Bill Clinton ressurge no cenário político dos EUA

James Rosen, em Washington
McClatchy News Service

Quase cinco anos após ter deixado a presidência, parece que Bill Clinton está em toda parte.

AFP 
Os ex-presidentes dos Estados Unidos George Bush (esq.) e Bill Clinton
O ex-presidente, que nunca foi tímido na hora de aparecer no cenário político, pode agradecer ao presidente Bush por parte da sua recente onda de visibilidade.

Em uma iniciativa que enfureceu alguns dos aliados conservadores de Bush, o presidente designou Clinton para se juntar ao seu pai, um outro ex-presidente, na tarefa de arrecadar verbas para vítimas do desastre causado pelo furacão Katrina. Bush também enviou a secretária de Estado, Condoleezza Rice, para participar da "Iniciativa Global Clinton", em Nova York, duas semanas atrás.

E James Lee Witt, que liderou a Agência Federal para o Tratamento de Emergências (Fema, na sigla em inglês) durante o governo Clinton, se aproximou do ex-presidente democrata durante a crise provocada pelo furacão Katrina. Além de estar aparecendo devido às novas ligações com Bush, Clinton está em plena atividade por iniciativa própria. A sua fundação, centrada principalmente no bairro negro de Harlem, em Nova York, está gastando dezenas de milhões de dólares para auxiliar as vítimas da Aids na África, na Ásia e em outros locais.

A iniciativa global de Clinton --que tem os modestos objetivos de reduzir a pobreza, os conflitos religiosos, o aquecimento global e de melhorar a qualidade dos governos em todo o mundo-- acaba de resultar em promessas financeiras que chegam a US$ 1,8 bilhão em uma conferência da qual participaram Rice, o presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, em um grupo de outras lideranças norte-americanas e internacionais.

"Todos nós contamos com uma quantidade de poder sem precedentes para resolver problemas, salvar vidas e ajudar as pessoas a ter um futuro", disse Clinton a centenas de participantes da conferência.

Parecendo estar em forma --ex-assessores afirmam que ele está cerca de 18 quilos mais magro em relação ao seu período de apogeu na Casa Branca-- Clinton foi capa de uma edição recente da revista "Parade", devido a um artigo sobre a sua cirurgia de coração feita no outono passado. A sua mulher, a senadora democrata Hillary Rodham Clinton, de Nova York, está sempre à frente nas primeiras pesquisas de opinião sobre a escolha do candidato presidencial democrata para 2008.

Apelidado certa vez de o "Garoto que Ressurge" das campanhas políticas, Clinton, 59, está em um período de atividade pós-presidencial.

"Ele está realmente caminhando a passos largos", diz Doug Sosnik, que foi diretor de política na Casa Branca, além de ter ocupado outros cargos durante o governo Clinton. "Clinton deixou a fase do seu livro para trás, pagou as suas dívidas referentes a questões judiciais e passou pelo período de transição que se seguiu após ter deixado a presidência. Creio que ele encontrou a sua voz como ex-presidente".

Alguns analistas comparam as atividades de Clinton àquelas de Jimmy Carter, o ex-presidente que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2002, devido aos seus esforços para a promoção dos direitos humanos, a implementação dos direitos humanos e a busca de soluções pacíficas para os conflitos internacionais.

Tanto Carter quanto Clinton são democratas, e ambos foram governadores sulistas antes de chegarem à Casa Branca --Carter na Geórgia, Clinton em Arkansas. Carter, no entanto, nunca foi um pára-raios político, como Clinton o foi durante tantos anos, especialmente desde o seu impeachment em 1998 devido ao escândalo sexual envolvendo Monica Lewinsky. E, ao contrário de Hillary Clinton, a mulher de Carter não manifestou ambições políticas depois que eles deixaram a Casa Branca.

Lucianne Goldberg, que ajudou a tornar público o caso Clinton-Lewinsky, expressa atualmente as suas críticas contundentes em um site na Internet, o lucianne.com, e conta com um grande número de seguidores entre os conservadores.

Segundo Goldberg, todas as atuais atividades políticas de Clinton têm como objetivo fazer com que a sua mulher chegue à Casa Branca, a fim de recuperar um escritório para si próprio na Ala Oeste da residência oficial.

"Ele está se posicionando para ser co-presidente", acusa Goldberg. "Clinton tem uma ambição desmesurada, tão grande quanto à da sua mulher. Quando alguém o vê fazendo algo, pensa logo na sua mulher. É quase como se ela tivesse clonado a si própria. Ela é o 'Senhor Hillary'".

De acordo com Goldberg, na sua multidão de direitistas ardentes "o ódio a Hillary é quase palpável", e o seu marido "se tornou quase que um motivo de risos".

Jay Carson, porta-voz de Clinton, rejeita as alegações de Goldberg. "Ele está comprometido com o serviço público, e está salvando milhares de vidas em todo o globo", garante Carson. "Mas o ex-presidente não está mais engajado no jogo político".

