Problemas de Bush abrem oportunidade a McCain

Margaret Talev
Em Washington
McClatchy News Service

Os estranhamentos entre o presidente Bush e os seus aliados conservadores estão proporcionando a John McCain uma oportunidade --estreita, é verdade-- de obter influência entre aqueles ativistas, enquanto avalia as suas perspectivas em uma campanha presidencial em 2008.

Gastos federais descontrolados, o furacão Katrina, certos aspectos da guerra no Iraque e a impopular nomeação da conselheira da Casa Branca, Harriet Miers, para a Suprema Corte são fatores que criaram condições propícias para que o senador dissidente do Arizona propusesse as suas idéias.

Tais idéias estão sendo bem recebidas por ativistas do partido que antipatizavam com o senador desde que ele desafiou Bush nas primárias do Partido Republicano em 2000.

Nas últimas semanas, McCain, 69, um ex-prisioneiro de guerra condecorado e um crítico dos gastos governamentais com fins eleitoreiros, tomou as seguintes iniciativas:

  • Pediu aos membros do Congresso que abrissem mão de projetos adotados neste ano, no valor de bilhões de dólares, como parte de uma maciça legislação de gastos com o setor de transportes, afirmando que esse dinheiro deveria ser, em vez disso, destinado à ajuda às áreas atingidas pelo furacão.

  • Propôs o adiamento ou o cancelamento total do plano do presidente para cobertura de gastos com remédios pelo Medicare (tipo de seguro de saúde público dos Estados Unidos). O programa está a ponto de entrar em vigor, mas continua sendo controverso, devido aos custos de longo prazo, que estão na casa dos trilhões de dólares, e às críticas de que ele ajudará mais a indústria farmacêutica do que a maioria dos idosos norte-americanos.

  • Costurou o apoio bipartidário para anexar uma polêmica emenda à versão do Senado de uma legislação do setor de defesa, restringindo as táticas que os militares têm autorização para usar nos interrogatórios de detentos na guerra contra o terrorismo. O presidente vê a emenda como uma afronta. Mas ela é bem vista por certos religiosos conservadores e defensores das liberdades individuais, que acreditam que certos abusos de detentos que foram divulgados são desumanos e contrários aos princípios cristãos. Ao mesmo tempo, McCain apóia a iniciativa geral de guerra, assim como a maioria dos republicanos.

    Vários conservadores, incluindo os líderes filiados ao Eagle Fórum, à Concerned Women for America e à American Conservative Union, dizem gostar daquilo que estão ouvindo de McCain nessas frentes, assim como em algumas outras áreas.

    O senador disse recentemente ao jornal "Arizona Daily Star" que aceitaria que as escolas públicas ensinassem o conceito de "intelligent design" ("desenho inteligente", uma espécie de versão moderna do criacionismo) como alternativa à teoria da evolução.

    Mesmo assim, vários desses conservadores dizem que desconfiam tão profundamente da ampla agenda de McCain e das suas lealdades que dificilmente o apoiariam, independentemente dos maiores desafios enfrentados pela nação ou do resto do campo republicano para 2008.

    "Não estou convencido de que a adoção de tais posições aliviaria os problemas que John possui com os conservadores", diz David Keene, presidente da União Conservadora Americana. "Às vezes gosto dele. Mas não confio em McCain. E não creio que muitos conservadores se sensibilizariam pelo fato de ele estar agora defendendo posições com as quais eles concordam. Vários conservadores sentem que McCain não gosta deles, e que, se tiver poder para isso, será hostil e tentará colocá-los para fora do partido".

    As questões polêmicas incluem o fato de McCain defender a imposição de limites aos gastos de campanha, que alguns conservadores vêem como um cerceamento da liberdade de expressão; o seu apoio às reformas do sistema de imigração, que segundo certos conservadores recompensaria e encorajaria a imigração ilegal; e a sua afinidade pela publicidade pessoal, que o levou a romper com a posição partidária em uma série de questões, incluindo as nomeações para o Judiciário.

    Além do mais, alguns conservadores nunca perdoaram McCain pelo seu discurso feito em fevereiro de 2000, no qual ele atacou os televangelistas Pat Robertson e Jerry Falwell, por politizarem a religião, e sugeriu que é mais importante atingir todas as faixas do espectro partidário do que cortejar os religiosos conservadores.

