EUA temem continuação da insurgência e guerra civil no Iraque

do The Denver Post
por John Aloysius Farrel
em Washington

O objetivo do presidente Bush de criar um Iraque pacífico e unido, que serviria como um farol da democracia no Oriente Médio, poderia demorar até uma década para ser implantado, e custar mais milhares de vidas iraquianas e norte-americanas, disseram funcionários do governo dos Estados Unidos.

Um objetivo mais modesto está emergindo para o curto prazo, segundo o qual as forças de segurança de um Iraque fracionado ao longo de linhas étnicas e religiosas assumiriam a guerra contra uma insurgência irredutível, permitindo que os Estados Unidos retirassem do país as suas forças de combate.

Este cenário poderia resultar em um Estado central enfraquecido, dividido em distritos curdo, sunita e xiita, e traria os seus próprios riscos, segundo analistas e membros do governo. O maior desses riscos é uma possível guerra civil, que se alastraria, criando um conflito de âmbito regional.

"Quando falamos sobre um objetivo de longo prazo de criação de um Iraque estável, democrático, multi-étnico e unitário, estamos nos referindo a algo que levará muito tempo", disse na semana passada a um comitê do Senado a secretária de Estado, Condoleezza Rice.

"O objetivo de curto prazo é tornar as forças iraquianas suficientemente capazes de garantir a preservação do seu próprio território contra os ataques dos insurgentes, de forma que não haja uma ameaça à estabilidade política do regime iraquiano", afirmou Rice.

Em uma discussão com o senador Barack Obama, democrata por Illinois, Rice não quis responder ao parlamentar, que definiu o cenário de curto prazo como sendo: "Um norte curdo, um sul xiita e um frustrado centro sunita, que formariam uma coalizão frouxa e que não estaria mergulhada em uma guerra civil total, mas que não praticariam o tipo de democracia ao qual estamos acostumados aqui, nos Estados Unidos".

"Não é concebível que sunitas e xiitas superem centenas de anos de diferenças em um período de dois anos", disse Rice mais tarde.

As suas observações contrastaram com as previsões róseas quanto a uma democracia de pós-guerra feitas pelo governo antes da invasão norte-americana.

O general George Casey, comandante das forças de coalizão no Iraque, advertiu o Senado em reuniões públicas e sigilosas nas últimas semanas: "O período médio de duração de contra-insurgências no século 20 foi de nove anos. Não há motivo para acreditarmos que a insurgência no Iraque durará menos tempo".

"Nós aceitamos o cenário de guerrilha de nove anos", disse um senador a um colega, quando ambos saíam de uma dessas reuniões sigilosas.

No seu depoimento ao Senado na semana passada, Rice se recusou a prever que as tropas dos Estados Unidos se retirarão do Iraque dentro de dez anos.

Os Estados Unidos estão presos em uma torquês. Os comandantes norte-americanos acreditam que a presença militar maciça está tendo um efeito contraproducente, alimentando a insurgência e inibindo o desenvolvimento de instituições nacionais no Iraque.

"O aumento da presença da coalizão fortalece a idéia de ocupação. Ela contribui para que as forças de segurança iraquianas dependam da coalizão. E amplia o tempo necessário para que essas forças de segurança se tornem autoconfiantes, além de expor mais tropas da coalizão a ataques", alertou Casey.

Os líderes militares também se preocupam com o efeito do atual conflito sobre a moral, o recrutamento, o equipamento e o apoio público.

"Neste momento o meu exército está de fato em um mau estado", queixou-se o coronel da reserva Lawrence Wilkerson, que foi chefe de gabinete do ex-secretário de Estado, Colin Powell.

E, assim, os Estados Unidos tentam furiosamente, e com algum sucesso, treinar policiais e soldados iraquianos, na esperança de que possam retirar parte das tropas norte-americanas no ano que vem.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estimulam os líderes iraquianos a formarem um governo que possa atrair os sunitas que estão alienados do processo político, e atuando na insurgência violenta.

"Os iraquianos nos têm surpreendido consistentemente a cada passo", afirma Michael Rubin, analista do American Enterprise Institute e apoiador da intervenção norte-americana.

"Se examinarmos o quadro mais amplo, veremos que existem agora no Iraque debates pacíficos sobre a constituição. São debates extremamente acalorados, mas, não obstante, basicamente pacíficos", diz Rubin.

Mas as autoridades norte-americana não são capazes sequer de dizer se o referendo da semana passada sobre uma nova constituição foi um sucesso, já que a minoria sunita politicamente alienada participou do processo, ou se foi um fracasso, já que esta fração do eleitorado votou majoritariamente pela rejeição da proposta constitucional.

"Queríamos que a constituição fosse um consenso nacional", disse Casey. "A avaliação atual é de que não há tal consenso, especialmente entre os sunitas".

O senador Richard Lugar, republicano por Indiana e presidente do Comitê de Relações Internacionais, advertiu: "Os curdos e os xiitas, que dominaram a redação da constituição, optaram por uma estrutura fraca de governo central que maximiza a autonomia destas etnias nas regiões em que elas predominam. A maioria dos sunitas rejeita tal arranjo, porque este os deixa com poucos recursos e poder. Essas desigualdades alimentam a insurgência dos sunitas e ameaçam gerar conflitos civis que poderiam resultar na divisão permanente do Iraque".

