Reconstrução de Nova Orleans vai exigir muito dinheiro e vontade política

The Detroit News*

Por trás do sofrimento humano na costa do Golfo da Louisiana e do Mississipi, está um desafio que exigirá dos EUA muitos anos e bilhões de dólares para vencer: a reconstrução de Nova Orleans. A devastação na rota do furacão foi enorme e a recuperação será difícil --dezenas de cidades menores estão em ruínas. Mas restaurar a cidade é um problema único --não apenas de recursos, como de empenho nacional.

Poderemos criar outro Plano Marshall (que alocou US$ 12 bilhões para a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial) para os EUA? "Poderemos fazer maior e melhor?

Claro. O povo dos EUA quer Nova Orleans a qualquer custo? Essa não é uma questão técnica", disse John Durrant, diretor administrativo da Sociedade Americana de Engenheiros Civis, em Washington.

O reparo de Nova Orleans será feito em uma série de etapas sem precedentes, não em gênero, mas em escala. Os EUA já consertaram cidades atingidas por enchentes e furacões dezenas de vezes. Mas Nova Orleans vai exigir, como primeiro passo, a limpeza mais cara após uma catástrofe natural na história americana. Esta deverá ser seguida do maior projeto de engenharia civil já visto.

Essa obra será necessária para dar nova vida a Nova Orleans, que se situa em uma planície aluvial natural --local inadequado para uma cidade-- e que historicamente deve sua existência à engenharia humana, mas que teve um papel tão marcante na vida americana que seria impensável algo menos que uma completa restauração.

Segundo as melhores avaliações de especialistas, o projeto deverá seguir várias etapas:

  • Definir o envolvimento do governo federal. No reino das possibilidades políticas, quanto dinheiro, força humana e material serão destinados?

  • Limpar os destroços, reparar os serviços básicos destruídos, como eletricidade, água e comunicações e pontos comerciais;

  • Reconstruir estradas e pontes em uma escala que a maioria dos Estados levaria anos para pagar;

  • Demolir casas ameaçadas e destruídas, limpeza de terrenos, solucionar questões complexas de financiamento e propriedade e encontrar novos lugares para as pessoas morarem;

  • Reavivar a vida artística da cidade e seu interesse turístico;

  • Torná-la segura contra um futuro furacão de categoria 5, melhorando os diques e as bombas;

    Aqui estão os desafios, em detalhe:

    Custos

    Os US$ 10,5 bilhões que o Congresso aprovou rapidamente na quinta e sexta-feira passadas para iniciativas de socorro provavelmente serão uma pequena parcela do envolvimento do governo federal no esforço de resgate, recuperação e reconstrução.

    O deputado republicano Vernon Ehlers (Michigan), que faz parte da Comissão da Câmara com jurisdição sobre a administração de emergências, disse pensar que o comprometimento poderá atingir facilmente US$ 50 bilhões para a recuperação de um desastre que poderia ter sido evitado com um investimento de aproximadamente US$ 2 bilhões.

    "Uma das coisas mais frustrantes de servir nessa comissão é que o público americano não entende a necessidade de infra-estruturas e não deseja pagar o preço", disse Ehlers.

    Depois que as autoridades determinarem o que está coberto por seguros privados e pelo seguro federal contra inundações, os vastos recursos do governo federal entrarão em jogo na reconstrução de Nova Orleans, mas Ehlers disse que não sabe exatamente como ela será financiada.

    "Vamos aumentar os impostos ou vamos aumentar o déficit?", ele disse. "O debate no Congresso vai durar muitos meses, tenho certeza. Não sei como aumentar os impostos a menos que se coloque uma contribuição extra na conta de todo mundo no ano que vem."

    Ehlers disse que os americanos estão fazendo generosas contribuições financeiras e se oferecendo como voluntários, mas ele acredita que ficariam contrariados em pagar imposto para resolver um problema que poderia ter sido evitado com um planejamento melhor. Ele disse que o governo federal não tem alternativa a não ser aumentar os impostos.

    "Existe uma tradição disso", disse Ehlers, indicando as iniciativas de ajuda em furacões e inundações anteriores. "Todo mundo recorre ao governo federal porque somos os únicos que temos poder de empréstimo e capacidade financeira."

    O Departamento (Ministério) dos Transportes vai ajudar a reconstruir as estradas e pontes, e o Departamento de Serviços de Saúde e Humanos provavelmente ajudará a reconstruir os hospitais da região. A Administração de Pequenas Empresas será instrumental para fornecer empréstimos às empresas que quiserem se reconstruir.

    Desastre previsível

    Nova Orleans era um desastre natural previsível --uma enorme cidade costeira situada precariamente abaixo do nível do mar, cercada de montes de terra e concreto. Estes montes não foram projetados para suportar um golpe como o do Katrina.

