Bush mantém sua política, apesar de queda de popularidade

James Rosen, em Washington
do McClatchy News Service

À medida que os seus índices de aprovação despencam durante estes azarados dias de agosto, o presidente Bush poderia encontrar consolo ao refletir sobre o percurso histórico de altos e baixo na popularidade de um dos seus predecessores.

Em abril de 1951, logo após ter removido o general Douglas MacArthur do comando das tropas dos Estados Unidos na Coréia, Harry Truman afundou-se em uma impopularidade presidencial recorde: só 23% dos cidadãos norte-americanos aprovavam o desempenho do presidente nascido no Missouri, o pior índice já registrado.

Mas, hoje em dia, Truman aparece regularmente como um dos dez principais presidentes em pesquisas acadêmicas feitas junto a historiadores, assim como em pesquisas mais amplas, feitos com a população norte-americana, que reconhecem que o Plano Marshall e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), marcas registradas da sua administração, ajudaram a reconstruir a Europa e contribuíram para a vitória dos aliados sobre a União Soviética na Guerra Fria.

"A história ainda não escrita determinará como Bush será visto daqui a meio século", opina Charles Franklin, professor de ciência política da Universidade de Wisconsin. "Mas na política de curto prazo, que é a que tem importância no dia a dia, o Iraque é claramente um grande peso negativo que o faz afundar, e que ameaça potencialmente arrastar para baixo o Partido Republicano nas eleições de metade de mandato do ano que vem".

Agosto é normalmente um mês calmo e de clima sufocante, quando novas articulações políticas costumam ficar paralisadas e os presidentes norte-americanos se juntam aos norte-americanos para desfrutar as férias duramente conquistadas.

Mas este agosto quebrou a tradição, já que Cindy Sheehan e outros ativistas contrários à guerra dominaram a atenção da mídia em meio ao prosseguimento da violência e da convulsão política no Iraque.

Em três pesquisas de opinião feitas nesta semana, o índice de aprovação de Bush atingiu o ponto mais baixo dos seus 67 meses na presidência - 40% na pesquisa Gallup e na Harris, e 36% naquela realizada pelo American Research Group (Grupo Americano de Pesquisa). Em duas das pesquisas, nítidas maiorias de norte-americanos consideram agora um erro a decisão do Bush de invadir o Iraque em março de 2003.

Tendo sido reeleito em novembro do ano passado ao derrotar o senador John Kerry, Bush não precisa se preocupar novamente com o julgamento do eleitorado norte-americano. Porém, vários analistas dizem que os seus colegas republicanos, especialmente os deputados que disputarão eleições no ano que vem, e que já enfrentam campanhas eleitorais em alguns distritos, temem ser prejudicados por Bush e a sua postura desafiadora no sentido de manter a política aplicada à questão do Iraque.

Além dos números ruins para o presidente, verificados nas pesquisas, o senador Chuck Hagel, republicano de Nebraska e possível candidato à presidência em 2008, fez com que aumentassem esses temores no domingo retrasado, ao comparar a guerra no Iraque ao Vietnã. E o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, não ajudou a melhorar a situação quando, na terça-feira, decretou que serão enviadas mais tropas ao Iraque antes das eleições iraquianas de outubro - e previu que os insurgentes, que ele antigamente desprezava, chamando-os de "um punhado de bandidos", provavelmente intensificarão os ataques nas próximas semanas.

Alan Abramowitz, professor de ciência política da Universidade Emory, em Atlanta, disse que os resultados de uma recente eleição parlamentar especial em Ohio enviaram ondas de choque através dos escalões do Partido Republicano em todo o país.

No preponderantemente republicano 2º Distrito Eleitoral de Ohio, onde Bush obteve uma vitória esmagadora em novembro passado, o candidato republicano, Jean Schmidt, venceu por muito pouco o democrata Paul Hackett, um veterano do corpo de fuzileiros navais que atuou no Iraque e que fez uma vigorosa campanha contra a guerra.