    Phyllis Schlafly, uma das mulheres conservadoras mais influentes do país, disse que algumas das posições recentes de McCain são atraentes, frisando, entretanto, que a sua aversão a ele como figura política republicana se tornou tão entranhada que virou um ato reflexo.

    "Não consigo lembrar por que não o queremos", disse ela. "Ele simplesmente não parece ser um membro da equipe. Ele é uma pessoa que busca a atenção da mídia. Tudo o que ele diz e faz tem como objetivo colocá-lo inseri-lo na mídia".

    Em uma rápida entrevista na semana passada, McCain disse que nenhuma das suas recentes iniciativas foi tomada com o objetivo de se promover para 2008, e que não se preocupa com a forma como os conservadores receberiam tais iniciativas.

    "Não sei nada sobre isso", afirmou, acrescentando: "Tento fazer o que é certo".

    Mas, enquanto McCain avalia se tentará novamente disputar a Casa Branca --uma decisão que ele não deverá anunciar até o final das eleições legislativas de 2006--, uma questão central para ele será saber se é capaz de atrair um número suficiente de republicanos conservadores para sobreviver às eleições primárias.

    Pesquisas antecipadas revelam que McCain e o ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, lideram entre os eleitores republicanos, e sugerem que ambos poderiam ser suficientemente populares para derrotar um democrata.

    McCain é tido como uma figura bipartidária tão popular que o governador republicano Arnold Schwarzenegger, que enfrentará um plebiscito quanto a várias de suas iniciativas, o procurou no início deste mês para que o senador faça campana para ele na Califórnia, Estado em que o Partido Democrata é muito forte.

    Porém, se a ala conservadora do Partido Republicano for tão importante para as próximas primárias presidenciais quanto foi para Bush, uma candidatura de McCain ou de Giuliani poderia perder força para aquelas de vários outros senadores identificados por lealdades mais definidas com o campo conservador.

    A inesperada nomeação de Miers, integrante do círculo interno de poder do presidente, e cujas credenciais ideológicas e judiciais estão sendo abertamente questionadas por alguns dos ferrenhos aliados do presidente, poderia, de forma indireta, minimizar parte da animosidade conservadora contra McCain.

    Ao invés de atacar, McCain tem elogiado Miers. Mas tantos conservadores proeminentes têm discordado abertamente da escolha do presidente que o fato de criticar Bush publicamente --uma das queixas dos conservadores contra McCain-- já não é considerado um tabu.

    Enquanto isso, o foco do país nas questões dos gastos e da defesa desviou, pelo menos temporariamente, as atenções dos problemas políticos causadores das desavenças entre McCain e os conservadores.

    "Isso foi algo de extremamente positivo para ele", afirma Stephen Slivinski, diretor de estudos orçamentários do liberal Instituto CATO.

    "Se perguntarmos à maioria dos conservadores o que eles mais apreciam com relação a McCain, a resposta será o fato de o senador apoiar a guerra no Iraque e a sua luta contra os gastos governamentais excessivos. Com base no descontentamento que eu e vários críticos da questão orçamentária ouvimos, podemos dizer que eles estão realmente irritados com o que Bush vem fazendo. Qualquer um que disputar a nomeação da candidatura à presidência do lado republicano poderá montar uma plataforma com base no legado de Bush, ou, ao invés disso, dizer: 'Creio que o legado de Bush é falho porque ele gastou demais'", diz Slivinski. "Tudo isso será matéria-prima para qualquer um que dispute a presidência".

    Mas Michael Bowman, diretor-executivo do comitê de ação política filiado ao grupo Concerned Women for America (algo como "Mulheres Preocupadas com o Bem-Estar dos Estados Unidos"), diz que a tendência independente de McCain é um traço extremamente negativo, segundo o ponto de vista dos conservadores.

    "Às vezes é preciso um dissidente para promover uma legislação, quando sabemos que o nosso campo está errado ou que precisa ser corrigido", afirma Bowman. "Ele é alguém que está de fora da hierarquia republicana, e que é suficientemente respeitado para que se diga: 'Ei, John McCain me colocou nesta posição, eu tenho que votar nele, senhor presidente'.

    Mas a maioria das pessoas ainda acredita que John McCain é incapaz de vencer a primária republicana. O processo teria que se constituir realmente em uma cisão na qual houvesse pelo menos três concorrentes. Em tal cenário, ele teria uma chance". Mas a ala conservadora do Partido Republicano rejeita o senador Danilo Fonseca
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