Porém, Carson reconhece que Clinton provavelmente "fará alguma campanha" para os candidatos democratas nas eleições parlamentares do próximo outono. A programação de Clinton para a quinta-feira, de fato, o colocou em um comício ao lado do senador Jon Corzine, que disputará o governo do Estado.

Como se fosse preciso alimentar com mais combustível a ira dos conservadores, Clinton enfureceu vários dos aliados de Bush em 18 de setembro, quando, em duas entrevistas de domingo, na televisão, questionou a política do presidente para o Iraque, e criticou asperamente as reduções de impostos e outras medidas econômicas de Bush.

Observando que os chineses usaram o nome Clinton para batizar uma nova linha de camisinhas, Michael Reagan, que tem um programa de entrevistas no rádio, e que é filho do falecido presidente republicano, acusou Clinton de ser inacreditavelmente ingrato para com Bush. Isso porque, segundo Reagan, Bush designou Clinton, juntamente com o seu pai, que também foi presidente, para a tarefa de arrecadar verbas para a região atingida pelo Katrina.

"Ele não consegue deixar de querer governar este país e o mundo", criticou Reagan. "O apetite insaciável desse homem pela luz dos holofotes marca tudo o que ele diz e faz".

Já Peter Fenn, um proeminente consultor democrata em Washington, diz que vários ativistas do Partido Democrata sentem que Clinton tem sido muito condescendente para com Bush.

"Alguns de nós dizem que ele tem apoiado Bush meio excessivamente, especialmente com relação ao Iraque", afirma Fenn. "Ele não está se intrometendo nas questões de governo. Não creio que esteja atacando deslealmente o presidente."

Fenn, no entanto, aproveitou para criticar Bush ao apontar o contraste entre o tratamento amigável dispensado a Clinton por líderes estrangeiros durante a visita destes a Nova York e quando o ex-presidente viaja ao exterior, e aquilo que ele descreveu como tratamentos bem mais frios dispensados a Bush.

"Sem querer criticar desnecessariamente o presidente, creio que há a percepção de que existe uma grande diferença quanto à capacidade e à força de Bush e de Clinton", diz Fenn. "Essas lideranças estrangeiras prefeririam muito mais sentar à mesa de negociações com Bill Clinton do que com Bush para discutir questões internacionais sérias."

Robert Mosbacher, que foi secretário de Comércio durante o governo do pai do atual presidente, e que esteve próximo a Bush por cerca de 50 anos, diz que os dois ex-presidentes desenvolveram uma relação bastante cordial nos últimos meses, quando cruzaram o país e o mundo em sua cruzada para a arrecadação de verbas para as vítimas de desastres naturais.

"Existe uma cordialidade genuína entre eles", afirma Mosbacher. Em uma recente partida de golfe com o velho Bush, Mosbacher fez uma brincadeira quanto à relação amigável entre o político republicano e Clinton, e Bush pai lhe respondeu com um toque de amarga sagacidade.

"Eu lhe disse, 'Vocês formam um casal estranho'", relembra Mosbacher. "Ele disse que Clinton é uma pessoa bastante agradável --e que certamente fala bem mais que o necessário. Essa combinação, na verdade, funcionou muito bem. Bush diz apenas aquilo que acredita ser importante. E, a seguir, Clinton pega o assunto e o expande bastante".

Mesmo quando o criticam, alguns dos críticos de Clinton expressam por ele um misto de admiração e rancor. Bill Greener, um consultor do Partido Republicano em Alexandria, Virgínia, que conhece várias figuras políticas influentes, comparou o carisma de Clinton ao do presidente Reagan, o ícone conservador que morreu no ano passado.

"Ronald Reagan gostava das pessoas, e apreciava estar junto delas. E as pessoas também gostavam de estar próximas a ele", explica Greener. "Bill Clinton também gosta das pessoas, e estas gostam de estar junto dele".

Greener dá gargalhadas ante a qualquer sugestão de que as atuais atividades de Clinton não estejam vinculadas às metas políticas da sua mulher. E ele dirigiu uma advertência aos colegas republicanos que acreditam que Hillary Clinton não seria capaz de ganhar a eleição, tornando-se a primeira mulher presidente, caso fosse a candidata democrata.

Greener diz que tal autoconfiança improvisada faz lembrar a forma como vários militantes do Partido Republicano desprezaram a candidatura de Bill Clinton à Casa Branca no início da década de 1990, devido às alegações de que o democrata era dado a aventuras sexuais e de que possuía outros supostos desvios de caráter.

"Os republicanos costumam subestimar Clinton, e há nisto um grande perigo", adverte Greener. "Os republicanos podem ter e terão sucesso, mas não podemos cometer o erro de dizer que a senadora Clinton é incapaz de ser eleita. Não creio que as coisas serão assim tão fáceis". Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos