Republicanos temem vitória democrata na Flórida em 2006

Adam C. Smith
Petersburg Times

Um republicano da Flórida que olhasse para o cenário político de 2006 ficaria extasiado, certo?

Os especialistas estão começando a duvidar até de que a Flórida ainda seja um Estado politicamente indeciso. Os democratas lançaram mão de praticamente todos os recursos de que dispõem na Flórida em 2004, e, ainda assim, o presidente Bush venceu com facilidade. Os grupos liberais generosamente financiados que enviaram exércitos de militantes à Flórida para mobilizar os democratas poderão não se fazer presentes em 2006. O comparecimento às urnas do eleitor democrata geralmente diminui dramaticamente em anos de eleições não presidenciais.

As pesquisas continuam demonstrando que o solitário democrata da Flórida a ocupar um cargo eletivo federal, o senador Bill Nelson, conta com um apoio discreto para a eleição de 2006. Três democratas pouco conhecidos estão cobiçando o governo do Estado, enquanto que os republicanos contam com dois contendores de peso estadual e já possuem gordas contas bancárias para a campanha.

Mas muita gente ficaria surpresa com o número de raposas políticas republicanas preocupadas.

Mesmo antes de a resposta do governo federal ao furacão Katrina ter provocado uma torrente de críticas dirigida ao presidente Bush, algumas das mais proeminentes figuras políticas eleitas e estrategistas da Flórida manifestavam preocupações quanto ao quadro político da próxima eleição.

Desde a 2ª Guerra Mundial, os eleitores têm geralmente punido o partido do presidente que ocupa o cargo durante as eleições parlamentares, especialmente no sexto ano de uma presidência. Alguns republicanos enxergam uma tempestade potencial perfeita em formação contra o seu partido em nível nacional, mas talvez especialmente na Flórida.

A situação no Iraque parece a cada dia mais bagunçada. O preço da gasolina disparou. Os polêmicos planos do presidente para reformar a Previdência Social colocam nas mãos dos democratas uma verdadeira marreta política para massacrar a imagem dos republicanos entre os idosos. Vários idosos provavelmente acharão as novas regras para o fornecimento de remédios pelo novo programa Medicare bem mais confusas e menos generosas do que o esperado.

A iniciativa tremendamente impopular liderada pelos republicanos para manter Terri Schiavo viva teve uma repercussão tão negativa que alguns estrategistas acreditam que ela possa ter causado estragos duradouros para o Partido Republicano. A Casa Branca e o Congresso controlado pelo Partido Republicano estão reabrindo a volátil questão da exploração de petróleo e gás natural. Enquanto isso, a controversa deputada federal Katherine Harris emergiu como a provável candidata republicana para enfrentar Nelson, e muitos republicanos temem que ela prejudique candidatos dos dois partidos.

Para os republicanos de todo o país, um problemático caldo político já começou a ferver na Flórida.

"Não conheço ninguém em Washington ou Tallahassee que não se preocupe com 2006 - e isso antes mesmo do furacão", disse o ex-deputado federal Joe Scarborough, de Pensacola, o republicano da rede de televisão MSNBC que a Casa Branca tentou recrutar para concorrer ao Senado.

Ele disse aos seus amigos republicanos que preparam legislações no Congresso para se preocuparem: "Provavelmente 2006 será bastante semelhante a 1986, quando houve uma onda democrata".

Com o Katrina, a questão não é saber se o presidente e o seu partido foram prejudicados, mas quanto tempo durará o estrago. Os republicanos criticaram os democratas, alegando que estes fracassaram quanto às tarefas de governar e garantir a segurança dos Estados Unidos. Um presidente e um partido que insistiram que os democratas não aprenderam as lições do 11 de setembro têm agora que explicar por que se mostraram tão despreparados para responder a uma catástrofe amplamente antecipada.

A Flórida, mais atingida por furacões do que qualquer outro Estado nos últimos 150 anos, é especialmente sensível às dúvidas quanto à prontidão para enfrentar tais desastres. Era quase possível ouvir os suspiros de alívio vindos do gabinete de Karl Rove quando, na semana passada, após dias de silêncio, o governador Jeb Bush finalmente se engajou em uma agressiva guerra de relações públicas quanto ao Katrina. O governador culpou os moradores da Louisiana por não terem se preparado para a chegada do furacão.