"É uma situação terrível", diz Leslie Gelb, presidente emérito do Conselho de Relações Internacionais. "Os insurgentes são incapazes de vencer a guerra militarmente enquanto as tropas norte-americanas estiverem no Iraque. E nós somos incapazes de vencer a guerra sem que haja um acordo político real, e isso está ficando cada vez mais improvável".

Se o Iraque se fragmentar, ou se mergulhar em uma guerra civil, será difícil para os seus vizinhos no Oriente Médio - que estão de olho no petróleo iraquiano, e que temem que a violência se espalhe por seus próprios territórios - não intervir no país.

"Algo que poderia destroçar todo o processo seria uma intensa guerra civil", adverte Anthony Cordesman, especialista em Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "Sob tal cenário, há uma tendência natural de migração de grupos étnicos para regiões homogêneas, e também uma propensão a iniciativas de 'limpeza étnica'".

Jon Alterman, também do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, afirma: "A mim não parece absurda a possibilidade de os turcos ocuparem pelo menos o terço superior do Iraque, caso o caos se instale no país. E os sírios e os iranianos também poderiam envolver-se".

A economia iraquiana continua arruinada, o governo do país está eivado de ineficiência e irregularidades, e o povo está sujeito a assassinatos, seqüestros, atentados a bomba e outras formas de violência.

"Eleições nacionais e acordos políticos entre as elites não conduzirão à estabilidade enquanto o cidadão iraquiano comum não puder acender as luzes de sua residência, beber água, andar pela rua sem que pise em esgotos a céu aberto, e deixar as filhas saírem de casa sem temer que elas sejam seqüestradas", afirma o senador Joseph Biden, democrata por Delaware, e integrante do Comitê de Relações Internacionais.

"Existe agora uma guerra civil de facto, mas não a chamamos por este nome. Fingimos que não há uma guerra civil. Encobrimos esta situação de todas as formas possíveis", acusa Qubad Talabany, representante nos Estados Unidos da região curda iraquiana.

Mesmo se os iraquianos realizarem eleições parlamentares bem sucedidas em dezembro, estabelecendo os fundamentos de uma verdadeira democracia, a rebelião sunita poderá se arrastar por anos a fio.

"Não podemos assumir que a criação de instituições democráticas no Iraque no curto prazo resultará em uma correspondente diminuição da insurgência", diz Lugar.

As lideranças norte-americanas civis e militares oferecem poucas garantias, e reconhecem que as forças centrífugas que atualmente fragmentam o Iraque poderão obrigar as tropas norte-americanas a permanecerem no país para evitar uma guerra civil.

A nova constituição, que reserva vários poderes para regiões dominadas por grupos étnicos e sectários, poderá alimentar essas forças centrífugas.

"Transferir o poder de forma tão rápida e drástica de um governo central fraco para regiões que não possuem qualquer capacidade, exceto aquela fornecida pelas milícias, é uma receita para um caos ainda maior", adverte Rend Rahim, um ex-embaixador iraquiano nos Estados Unidos.

Mas os generais norte-americanos dizem que a alternativa é ainda pior: um dia voltar e travar uma guerra cataclísmica para salvar os campos de petróleo da região e os aliados dos Estados Unidos das forças do extremismo islâmico.

"As implicações de se permitir que a região seja dominada pela ideologia da Al Qaeda são semelhantes àquelas derivadas dos anos anteriores à 2ª Guerra Mundial, quando se permitiu que o fascismo se tornasse a ideologia da Alemanha", diz o general John Abizaid, chefe do Comando Central dos Estados Unidos. "Isso levaria a uma grande guerra que nenhum de nós pode suportar".

"Se sairmos do país precipitadamente, teremos que mobilizar a nação, fazer com que cinco milhões de homens e mulheres peguem em armas para retornarmos e tomarmos conta do Oriente Médio daqui a uma década", garante Wilkerson.

Quanto a isto, os democratas que criticam a maneira como a administração Bush administra a guerra concordam.

"Precisamos ser bem sucedidos no Iraque. Caso isso não aconteça, teremos criado um ninho de terroristas", afirma o deputado Ike Skelton, de Missouri, um democrata que integra o Comitê da Câmara para Questões das Forças Armadas.

O quadro destituído de euforia quanto ao Iraque, apresentado pelas autoridades norte-americanas nas últimas três semanas é, por si só, uma aposta.

Com o apoio popular à guerra no nível mais baixo já registrado pelas pesquisas de opinião, os líderes civis e militares procuram reduzir as expectativas, e preparar os norte-americanos para uma intervenção longa e cara, sem alimentar os argumentos favoráveis a uma retirada imediata das tropas.

Porém, aqueles que apóiam a guerra temem que as pressões políticas domésticas estejam pressionando a administração Bush a fazer concessões prematuras e a abandonar os democratas iraquianos.

"A constituição iraquiana, talvez o documento mais importante da história moderna do Oriente Médio, foi reduzida a uma medida da distância que separa os norte-americanos da porta de saída do país", critica Kanan Makiya, uma liderança entre os expatriados iraquianos que se opuseram a Saddam Hussein. "Me parece que, neste momento, estamos caminhando inexoravelmente rumo a uma estrutura federal tripartite que inclui as regiões curda, xiita e sunita. Isso talvez seja um golpe de morte sobre a idéia de um país chamado Iraque". Danilo Fonseca

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