"Isso envia uma mensagem assustadora aos parlamentares republicanos de todo o país que enfrentarão os eleitores no ano que vem", explica Abramowitz. "O que está fazendo com que o índice de aprovação de Bush despenque é a percepção de que a sua fala otimista a respeito de progressos no Iraque está se tornando cada dia menos convincente. Ela contradiz aquilo que a população vê todos os dias quando liga a TV".

Em meio às instáveis vicissitudes do índice de aprovação presidencial, Bush já experimentou alguns altos e baixos incomuns. Durante os dias que se seguiram aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o índice de aprovação de Bush chegou a 90%, o mais elevado desde que o Gallup começou a registrar a opinião pública em 1939.

Ao mesmo tempo, os índices de aprovação de Bush em janeiro de 2001 e janeiro deste ano - ambos em torno dos 50% - foram os mais baixos registrados para um presidente recém-eleito desde o início da 2ª Guerra Mundial.

Comparado aos nove presidentes que o precederam, o índice de aprovação de Bush de cerca de 50% o coloca em um patamar abaixo da média, perdendo apenas para os republicanos Richard Nixon e Gerald Ford, e para o democrata Jimmy Carter.

E, dentre os sete presidentes eleitos para um segundo mandato desde a 2ª Guerra Mundial, segundo a pesquisa Gallup, o atual índice de aprovação de Bush é o segundo menor no período equivalente de suas administrações, ficando apenas à frente dos 34% de Richard Nixon em agosto de 1973, quando emergiu o escândalo de Watergate.

Mas a maioria dos seus predecessores recentes enfrentou períodos nos quais os seus índices de aprovação caíram a patamares ainda mais baixos do que o atingido por Bush, como no caso dos 29% do seu pai, ou os 35% do democrata Lyndon Johnson e do republicano Ronald Reagan.

Durante um mandato abreviado por um assassinato, o democrata John F. Kennedy obteve o mais alto índice médio de aprovação registrado, de 70%, e o pior índice menos ruim, de 56%. Os norte-americanos rotineiramente o classificam como um dos maiores presidentes do país, mas os historiadores e cientistas políticos costumam minimizar a sua importância.

Apesar do seu impeachment durante o escândalo Monica Lewinsky, o predecessor imediato de Bush, o presidente Clinton, terminou o seu período de dois mandatos com um índice de aprovação de 65% - o mais elevado para um presidente que deixava o cargo.

Franklin, o cientista político da Universidade de Wisconsin, diz que o atual baixo índice de aprovação de Bush deveria ser especialmente preocupante para ele, já que é registrado pouco após de ter desfrutado de grandes triunfos parlamentares.

Antes de entrar em recesso no verão, o Congresso aprovou uma ampla legislação sobre o setor de energia, e ratificou o Acordo de Livre Comércio da América Central, duas medidas-chave que Bush vinha tentando implementar desde que chegou à presidência.

Segundo Franklin, parte da culpa por não ter capitalizado politicamente esses votos congressuais é do próprio Bush, já que ele se concentrou demasiadamente neste ano em acrescentar contas privadas ao sistema do Social Security (previdência social), uma iniciativa ousada que encontrou pouco apoio no Congresso.

Franklin compara a iniciativa de Bush com relação ao Social Security à tentativa mal sucedida de Clinton, no seu primeiro mandato, no sentido de reformular o sistema de saúde pública do país. Ambas as reformas contaram com grande apoio dos norte-americanos, diz Franklin, mas foram gradualmente perdendo força à medida que os seus detalhes foram ficando conhecidos e o número de oponentes aumentou.

Assim como outros especialistas, Franklin também compara a determinação de Bush quanto ao Iraque à recusa de Johnson a recuar quanto à operação militar dos Estados Unidos no Vietnã. Atualmente, o Iraque faz com que Bush se depare com o mesmo dilema enfrentado por Johnson há 40 anos.

"Se os presidentes comprometem a credibilidade dos nossos compromissos militares com retiradas de tropas no curto prazo, e um Vietnã ou um Iraque mergulham no caos, isso se transforma em um fracasso total da política dos Estados Unidos", explica Franklin. "Mas se as tropas permanecem e as baixas se acumulam, os presidentes enfrentam o declínio da popularidade e dos índices de aprovação". Danilo Fonseca

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