Depois de cinco temporadas funestas, "Six Feet Under" descansa em paz

David Kronke
do Los Angeles Daily News

"Six feet under" -a série da HBO que revolve em torno de uma casa funerária- está aceitando seu próprio fim.

O episódio final de hoje começa com um nascimento, em vez das cenas bizarras de morte que abriram os episódios das últimas cinco temporadas. Os personagens do programa têm seus últimos momentos de glória.

O episódio é um forte contraste com o ambiente mais carrancudo das duas últimas temporadas, pesadas pela depressão e agonia dos personagens principais que culminaram, há duas semanas, na morte de Nate (Peter Krause), principal personagem do início da série.

"É um final tão feliz quanto possível", admite Alan Ball, roteirista vencedor de Oscar ("Beleza Americana") que criou a série para a HBO. "Acho que é verdadeiro. Você vê todo mundo saindo daquela sombra do luto por Nate."

A série "Six Feet Under" se concentra na família Fisher, que opera uma funerária: Nate, uma alma tranqüila reticente em assumir o negócio da família depois da morte do pai; seu irmão, David (Michael C. Hall), homossexual que procura sua identidade; sua irmã, Claire (Lauren Ambrose), a jovem rebelde que nunca sentiu que se encaixava em qualquer família ou dinâmica social; e Ruth (Francês Conroy), a matriarca viúva que reprime suas próprias paixões para manter o contentamento familiar.

Sem entregar nada, o canto do cisne de "Six Feet Under" talvez passe mais a sensação de conclusão do que qualquer final de série da história da TV. Isso pode ser ainda mais surpreendente para os telespectadores que ficaram chocados quando o programa matou Nate muito antes do grande final de hoje.

"Havia muita resistência entre os autores em matar Nate, mas eu não via outra solução igualmente verdadeira ao tema da série", explica Ball.

Quando estreou, "Six Feet Under" foi elogiado pelos críticos por seu ponto de vista único. O programa abordava tópicos como morte, pesar, tristeza e incesto com uma liga tão cuidadosa e inteligente que parecia um raio.

"Era inesperada e sombriamente hilariante, sobre um tópico que perturba muita gente -a morte. Ao mesmo tempo, transmitia noções sobre os fatores que unem uma família enquanto se choca por todas as loucas diferenças internas", observa Gloria Goodale, que cobre televisão para o The Christian Science Monitor.

"As pessoas inicialmente reagiram por causa da força do elenco e da exploração do embate entre a vida e a morte. É um assunto que a televisão -e todo mundo- tende a ignorar, a não ser pelos programas de crimes e hospitais. Essa série certamente trouxe à tona o assunto da mortalidade -com um humor muito negro e surrealista", diz Robert Bianco do USA Today.

No início da série, as primeiras cenas dos episódios -de mortes cômicas ou sinistras- criavam histórias em torno das várias formas que as famílias lidam com o pesar e a culpa de sobreviverem aos mortos. Ball disse que tirou inspiração para as imagens líricas do processo de luto dos romances premiados do coveiro Thomas Lynch ("The Undertaking").

"Ele escreve sobre a morte de uma forma tão incrivelmente não sentimental e ainda assim poética e espiritual -não de uma forma tradicional e dogmática", disse Ball ao Daily News pouco antes da série estrear em 2001. "Ele tem verdadeiro apreço pela vida e seus pequenos momentos. É isso que quero transmitir."

Por um tempo, essa foi a marca da série.

"Todo mundo no clã profundamente perturbado dos Fisher estava infeliz com a família, mas ao mesmo tempo, uns não conseguiam se afastar dos outros, por todo tipo de razões emocionais não resolvidas, sem mencionar as financeiras. A situação cria uma comédia dramática profundamente comovedora nas mãos de um bom autor, como Alan Ball", diz Goodale.

Nas últimas temporadas, porém, o drama vencedor de Emmy perdeu metade de seu público. Grande parte da queda foi atribuída à impaciência do público com os aspectos novelescos crescentes da série. Nate, particularmente, parecia exasperar os fãs, adernando em casamentos grotescamente infelizes, como seu pai.

"Por fim, morreu em razão das demandas de uma série longa -existe um limite de quanto tempo você consegue manter seus personagens rodando em círculos emocionais e psíquicos antes de encontrarem a paz e a felicidade eternas", observa Goodale. "O fato de Nate, que era desde o início o centro dramático do programa, acabar sendo um tamanho bobo mostrou que o programa, assim como ele, estava liqüidado."

