Estúdios e redes de TV começam a lidar com 11/09 como tema de filme

McClatchy News Service
Por Greg Gordon
em Washington

Gritos enchem a cabine do avião de passageiros 757 quando terroristas empunhando facas e usando bandanas vermelhas matam um passageiro e assumem o controle da aeronave.

O caos reina a bordo do vôo 93 da United Airlines, o últimos dos quatro aviões de passageiros a ser seqüestrado por terroristas da Al Qaeda na manhã aflitiva de 11 de setembro de 2001.

Estas cenas fazem parte do novo docudrama de 90 minutos, do Discovery Channel, que reconta a breve revolta dos passageiros que impediu o avião de atingir seu provável alvo: o Capitólio dos Estados Unidos. O filme será exibido no domingo às 21 horas, horário do Pacífico e da Costa Leste, o quarto aniversário do evento.

"O Vôo que Reagiu", exibindo a dramatização da conversa de Tom Burnett, um ex-morador de Sam Ramon, Califórnia, com sua esposa enquanto ajudava a inspirar a insurreição, é o primeiro de uma série de filmes sobre os horrores e heróis de 11 de setembro.

Após aguardar mais de três anos, produtores de cinema e canais de televisão suspenderam seu embargo auto-imposto ao pior ataque terrorista na história americana e estão dando andamento a vários filmes sobre um assunto que Hollywood por um tempo considerou tabu. Mesmo o controverso cineasta Oliver Stone, conhecido por alimentar teorias de conspiração, está envolvido.

A história do vôo 93 tem atraído o maior interesse. A Universal Pictures, o canal de cabo A&E e a pequeno canal PAX estão, cada um deles, produzindo um filme ou docudrama sobre a invasão dos passageiros à cabine, que levou à queda do avião na área rural da Pensilvânia.

Os estúdios dizem que estão caminhando com cuidado.

A versão do Discovery foi baseada em extensas entrevistas de uma equipe de produção britânica com familiares, pessoas em terra e instrutores que inadvertidamente treinaram os quatro terroristas a voar e pilotar, assim como o relatório da comissão de 11 de setembro. Ele retrata quase todos os 33 passageiros, além de vários comissários de bordo, como tendo tido um papel na revolta e termina citando nominalmente a todos.

O porta-voz da A&E, Michael Feeney, disse que a emissora terá esperado quatro anos e meio para reconhecer o maior exemplo de heroísmo de 11 de setembro, quando sua versão for exibida no início do ano que vem.

"Nós achamos que era hora", disse ele. "Nós temos uma grande preocupação com as famílias. Nós faremos todo o possível para assegurar que fiquem à vontade com a forma como será promovido e divulgado."

A produção do filme de US$ 15 milhões da Universal, "Flight 93", poderá começar no próximo mês. Ele será dirigido por David Greengrass, saudado pela forma delicada como lidou com "Domingo Sangrento", um filme de 2002 sobre o massacre britânico de manifestantes de direitos civis irlandeses em 1972.

A viúva de Burnett, Deena Burnett, disse que a princípio não queria se envolver com cineastas que estavam ficcionalizando aspectos dos eventos, citando os riscos dos fatos serem distorcidos. No final, ela acabou intimamente envolvida em vários projetos, decidindo que os filmes ajudarão as pessoas "a pensar no que os passageiros e tripulantes realmente vivenciaram (...) e talvez entender o motivo para ainda estarmos travando a guerra contra o terrorismo".

Ela aparece em cenas por todo o filme do Discovery, também entremeado com entrevistas de outros parentes descrevendo suas últimas conversas com entes queridos.

A mãe de Tom Burnett, Beverly Burnett, disse que ela e Thomas Burnett Sr., que moram em Northfield, Minnesota, "não estão tão entusiasmados com o fato de atores estarem interpretando os papéis" e não participaram.

"Eu não gosto disso, alguém interpretando meu filho", disse ela. "A única coisa é que (por meio dos filmes) as pessoas se lembrarão de 11 de setembro."

Também estão em produção uma minissérie de seis horas da rede ABC e dois outros filmes de Hollywood. A minissérie da ABC, estrelada por Harvey Keitel e baseada no relatório da comissão de 11 de setembro, examinará pelos olhos de um agente de contraterrorismo do FBI e outras figuras o que as autoridades americanas sabiam sobre Osama Bin Laden e a Al Qaeda nos anos que antecederam os ataques.

A Columbia Pictures comprou os direitos de "102 Minutes", um livro de autoria de dois repórteres do "New York Times" que recria o que aconteceu dentro das torres do World Trade Center desde o momento em que o primeiro avião o atingiu até o colapso da segunda torre. O filme ainda sem título de Oliver Stone para a Paramount Pictures pretende reviver o colapso do Trade Center por meio da história de dois oficiais da Autoridade Portuária de Nova York que ficaram presos sob os escombros por 14 horas.

O Discovery venceu a corrida para exibir o que a porta-voz Jill Bondurant descreveu como sendo "uma obra de jornalismo".

Perto do início do filme há uma cena de Tom Burnett, um empresário de 38 anos, ex-morador de Bloomington, Minnesota, astro do futebol colegial, telefonando para sua família enquanto se barbeia em seu quarto de hotel, em Nova York, antes de pegar um táxi para Newark para voar de volta à Califórnia.

Após o seqüestro, Deena Burnett e outros entes queridos informaram os passageiros que outros aviões foram arremessados contra o Trade Center e o Pentágono, e Burnett e outros passageiros tomaram a difícil decisão de impedir este ataque.

No filme, Deena descreve como seu marido admirava os soldados da Guerra Civil que marcharam para a morte em Gettysburg e que ele se perguntava quanta coragem teria em meio a uma crise.

Apesar de toda a pesquisa, mesmo com as descrições da gravação das vozes na cabine, não há como saber exatamente o que aconteceu a bordo do vôo 93.

A versão do Discovery exibe mulheres participando do grupo de homens atléticos que invadiu a cabine -entre elas Honor Elizabeth Wainio, 27 anos, que era executiva das lojas de varejo do Discovery.

Deena Burnett disse que seu marido nunca vestiria o "xadrez amarelo e azul claro" mostrado no filme ou faria expressões faciais como as mostradas. Mas, ela disse, ninguém poderia seriamente criticar a produção.

Mas ela destacou um grande risco de todos os filmes sobre 11 de setembro. Enquanto ela assistia uma cópia do filme certa manhã, sua filha de 9 anos, Madison, entrou na sala.

"Ela assistiu apenas três segundos", disse Deena, "mas ficou mortificada. Ela disse: 'Aquele é o avião do meu pai? Aquele é o meu pai?'"

"Eu tive que explicar para ela que aquele não era o avião do pai dela. Aquilo era só um filme." George El Khouri Andolfato

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