta da existência de Deus. E não admitem atos de fé ou qualquer coisa que implique em um envolvimento de um ser sobrenatural nas vidas humanas. Eles acreditam que
é possível levar uma vida feliz e respeitável baseada em uma ética humana que não foi entregue por Deus em tábuas de pedra, mas que deriva de um código de regras que emergiu naturalmente no decorrer de um processo evolucionário no qual os seres humanos aprenderam como
viver juntos com sucesso.

"E para quem quer que realmente acredite que os seres humanos de fato roubariam ou matariam se simplesmente não existisse Deus, eu diria: 'Por favor, permaneça na sua religião'", afirma com ironia Bobbie Kirchart, presidente da Aliança Ateísta Internacional. Eles acreditam que o sentido é derivado da forma como se vive a vida agora, e não de uma promessa de recompensa eterna no além-mundo. Eles se recusam a cultuar uma divindade que teria montado o universo de uma forma que entendem como sendo muito injusta.

"Se existisse um Deus que fosse tão malicioso a ponto de me torturar eternamente simplesmente porque eu não acredito nele, quando ele se esconde de mim e não se faz conhecer, bem, em tal caso eu não desejaria adorar a esse Deus", afirma Virginia Glassner, uma atéia de Austin, Texas. "Eu arriscaria a minha sorte no inferno". Enquanto um surto evangélico toma lugar nos EUA, a minoria atéia foge de manchetes e escândalos Danilo Fonseca

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