    Uma das prioridades mais urgentes em Nova Orleans, segundo especialistas, é fortificar os diques e as barreiras contra enchentes que rodeiam a maior parte da cidade. Mas o trabalho à frente é tão incerto quanto maciço.

    "Por onde começar? Você salva vidas, alimenta as pessoas e lhes dá água. Depois disso, ninguém sabe a extensão do que precisa ser feito", disse Ken Topping, um ex-planejador urbano de Los Angeles que estudou a reconstrução de cidades depois de desastres. "É o maior desafio desse tipo. Ninguém experimentou uma coisa parecida."

    A onda empurrada pelo furacão rompeu os diques de Nova Orleans em três locais. As bombas que extraem a água da cidade não estão funcionando e precisam ser consertadas. Os vastos pântanos que já ajudaram a proteger a cidade de furacões poderosos desapareceram. Os urbanistas e engenheiros estão falando em deslocar bairros inteiros que foram mais atingidos pela inundação.

    Ninguém sabe quanto custará o conserto das defesas da cidade, mas o preço certamente será astronômico. "Vai custar bilhões apenas reparar o sistema de diques, para não falar na reconstrução da cidade. Isso é simplesmente estarrecedor, sem contar as outras comunidades da costa do Golfo", disse James Schwab, que estudou iniciativas de reconstrução após desastres naturais para a Associação Americana de Planejamento Urbano.

    Parte do desafio é que não há um esquema real para uma empreitada tão maciça. "Esta é uma recuperação de desastre de outro planeta", ele disse.

    Mas também há uma sensação crescente de que Nova Orleans era um desastre previsível. Engenheiros advertiram diversas vezes que os diques que contêm o lago Pontchartrain, próximo à cidade, não suportariam muito mais que um furacão modesto. Desde 2001 o Congresso e o governo Bush cortaram quase pela metade as verbas dos dois principais programas de controle de enchentes da cidade --incluindo os diques gigantes. No ano passado o governo aplicou cerca de US$ 42 milhões.

    "Estamos lutando há muito tempo para reforçar os diques e conseguir pleno financiamento para eles. Espero que os pedidos não encontrem mais ouvidos moucos", disse Brian Richardson, porta-voz da senadora democrata Mary Landrieu, da Louisiana. "Dinheiro teria nos salvado? Infelizmente, nunca saberemos."

    Não bastará apenas consertar os buracos na muralha protetora. O Katrina cedeu no último instante antes de invadir o continente, poupando Nova Orleans de seus ventos e ondas mais poderosos, e mesmo assim as defesas falharam.

    "Acho que vamos precisar de uma estratégia totalmente nova de posicionamento da cidade e de todos os diques. Haverá necessidade de uma completa reanálise da proteção da cidade", disse Grover Mouton III, diretor do Tulane Regional Urban Design Center, baseado na cidade.

    Essas defesas deveriam ter sido reforçadas antes da construção de novas obras, disse Stephen Villavaso, que trabalha em planejamento urbano em Nova Orleans. "Acho que provavelmente não deveríamos ter permitido novas construções antes de ter proteção real contra furacões", ele disse.

    Alguns bairros especialmente baixos, como o 9º distrito, um bolsão pobre da cidade hoje mergulhado na água, talvez não possam ser reconstruídos, disse Kristina Ford, uma ex-diretora de planejamento de Nova Orleans. Outros precisarão ser elevados artificialmente para protegê-los de futuras inundações. Isso poderá dar aos engenheiros a tarefa de deslocar bairros inteiros.

    "Você pode ver partes da cidade que não deveriam ter sido construídas daquela maneira, e não devemos reconstruí-las assim", disse Ford.

    Reconstrução de estradas

    A construção de estradas sempre esteve ligada à remoção de obstáculos --físicos e políticos. Especialistas dizem que as autoridades de Nova Orleans e de outras cidades do golfo do México vão enfrentar muitos obstáculos na recuperação do Katrina. Encontrar dinheiro, definir prioridades, administrar a força de trabalho e os materiais e trabalhar rapidamente, apesar das objeções, vai exigir alguém com os poderes de um czar.

    "Vai ser necessário um comandante que diga 'Não aceito respostas negativas de ninguém'", disse Thomas Brahms, principal oficial executivo do Instituto de Engenheiros de Transportes. "Você não quer um governador ou outra pessoa atrapalhando um czar quando alguma coisa acontece."

    Os terremotos da Califórnia nos últimos 15 anos ofereceram algumas lições sobre como reconstruir rapidamente a infra-estrutura, mas Brahms disse que a escala dos prejuízos em Nova Orleans provavelmente será muito maior, com os custos do reparo alcançando bilhões de dólares.

