Emily's List abriu política para mulher americana

Margaret Talev
Em Washington

Quando um grupo de feministas democratas, que defendiam o direito ao aborto, fundou a Emily's List, em 1985, seu objetivo era eleger mulheres ao Senado americano. Nésta segunda-feira (17/10), a Emily's List celebra seu 20º aniversário e seu objetivo inicial parece absolutamente modesto.

Considere: as mulheres dos dois principais partidos hoje detêm 14 dos 100 assentos no Senado e 67 de 435 da Câmara. Oito dos governadores do país são mulheres. Redes de televisão estão apresentando um drama em horário sobre uma mulher vice-presidente que inesperadamente se torna presidente ("Commander in Chief", que ira ao ar no Brasil pelo canal pago Sony).

Pesquisas de opinião mostram que a senadora democrata Hillary Clinton e a secretária de Estado republicana Condoleezza Rice estão entre as mais populares candidatas à presidência em 2008.

Emily's List fomentou os avanços políticos dessas mulheres montando uma máquina que promoveu democratas que defendem o direito ao aborto --e também inspirando a criação de dezenas de grupos no nível municipal, estadual e federal.

O grupo chamado Susan B. Anthony List, por exemplo, apóia candidatos que são contra o direito ao aborto, geralmente republicanas, mas também inclui democratas e, algumas vezes, homens que concorrem contra defensoras do direito. Outro grupo, o Wish List, tem como alvo eleger republicanas moderadas que defendem o direito ao aborto para vagas municipais, estaduais e nacionais.

"Demos às mulheres uma credibilidade política que nunca tinham tido" disse a presidente e fundadora da Emily's List, Ellen Malcolm. "Os membros da Emily's List podem se orgulhar de terem mudado a direção deste país. Suas contribuições modificaram a face do poder nos EUA."

"Eles foram muito eficientes no que se propuseram a fazer --e foram diametralmente opostos a todas as coisas que eu acreditava serem boas para mulheres", disse Marjorie Dannenfelser, presidente da Susan B. Anthony List.

O grupo de Dannenfelser foi formado em resposta às eleições de 1992, nas quais as mulheres patrocinadas pela Emily's List conquistaram mais quatro assentos no Senado e 20 na Câmara. "Definitivamente posso dizer que o 'Ano da Mulher' foi o que me motivou", disse Dannenfelser.

Emily's List tira seu nome não de uma mulher, mas das iniciais de um slogan com o qual Malcolm brincava na época "Early Money is Like Yeast" (dinheiro no início é como fermento).

"Nunca cozinho", disse Malcolm, 58, em entrevista telefônica nesta semana. "Não sei como pensei nisso. Era sobre o crescimento e a expansão que temos ao preparar a massa. Sabíamos que queríamos angariar dinheiro cedo, pois essa era a barreira inicial para as mulheres montando suas campanhas."

O grupo usava como logotipo um retângulo vermelho e amarelo, que lembrava um pacote de fermento Fleischmann. Era um tema que chamava a atenção.

"Se chamássemos o grupo de Rede Política Democrática da Mulher", disse Malcolm, "teríamos conseguido US$ 1,98 até agora". Cinqüenta mulheres já tinham sido senadoras, mas a maior parte fora nomeada ou eleita por causa das credenciais políticas dos pais ou maridos falecidos. Duas republicanas com experiência política anterior tinham sido eleitas.

Mas para Emily's List, nenhum mulher democrata tinha conquistado um assento no Senado completamente por seu mérito próprio.

Em 1986, a recém formada Emily's List patrocinou duas democratas para o Senado --Harriett Woods de Missouri, que perdeu, e Barbara Mikulski de Maryland, que venceu, fez história e continua no cargo. Emily's List viu sua associação inflar em 1991, quando alegações de abuso sexual contra Clarence Thomas em suas audiências para a Suprema Corte movimentaram eleitoras democratas.

O que deu a Emily's List tamanha força, dizem os especialistas, foram suas técnicas de gerenciamento de fundos, em que as doações são coordenadas para candidatas escolhidas e recomendadas. As doações são de US$ 5.000 (em torno de R$ 11.000) por candidata por eleição. Como no ano passado a Emily's List tinha 101.000 afiliados, foram feitos 106.000 cheques às candidatas recomendadas.

Hoje, Emily's List está entre os maiores comitês de ação política do país, de acordo com o banco de dados de financiamento de campanhas PoliticalMoneyLine. O grupo angariou US$ 33 milhões (aproximadamente R$ 76 milhões) nas eleições de 2004 e outros US$ 10 milhões neste ano (em torno de R$ 23 milhões), ficando à frente da Moveon.org, de vários sindicatos e da Associação Nacional do Rifle.

Emily's List serviu de modelo para outros grupos, como o Club for Growth, que se concentra em patrocinar candidatos nas primárias republicanas que promovem o crescimento econômico.

"Certamente tiramos o conceito de gerenciamento dos patrocínios da Emily's List", disse o diretor executivo do grupo, David Keating. "O Club for Growth consegue juntar US$ 100.000 (aproximadamente R$ 230.000) para um candidato quase sem suar.

Emily's List foi pioneira neste conceito de gerenciamento de contribuições em que todas esposam um candidato recomendado. Eles realmente fizeram algo viável e eficaz." Keating não é fã da política da Emily's List, porém. "Temos um grande histórico de queixas contra as candidatas da Emily's List", disse ele.

Marie C. Wilson é presidente de um grupo sem partido, o White House Project, cujo objetivo é eleger a primeira mulher presidente.

"As atitudes hoje estão mudando, não só das pessoas que se sentem à vontade com uma mulher presidente, mas que pensam que ela poderia se sair tão bem quanto um homem. Essa é uma mudança oceânica. Quando as pessoas passam a confiar nas mulheres nessas áreas pouco tradicionais --segurança, política externa e economia-- isso permite que de fato confiem em uma mulher na presidência."

Wilson disse que os grupos de mulheres precisam melhorar o recrutamento de novos talentos em níveis mais baixos do governo, entretanto. A percentagem de assentos legislativos estaduais ocupados pelas mulheres permaneceu em torno de 22% na última década, disse ela.

Apesar da representação das mulheres no Congresso ter crescido, a experiência dos homens mostra que isso pode não se traduzir na presidência.

"Quatro dos últimos cinco presidentes foram governadores", disse ela. Mesmo assim, disse Wilson, "o movimento político feminino mudou muito neste país desde 1985. Emily's List foi realmente uma luz, um ponto de orgulho para as mulheres americanas. Muitos outros grupos estão fazendo esse trabalho, e isso é boa notícia". ONG completa 20 anos nesta segunda-feira com muito a comemorar Deborah Weinberg

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