Desastre do Katrina ressalta a pobreza nos EUA

David Westphal
Em Washington

As terríveis imagens de milhares de moradores de Nova Orleans ilhados pela inundação porque não tiveram meios para deixar a cidade antes da chegada do furacão Katrina expuseram uma incômoda verdade sobre a pobreza nos EUA.

Apesar de mais de 35 anos de sólido crescimento econômico e aumento da renda, o índice de pobreza do país não é melhor do que em 1968, quatro anos depois que o presidente Johnson lançou a guerra contra a pobreza.

Com a pobreza nas áreas atingidas pelo furacão próxima de 30% -mais alta entre os afro-americanos-, líderes políticos de muitas tendências fizeram apelos urgentes para que o país faça algo sobre os 37 milhões de americanos que se encaixam na categoria de despossuídos.

"Acho que em algum momento precisamos ver que as pessoas que não conseguiram fugir eram pobres", disse a secretária de Estado, Condoleezza Rice, "e entender melhor o que fazer para que isso não aconteça de novo".

O ex-senador democrata John Edwards, da Carolina do Norte, pediu uma reativação dos programas de obras públicas da época da Depressão para reerguer os moradores da Costa do Golfo que hoje estão sem casa e sem emprego.

Mas avançar contra a pobreza americana representa um enorme desafio. O índice de pobreza do país, segundo diversas avaliações, é o pior do mundo desenvolvido. Ele vem crescendo há quatro anos consecutivos. Os negros e outras minorias sofrem índices muito mais elevados.

Mas a imagem da pobreza nos EUA é mais complexa. Depois de piorar durante os anos 80 e início dos 90, a pobreza diminuiu drasticamente no final dos anos 90 -especialmente entre grupos minoritários e em algumas áreas mais pobres do país.

Aqui estão algumas perguntas e respostas sobre a imagem da pobreza nos EUA:

Pergunta - Alguns comentaristas dizem que os americanos evitam ver o problema da pobreza nos EUA. A pobreza piorou nos últimos anos?
Resposta -
A pobreza americana realmente aumentou um pouco desde 2000, e continuou subindo nos últimos quatro anos. Os especialistas dizem que um certo aumento era esperado em conseqüência da recessão de 2001, mas alguns ficaram surpresos que o aumento tenha continuado em 2004. Na última década, porém, a história é muito mais positiva. Os índices de pobreza declinaram acentuadamente de meados até o final dos anos 90, aproximando-se dos níveis mais baixos já registrados. Em conseqüência, o índice de pobreza de 2004, de 12,7%, ainda é um dos melhores dos últimos 25 anos.

Pergunta - Por que o progresso nos anos 90?
Resposta -
Especialistas dizem que a longa expansão econômica é a principal causa. Muitos também atribuem a melhora à reforma da legislação da previdência social, que instituiu regras trabalhistas mais duras.

Pergunta - E numa perspectiva mais longa? Como um dos países mais prósperos do mundo, os EUA não se esforçaram para erradicar a pobreza?
Resposta -
Sim e não. Houve realmente um progresso desde 1959, o primeiro ano em que o censo compilou números sobre a pobreza. O índice de pobreza na época era de 22,4%, quase o dobro do atual. Mas depois que o presidente Lyndon Johnson começou a guerra contra a pobreza em 1964 (numa década de rápido crescimento econômico), o índice despencou, atingindo o menor nível de todos os tempos, 11,1%, em 1973. Infelizmente, o país não manteve, e muito menos melhorou, os níveis de pobreza nos anos 70.

Pergunta - As dificuldades dos afro-americanos em Nova Orleans pareceram extremas. A pobreza entre as minorias piorou nos últimos anos?
Resposta -
A visão geral da pobreza entre afro-americanos, asiático-americanos e hispânicos realmente é uma história de sucesso significativo na última década. Mesmo com o recente aumento, os índices de pobreza desde 1993 diminuíram 25% entre os negros e hispânicos e mais de um terço entre os asiáticos. É claro, especialmente para os afro-americanos esses ganhos são avaliados em relação aos índices de pobreza muito elevados na maior parte do século 20. Segundo o Censo, 55% dos negros estavam abaixo da linha de pobreza em 1959.

Pergunta - E a pobreza realmente profunda que existe em algumas grandes cidades como Nova Orleans?
Resposta -
O quadro ali também é de ganhos significativos nos anos 90. Segundo um estudo de Paul Jargowsky, do Centro para Políticas Urbanas e Metropolitanas, o número de americanos que vivem em bairros de grande pobreza diminuiu 24% naquela década. O maior progresso ocorreu em alguns dos maiores bastiões de pobreza no centro-oeste e no sul -- lugares como Detroit, Chicago, San Antonio e Houston. Nova Orleans teve uma queda de 35% nos bairros de pobreza elevada, segundo o estudo. Mesmo assim, em conseqüência do rápido aumento nas concentrações de grande pobreza nos anos 70 e 80, o número de bairros com pobreza extrema continua acentuadamente maior do que na década de 70.

Pergunta - Como os EUA se classificam em relação a outros países desenvolvidos?
Resposta -
Não muito bem. Em um estudo recente da ONU, os EUA se classificaram em último lugar entre 26 países quanto à parcela da população com renda abaixo de 50% da média. Entre os países que se saíram melhor que os EUA estavam Eslováquia, Hungria, Polônia, Eslovênia e República Checa. Os índices de 14 países europeus foram inferiores à metade do americano.

Pergunta - Os EUA podem se sair melhor que isso?
Resposta -
Alguns acreditam que sim. Isabel Sawhill, uma estudiosa do Instituto Brookings, diz que a incapacidade dos EUA de reduzir seu índice de pobreza durante 25 anos de sólido crescimento econômico levanta uma pergunta: "Por que os americanos não são mais compassivos?" Mas Douglas Besharov, um estudioso do Instituto de Empresas Americanas, diz que a pobreza nos EUA não é tanto uma questão de negligência quanto uma decisão proposital de se dedicar mais a um rápido crescimento econômico e a menores índices de desemprego -às custas de uma pobreza maior. "Acho que o que estamos vendo agora na Europa, com um crescimento econômico muito lento, é uma compreensão de que os grandes sistemas de bem-estar social cobram um preço alto demais." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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