    O governo federal provavelmente pagará 75% dos reparos de pontes e estradas ao redor da cidade, e o Estado da Louisiana pagará o resto, disse Mary Comerio, professora de arquitetura na Universidade da Califórnia em Berkeley e autora de "Disaster Hits Home: New Policy for Urban Housing Recovery" [O desastre nos atingiu: Novas políticas para a recuperação de moradias urbanas].

    "Haverá alguns danos, uns menores, outros maiores", ela disse. "Cada estrada, cada ponte terá de ser inspecionada. É um processo sistemático, ir de ponte em ponte e de estrada em estrada."

    Várias pontes de Nova Orleans desabaram e muitas ruas e estradas da cidade permanecem debaixo d'água. Quando esta for retirada, a avaliação de todas as vias começará a ver quais podem suportar o peso de caminhões e outros veículos que entrarão na cidade para limpar os destroços e trazer reparos.

    "É preciso determinar que parte da estrutura pode ser salva", disse Tim Noles, sócio da Hardesty and Hanover, uma firma nacional de consultoria em engenharia. Noles disse que o leito das estradas pode ser abalado pela extensa inundação e as fundações das pontes podem enfrentar problemas semelhantes. A enchente também pode atirar destroços no corpo das pontes, danificando-as.

    Quando um grande terremoto atingiu o norte da Califórnia em 1989, a ponte da Baía de São Francisco-Oakland foi reparada e reaberta em cerca de um mês, mas a experiência convenceu as autoridades a iniciar um projeto para uma substituição mais sólida.

    Outras estradas demoraram mais para ser reconstruídas. A Interestadual 880, de nível duplo, foi demolida e só foi reconstruída em 1997, mas sem nível duplo e em local diferente. Várias outras autopistas foram completamente eliminadas, como a Interestadual 480.

    Determinar os danos e projetar os consertos da destruição do Katrina exigirão engenheiros de todo o país e provavelmente do exterior. Noles disse que os Estados afetados deverão tirar engenheiros de outros projetos para trabalhar nos reparos de emergência nas áreas mais atingidas.

    Moradias levarão décadas

    Dar a Nova Orleans um novo suprimento adequado de moradias vai levar décadas. "Nova Orleans é uma cidade morta", disse Gary Stollak, professor de psicologia na Universidade Estadual de Michigan. "Quem em sã consciência vai querer construir lá, além do governo federal?"

    Ele e outros compararam a devastação da cidade portuária à de Berlim e outras cidades européias depois da Segunda Guerra Mundial. O Plano Marshall distribuiu US$ 12 bilhões de 1948 a 1951, mas muitas cidades ainda pareciam arruinadas na década de 60.

    Stollak e outros disseram não saber se hoje os EUA têm a vontade política ou os recursos para reconstruir Nova Orleans totalmente. Isso talvez seja necessário depois que uma semana de água destruiu muitas das 180 mil unidades habitacionais ocupadas da cidade.

    "Do ponto de vista técnico, a cidade não deveria ser reconstruída", disse Carla Prater, diretora associada do Centro de Recuperação e Redução de Perigos da Universidade A&M do Texas.

    "Mas não somos seres técnicos e econômicos. As cidades são partes importantes de nossa psique. Estamos prontos para ver Nova Orleans, o berço de tantas coisas, desaparecer como a Atlântida? Duvido seriamente de que vão deixar Nova Orleans morrer."

    Desastres recentes --os terremotos em Kobe, Japão, em 1995, Los Angeles em 1994 e na Cidade do México em 1984-- dão pelo menos um esquema básico de recuperação.

    Hoje os saqueadores podem dominar as ruas de Nova Orleans, mas a reconstrução estará nas mãos de burocratas, engenheiros, legisladores e políticos.

    "A coisa mais importante é reunir dados", disse Aseem Inam, professor de planejamento urbano na Universidade de Michigan e autor de "Planning for the Unplanned: Recovering from Crises in Megacities" [Planejando o não planejado: Recuperação de crises em megacidades].

    "É preciso contar com funcionários públicos, inspetores de obras de outras cidades para ter uma idéia melhor das condições anteriores ao desastre. Parece doloroso, mas tem de ser feito casa a casa."

    O governo federal provavelmente vai liderar os esforços para reconstruir a infra-estrutura principal, mas é improvável que derrube bairros inteiros ou empregue outros esforços pesados, disse Inam.

    O futuro do coração de Nova Orleans --seus 73 bairros-- está nas mãos dos proprietários de casas e terrenos. Mais da metade das 100 mil residências ocupadas por proprietários da cidade foi construída antes de 1950, segundo números do Censo.

