Depois de uma década, System of a Down mostra que se consolidou como sucesso

Ricardo Baca
The Denver Post

Quando o System of a Down surgiu como sucesso de nu-metal no final da década de 1990, o grupo lutou arduamente para se distanciar do monte de conjuntos barulhentos que dominavam o rádio na época.

Mas o System não conseguiu se sobressair --não naquele período-- porque o rádio estava sendo apenas o rádio, e, portanto, recompensando somente aquilo que já era esperado, e não o inusual. "Mais do mesmo", era o mantra, e, por isso, o System of a Down forneceu ao sistema a música mais desinteressante do disco, "Sugar", para que servisse com uma sinalização introdutória do nu-metal.

E a estratégia funcionou.

É necessário recapitular um pouco dessa história para que se reconheça por que alguns de nós embarcaram atrasados no trem do System of a Down.

Como estudante universitário de 21 anos no final da década de 1990, eu era um candidato típico a ingressar no crescente exército de fãs do System. Mas "Sugar" foi uma abordagem errada para mim e outros jovens, com a sua teatralidade, ritmos vazios de guitarra e imitação patética de subgêneros populistas. Olhando retrospectivamente, percebe-se que naquela música havia sinais de uma voz única e de uma mente original, mas tais sinais estavam soterrados sobre a mensagem usual, típica da época. Foi somente alguns anos depois que o System realmente acertou na mosca, criando algo de artístico --e original-- e enviando a sua mensagem. Dessa vez eu fui cativado.

Com "Toxicity" e as suas músicas "Chop Suey", e "Aerials" --que coletivamente ajudaram a colocar o CD em primeiro lugar na lista dos mais vendidos na semana dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001-- a banda se abriu e expandiu. Finalmente, o System se distanciou da irmandade circundante de artistas predatórios, os Deftones e o Korn incluídos, tentando manter a chama acesa.

O System era diferente. Era mais complexo. O System era melhor.

Desde "Toxicity", a trajetória da banda tem sido incrível. O System floresceu e amadureceu com a assistência inestimável de Rick Rubin, que produziu vários trabalhos com a banda, incluindo a sua estréia epônima, de 1998, o recente disco "Mezmerize", além daquele que está em produção, "Hypnotize", que deverá ser lançado em 22 de novembro.

O material que compõe os dois novos discos foi gravado simultaneamente no ano passado nos estúdios de Rubin em Los Angeles. Ele foi lançado separadamente e com meses de intervalo para que os fãs o digerissem com maior entusiasmo, informa a banda. E esse material proporciona a oportunidade ideal para que, ao olharmos para trás, vislumbremos um membro próspero da cultura da música pop que está de fato evoluindo --uma entidade que é quase uma espécie ameaçada de extinção no contexto do clima tristonho que se abate sobre a indústria.

O System of a Down é um quarteto de amigos, todos de ascendência Armênia, que compartilham uma visão que é igualmente musical e política. O vocalista Serj Tankian e o cantor e guitarrista Daron Malakian são os responsáveis pelas harmonias que definem o grupo. Eles se juntaram ao baterista John Dolmayan e ao baixista Shavo Odadjian no sul da Califórnia em meados da década de 1990, com a intenção de criarem uma música potente e politicamente significante.

Agora, depois de mais de uma década nesse jogo, a banda está em uma posição confortável --mas também intranqüila. É impossível deixar de se sentir perturbado quando se ouve a assombrosa combinação de abertura de "Mezmerize", os acordes tranqüilizantes da introdução de "The Soldier Side" e a crítica ao pop em "B", justapostas umas às outras como se fossem irmãos gêmeos que dividem o DNA e tudo o mais.

"The Soldier Side" é uma excursão rápida ao território tranqüilo das harmonias neogóticas. Ela faz lembrar --embora nenhum fã verdadeiro do System precise ser lembrado disto-- que Malakian e Tankian possuem vozes cristalinas, sendo capazes de se aventurar pelo espaço que vai do angelical ao demoníaco. E "B", uma canção anti-Bush que é um acrônimo para "Bring Your Own Bomb" ("Traga a Sua Própria Bomba"), conduz a música do conjunto até uma área hipnótica que é única ao System --e a "Mezmerize". Vejam isso como um trabalho pós-lírico prog-metal.

"B" é o tipo de trilha que renderá ao System levas de novos fãs. Gente que anteriormente achava a banda demasiadamente agressiva se renderá às harmonias doces, e, ainda assim, focadas, no coro: "Everybody's going to the party, have a real good time; Dancing in the desert, blowing up the sunshine" (Que todos os que vão à festa, realmente se divirtam; Dançando no deserto, explodindo o nascer do sol"). Em um momento as harmonias são doces e calmantes. Logo depois, induzem medo e pânico: "Why don't presidents fight the war/Why do they always send the poor?" ("Por que os presidente não lutam na guerra?/Por que eles sempre enviam os pobres?").

O núcleo duro ainda está lá, e a percussão, de uma rapidez impossível, sai diretamente do bojo de um ritmo "death metal". Mas, a seguir, o System reduz o ritmo pela metade, nunca deixando de perder a batida original, e incorpora cerca de meia-dúzia de gêneros ao longo do caminho - com uma extração surpreendentemente sutil de elementos da música pop que, no fim das contas, age como a espinha dorsal da música, e acaba sendo ridiculamente atraente.

Esse cruzamento único de música pop e rock pauleira, que pode ser descrito como "black and trash" ou "death and prog", pode ser o legado do System. Ele é politizado e, às vezes, ingênuo, mas a sua música supera tudo que as letras realmente dizem. Considerando que os ingredientes estão combinados no mesmo produto feroz - letras comoventes e uma música agressiva -, este faz do System of a Down uma das entidades produtoras de música mais importantes dos dias atuais. Danilo Fonseca

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