Nos EUA, "Linha Direta da Rejeição" é um recurso contra paqueradores chatos

Shannon Colavecchio-Van Sickler
em Tampa
do Saint Petersburg Times

Um cara entra em um bar. Ele vê uma mulher atraente do outro lado do ambiente. Aproximando-se, ele dá início a um papo que, a seu ver, fará com que a conversa flua.

Ela está entediada. O cara não faz o seu tipo. Ela o acha meio irritante. Mas não deseja ser completamente rude, e, portanto, finge sentir um vago interesse pela conversa incessante, esperando que ele se retire em breve.

Em vez disso, ele faz a temida pergunta. "Pode me dar seu telefone?". Os amigos dele observam esta paquera desajeitada do lado oposto do bar, e ela não quer criar uma cena embaraçosa, já que isso seria muito grosseiro.

Assim, ela rabisca o número (813) 273-8160 em um pedaço de papel, sorri e vai embora. Os amigos ficam impressionados; ele sente que obteve uma grande conquista.

Mas quando o nosso Casanova liga para o número no dia seguinte, é saudado por esta mensagem não muito sutil: "Alô, esta não é a pessoa com a qual você tentou falar. Você ligou para a Linha Direta da Rejeição, fornecido pela RejectionHotline.com. A pessoa que lhe deu este número não quis fornecer o número telefônico real. Sabemos que isso é terrível, mas não se sinta arrasado. Talvez você simplesmente não faça o tipo dessa pessoa. Nota: o tipo dela pode significar chato, burro, irritante, arrogante ou simplesmente um esquisitão. Talvez você sofra de mau-hálito, odor corporal desagradável ou de uma combinação repugnante desses dois fatores. Ou talvez tenha aquela vibração sinistra e autoritária, típica de um assediador psicopata. Talvez a idéia de sair com você seja tão atraente quanto a de pular carniça com unicórnios".

O cara acaba de tomar um fora pela Linha Direta da Rejeição, um serviço telefônico insultante, que funciona há quatro anos, e que recentemente incorporou o código de área 813 à sua lista de cidades, que inclui Miami e São Francisco.

A Linha Direta da Rejeição foi lançada em Tampa em março. Em seis meses, o número de chamadas passou de uns poucos milhares a 35 mil ao mês, segundo o criador do serviço, Jeff Goldblatt.

Ele admite que a maioria das chamadas é de pessoas que ouvem falar no serviço e liga apenas para darem umas risadas, e que depois dizem aos amigos para fazerem o mesmo. Mas para centenas de outros moradores da área da Baía de Tampa, o número falso proporciona um serviço do qual sentem muita necessidade, garante Goldblatt.

E não apenas para a pessoa que fornece o número falso. "Gostamos de pensar que estamos oferecendo um serviço público para o indivíduo que rejeita e para o rejeitado", diz Goldblatt, 28, estudante de pós-graduação da Universidade Emory, e que mora em Atlanta.

"O que rejeita passa a contar com um recurso para fazer com que uma outra pessoa o deixe em paz, e o rejeitado pode descobrir depois - reservadamente - que o outro não estava interessado".

Não há dúvida que as pessoas fornecem números falsos desde que surgiram os telefones, mas os números da Linha Direta da Rejeição proporcionam uma mensagem clara e inequívoca.

"Um número telefônico falso pode fazer com que o indivíduo se agarre à esperança de ter recebido acidentalmente o número errado", diz Goldblatt.

Atualmente os números da Linha Direta da Rejeição são responsáveis por 1,6 milhão de chamadas mensais. Existe até um fã-clube da Linha Direta da Rejeição, com 28 mil membros.

Nada mal para algo que começou como uma brincadeira entre amigos. A brincadeira teve início em 2001. Goldblatt e seus amigos estavam em um bar em Atlanta, presenciando uma cena de rejeição bastante pública e humilhante.

"Imagine um cara que parece uma mistura de George Costanza, de Seinfeld, e Peter Griffin, de Family Guy", recorda Goldblatt. "Ele estava bastante embriagado, e abordou uma loura muito atraente. No início, ficamos chateados por ela. Depois, pelo cara, quando ela se levantou e lhe disse o que pensava, em um tom de voz que permitiu que todo o bar a ouvisse. Foi algo realmente desagradável de se ver".

Goldblatt foi para casa, colocou a mensagem de rejeição na caixa postal do telefone, e pediu aos amigos que ligassem. Esses amigos contaram a outros amigos.

Em poucas semanas tanta gente ligou que o sistema entrou em pane. "Desde então, fizemos com que sistemas de caixa postal telefônica de várias companhias pifassem", conta Goldblatt.

Atualmente, existem números telefônicos de rejeição em mais de 20 cidades, e neste mês a Linha Direta da Rejeição contará com mais 25 números.

Goldblatt não sabe ao certo qual será o próximo passo da Linha Direta da Rejeição. Ele só espera que as pessoas utilizem o serviço de forma responsável.

"Não encorajamos as pessoas a usarem isso como uma arma ofensiva", enfatiza. "Vemos o serviço como um último recurso".

Aliás, Goldblatt é solteiro, mas ainda não foi vítima da sua própria brincadeira.

"Não", afirma, rindo. "Desde que dei início a tudo isso, passei a pensar duas vezes antes de pedir o telefone de alguém". Danilo Fonseca

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