"Se não fizermos a nossa parte, nenhum trabalho da Fema será capaz de compensar tal falta de preparação", criticou o governador Bush, que foi elogiado por sua liderança quando quatro furacões atingiram o seu Estado em 2004.

A popularidade do presidente já havia atingido um recorde de popularidade baixa antes de o Katrina castigar o território norte-americano. Agora a devastação está ameaçando atrapalhar a sua agenda de segundo mandato, além de fazer com que se questione o planejamento e a preparação do seu governo após o 11 de setembro.

Nas duas últimas eleições, a ameaça terrorista ajudou a resguardar das críticas os políticos republicanos eleitos. Os democratas esperam que o Katrina destrua tal escudo de proteção. As fotografias e imagens de TV chocantes do norte da Costa do Golfo também fizeram com que as atenções se voltassem para um ponto forte dos democratas: as questões internas.

"Os republicanos sempre tiveram problemas reais no âmbito doméstico que não foram capazes de esconder por detrás do 11 de setembro", opina o especialista democrata em pesquisas Dave Beattie, cujos clientes incluem Nelson e o provável candidato ao governo do Estado, Scott Maddox. "Isso faz com que aqueles problemas retornem de forma bem gráfica. E traz de volta uma discussão sobre ricos e pobres neste país da qual os republicanos realmente não querem participar".

Publicamente, a maioria dos operadores políticos republicanos minimiza as preocupações e observa o quanto a situação pode mudar em um ano. Mas, reservadamente, muitos deles dizem algo diferente.

O cenário que mais temem: como, na primária republicana para a escolha do candidato a governador, o secretário das Finanças, Tom Gallagher, e o procurador-geral, Charlie Crist, estão arrecadando milhões de dólares, é inevitável que gastarão grande parte da cifra arrecadada atacando-se mutuamente e enfraquecendo quem quer que venha a ser escolhido como candidato. Na era pós-Jeb Bush, nenhum dos possíveis candidatos republicanos possui comprovadamente um traço conservador no campo social suficiente para permitir a mobilização das bases eleitorais.

Se a esses problemas forem acrescentados todos os outros que atingiram Bush ultimamente, chega-se à conclusão de que os democratas da Flórida poderão estar na posição mais confortável em anos.

Adam Goodman, consultor de mídia de Tampa para Katherine Harris e vários outros candidatos republicanos na Flórida, admitiu que a maioria dos estrategistas republicanos está preocupada com o cenário político de 2006. Mas os republicanos contam com vantagens institucionalizadas.

"Pode não haver um Bush nas urnas em 2006, mas o legado de Bush de realmente construir uma máquina eleitoral estará funcionando a todo vapor", prevê Goodman.

Ao mesmo tempo, há poucos sinais de que os democratas da Flórida estejam prontos para tirar vantagens das vulnerabilidades do Partido Republicano em 2006.

Na disputa pelo governo do Estado, não emergiu até o momento nenhum favorito no campo democrata. O deputado federal Jim Davis, de Tampa, usa um discurso carregado de clichês de campanhas democratas anteriores e fracassadas. Ele garante que lutará pelo voto de todos os eleitores da Flórida e que colocará a educação das crianças acima de qualquer interesse especial. A mensagem básica de Scott Maddox é a de que ele é capaz de fazer um discurso partidário trovejante. A maioria dos republicanos com os quais eu conversei vê no senador estadual Rod Smith, de Alachua, a maior ameaça. A mensagem inspiradora de Smith? "Eu sou capaz de vencer".

Os republicanos estão criando as condições para que os democratas sejam capazes de modificar dramaticamente o cenário político da Flórida. Mas ninguém sabe ao certo se os democratas conseguirão tirar vantagem dessa situação.

"Os astros estão alinhados", diz o consultor democrata Robin Rorapaugh. "Mas os democratas precisam de um candidato que tenha uma mensagem". Danilo Fonseca

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