"No final, ficou desgastado", concorda Bianco. "Esses personagens começaram a parecer moldados para os assuntos que os autores queriam trabalhar. Ninguém poderia passar por tantos traumas em tão pouco tempo."

Mesmo o diretor da HBO Chris Albrecht admite. "Compreendo parte da impaciência das pessoas com o programa no ano passado. Acho que o tema de Lisa (Lili Taylor), casando com Nate sem a menor motivação na terceira temporada tornou-se uma distração -e isso acontece. Acontece em todas séries."

Ball defende a direção tomada pelo programa. "Eu só queria ver as pessoas tentando viver vidas autênticas, em um mundo cada vez menos autêntico."

Talvez "Six Feet Under" pareça estar sofrendo de morte prematura porque não é uma série dramática qualquer. "Já estreou com elementos dramáticos extremos", observa Goodale. "Provavelmente percorreu seu curso mais rápido que outros dramas por ter começado já tão radical."

Mesmo assim, depois de passar cinco temporadas envolvido com um programa que, para bem ou para mal, inspirava reações extremas, Ball está pronto para partir para outra.

"Passei tempo demais da minha vida contemplando a mortalidade e o luto e olhando para o abismo. Agora sinto que já fiz isso o suficiente, por um tempo", diz ele. É muito excitante ser liberado desse mundo e desses personagens."

Mas Ball não deixou os espectadores a ver navios. Apesar de repleto de seu humor negro usual, o final de "Six Feet Under" tem certa elegância, com a mensagem que a vida continua.

"Todo mundo no programa sofreu tanto, que me senti bem (dando a eles alguma tranqüilidade), de fato", diz Ball. "Para mim, e provavelmente essa é uma forma leve de loucura, esses personagens parecem gente de verdade."

Chegou o fim de "Six Feet Under"

No primeiro episódio, o diretor da funerária e patriarca Nathaniel Fisher (Richard Jenkins) encontrou seu final chocante quando seu carro fúnebre colidiu com a traseira de um ônibus. Desde então, "Six Feet Under" -que terá seu último episódio no domingo na HBO -chocou, divertiu e revoltou o público com cenas de morte abrindo cada episódio. Com ironia amarga, essas mortes renderam muito para a Funerária Fisher.

Aqui vai uma lista de nossas mortes favoritas, as mais absurdas, todas provando que partir é um sofrimento doce:

- Dois sujeitos estão deitados em cima de bonecas de hélio tamanho real na traseira de sua caminhonete. Uma delas escapa. Uma mulher religiosa vê a forma subindo aos céus. Ela fica olhando a boneca enquanto atravessa a rua e é atropelada por um carro (Temporada quatro, episódio três: "In Case of Rapture").

- Um funcionário de uma padaria explica ao novo colega que a máquina de misturar a massa tem que ficar limpa para evitar baratas. Ele vê um bicho, cai dentro e é estraçalhado pela máquina; no mesmo episódio, Claire, (Lauren Ambrose) rouba seu pé para fazer uma brincadeira de mau gosto. (Temporada um, episodio três: "The Foot".)

- Um homem vestido de Papai Noel bate sua Harley em um caminhão, em frente ao grupo de crianças que deveria entreter. (Temporada dois, episódio oito: "It's the Most Wonderful Time of the Year").

- Essa seqüência é enganosa, pois quem vê acha que o sujeito tentando ligar a chama piloto em seu fogão vai explodir. Em vez disso, recebe uma ligação de uma empresa de telemarketing, que descreve o como um funcionário enraivecido atirou nos colegas e se suicidou. (Temporada três, episódio dois: "You Never Know").

- Uma mulher sai de casa, quando é atingida por lixo congelado azul, cortesia de um avião que está passando pelos céus. (Temporada três, episódio 13: "I'm Sorry, I'm Lost").

- Um homem dando ré em sua van, saindo da garagem, tenta pegar o jornal no chão. Ele cai do carro, que prontamente o atropela. Sim -o sujeito se atropelou. (Temporada cinco, episódio dois: "Dancing for Me").

- Uma mulher preparando-se para um banho vangloria-se de sua própria beleza e do seu namorado que está para chegar. Ela entra na banheira. Então, vemos que estava conversando com um gato, que prontamente derruba o secador de cabelo na banheira, eletrocutando-a. (temporada um, episódio cinco: "An Open Book").

- Quatro passageiros estão presos em um elevador. Um consegue sair e, enquanto tenta tirar os outros, as portas fecham com força, e o elevador mergulha um ou dois andares, partindo-o em dois. (Temporada quatro, episódio 12: "Untitled"). Deborah Weinberg

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