    A maior parte virou lixo, disse Mark Stonier, um consultor de Birmingham que avalia danos de enchentes para companhias de seguros. "Pelo tempo que a água permaneceu lá, vai ser preciso começar do zero", ele disse.

    Em Los Angeles, os governos federal, estadual e municipal ofereceram um pacote de empréstimos com juros baixos para os proprietários das 7 mil casas destruídas, disse Inam. Incentivos semelhantes deverão ser oferecidos em Nova Orleans, segundo ele.

    Com 10,1 milhões de visitantes que gastam US$ 5 bilhões por ano, a cidade ocupa o quinto lugar nacional em número de convenções, segundo o Departamento de Turismo. O lazer e a hotelaria respondem por cerca de 214 mil empregos na Louisiana.

    Um ponto positivo é que a marca registrada da cidade, o Bairro Francês, parece ter escapado à destruição, na maior parte. Stollak acredita que muitos cassinos e hospedarias não serão reconstruídos. "É claro que o turismo em Nova Orleans morreu", ele disse.

    Serviços prioritários

    Ressuscitar a cidade --especialmente sua vida comercial-- começará pela restauração dos serviços públicos, das comunicações e de diversas empresas.

    Depois de uma tempestade tão potente quanto o Katrina, a tarefa é muito mais complexa do que apenas levantar os cabos e substituir transformadores, disse Bill Swank, porta-voz da companhia energética Florida Power & Light Co. "É um esforço maciço. É preciso arrancar os postes antigos --ou o que restou deles-- e colocar todo um equipamento novo."

    A Florida Power & Light precisou de 34 dias para restabelecer o serviço para 1,4 milhão de consumidores depois do furacão Andrew em 1992. Depois que o furacão Charley deixou sem energia 800 mil clientes no ano passado, o sistema foi restabelecido em duas semanas.

    Mas a destruição causada pelo Katrina é muito mais extensa. "Grande parte da infra-estrutura básica desapareceu. Você não tem nada para começar a trabalhar", disse Swank. "Não ficaram nem as placas de rua. Você não tem idéia de onde está."

    A companhia energética Entergy, que serve 1,1 milhão de clientes em Nova Orleans e parte do Mississipi, estima que levará mais de um mês para restabelecer o serviço em algumas áreas. Por enquanto suas equipes só podem chegar às poucas áreas que não estão inundadas. Ter eletricidade também será crítico para restaurar o fornecimento de água potável e o tratamento de esgotos.

    Quando as águas da enchente forem bombeadas e houver energia elétrica, as autoridades de desenvolvimento econômico deverão se concentrar na ajuda para reabrir hotéis, restaurantes e outras empresas que atendem a turistas, disse Jan Svejnar, um professor de estratégia empresarial na faculdade de economia da Universidade de Michigan. Isso ajudará a atrair as pessoas de volta para lá e a criar um mercado para outros tipos de empresas.

    Então, convencer pequenas empresas a serem pacientes e eventualmente voltar a Nova Orleans será vital para criar um centro pujante depois que a enchente baixar. As refinarias de petróleo, tão importantes para a economia regional e do país como um todo, já estão se preparando para reabrir.

    As autoridades locais, estaduais e federais deverão dar aos empresários incentivos para reconstruir e ajudá-los a obter os recursos necessários para tanto, disse Inam.

    Algumas empresas nunca voltarão, ele disse. As que quiserem voltar terão de esperar pelo retorno de um número suficiente de moradores para que tenham clientes e funcionários de novo.

    Um grande fator que funciona contra Nova Orleans é que, enquanto o centro e o Bairro Francês eram destinos turísticos famosos, a cidade tinha um dos maiores índices de pobreza entre as grandes cidades americanas e um desemprego crescente.

    "A história não foi benigna com cidades cujas condições antes do desastre eram ruins", disse Inam. "Raramente elas se recuperam."

    Os portos deverão retomar suas operações com relativa rapidez, o que permitirá que as indústrias nos setores de petróleo, petroquímica, construção naval e aeroespacial voltem a despachar e receber produtos. O porto do Sul da Louisiana é o mais movimentado do país, e o de Nova Orleans fica em quinto lugar.

    "Vai ser desigual. Algumas coisas vão voltar mais depressa que outras", disse Svejnar. "Geralmente, em todo o mundo, a maioria dos esforços de recuperação foi subestimada. Acho que vai acontecer mais depressa do que as pessoas imaginam."

    *Esta reportagem foi elaborada e escrita pelos repórteres do jornal The Detroit News Brad Heath, John Wisely, Joel Kurth e Nick Bunkley em Detroit e Lisa Zagaroli em Washington. Foi dirigida pelo editor de política Jim Higgins. Desde 2001, o Congresso e o governo Bush cortaram quase pela metade as verbas dos dois principais programas de controle de enchentes da cidade Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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