Está pensando em ser jornalista? Sai dessa!

Mark McGuire
Albany Times Union
Em Albany, Nova York

Logo no início do meu último ano na universidade, eu disse aos meus pais que seria um repórter. Aquilo foi demais para eles, que tinham outros planos para este que é o filho mais novo de um advogado.

Mamãe exclamou: "Você será pobre durante o resto da sua vida!".

Papai limitou-se a sorrir: "Ele não demorará a mudar de idéia com o passar do tempo".

Mamãe estava certa. Mas foi somente depois da morte do meu pai, em 1992, que eu tomei conhecimento de uma brincadeira maliciosa que ele havia aprontado. Nos documentos de desmobilização que ele preencheu depois da Segunda Guerra Mundial, ele havia escrito "jornalista" para indicar a sua futura ocupação. Em vez disso, ele se tornou um advogado.

Um homem inteligente, o meu pai.

Nesta semana, lembrei-me desta conversa tão distante no tempo, quando eu estava dando uma palestra para dois grupos de estudantes de jornalismo da universidade --no momento em que, por coincidência, eu me aproximo do 20º aniversário como repórter de um jornal diário. Até hoje, recordo-me muito bem do cheque que recebi após a minha primeira semana de trabalho e que eu levei para casa, no valor de US$ 151,48, pago pelo jornal "The Gloversville Leader-Herald".

Por enquanto, eu me limito a refletir a respeito de uma questão muito simples: Como eu reagiria se os meus filhos quisessem seguir o meu exemplo?

Provavelmente, não de maneira muito positiva. Mas, se eu não quero que os meus próprios filhos ingressem na carreira do jornalismo, como poderia em são consciência incentivar os filhos dos outros a abraçar esta profissão? Pois é. Alguém precisa fazer isso.

Muito recentemente, havia 55 adolescentes participando dos programas de estágios de jornalismo promovidos pela universidade local na redação do jornal Albany Times Union, do Estado de Nova York. Desses, um considerável total de apenas 1 estudante planeja seguir uma carreira de jornalista. Um.

"Eu estou fascinada por poder ver na prática como é esta profissão", me disse Rachel Meacher, 16, uma aluna da terceira série na escola central de Germantown.

Ela não é a minha filha, e, portanto, foi movido por uma hipocrisia deslavada que eu lhe respondi: "Vá fundo, garota". Nós precisamos de sangue novo". Eu só torço para ela não demorar a se inteirar do que a espera mais adiante. Eu mesmo, é claro, não sabia o que aconteceria comigo, e muito menos o que o destino lhe reserva.

Já vai longe o tempo em que prestar serviço ao público por meio da apuração e da disseminação dos fatos e das idéias era o propósito fundamental de toda atividade ligada às notícias --seja na imprensa, no rádio ou na televisão. Hoje, chega-se à conclusão inevitável de que os interesses financeiros se tornaram predominantes, colocando em perigo a própria instituição do jornalismo assim como o negócio do jornalismo.

Hoje, as falências de jornais ou de sucursais de jornais vêm sendo anunciadas com uma regularidade estarrecedora. O "New York Times". O "Boston Globe". O "Inquirer" e o "Daily News" na Filadélfia", o "Sacramento Bee".

No mês passado, foi a vez do "Birmingham Post-Herald", no Alabama, que simplesmente encerrou o expediente de uma vez por todas. Além disso, os empregos que com isso desaparecem não irão ressurgir em nenhum outro lugar. O número total de postos de trabalho em jornais caiu mais de 16% entre 1990 e 2003, segundo a Agência Americana de Estatísticas do Trabalho.

Por mais que conselhos do tipo: "Não adianta trabalhar duro; mais vale trabalhar de maneira mais inteligente" e outros lugares-comuns do mesmo calibre costumem ser martelados nessas situações, a verdadeira manchete é a de que os jornais e os seus minguantes leitores estão sofrendo, às voltas com uma grave crise.

É inevitável chegar à conclusão de que um número menor de repórteres nas ruas significa uma maior quantidade de fatos não noticiados. Conheço poucos negócios que enfrentam dificuldades nos quais a solução seja desenvolver um produto pior.

E você ainda se pergunta por que os estudantes não se precipitam para iniciar sua carreira em jornais tais como o "Miles City Star" (em Montana) pela fabulosa quantia de US$ 15.000 (cerca de R$ 34.000) por ano [remuneração baixíssima para os padrões norte-americanos]?

Simultaneamente, a prática do jornalismo encontra-se sob fogo cerrado por causa da Internet, daquelas vozes do rádio destilando notícias no conta-gota, as quais são constantemente entrecortadas por comerciais, e ainda pelas crescentes divisões partidárias.

Por muito tempo, os conservadores argumentaram que toda e qualquer crítica às suas posições ou aos seus militantes era o resultado direto de um viés da mídia, cujo liberalismo, segundo eles, é praticamente institucional.

Por sua vez, os liberais, que resolveram encarar tardiamente esta briga, queixam-se agora, com o mesmo afinco que os conservadores, de que as regras do jogo foram quebradas, e argumentam que o jornalismo hoje está desvirtuado, já que ele tem por função de proteger os interesses corporativos e o imobilismo.

Falando sério, em certos dias, não sei qual roupa vestir.

Estou preocupado com o lado financeiro. Simplesmente, eu não consigo imaginar com que se parecerá o padrão de gestão de um jornal dentro de 15 anos.

No que diz respeito aos ataques de cunho político-partidário, os jornais deveriam ser mais agressivos, não hesitando a denunciar os ataques movidos por uma ideologia quando estes são equivocados, e reconhecendo a sua validade quando eles têm fundamento. A verdade é uma virtude indefinível e, sim, um bem subjetivo, mas ela tem mais valor do que tudo.

Dito isso, sigo atuando com garra nesta profissão e continuo acreditando nas coisas que nós fazemos. Foi útil assistir a aquilo que se configurou como uma espécie de breve discurso de incentivo para a minha carreira numa recente exibição de pré-estréia de "Good Night, and Good Luck" [ainda sem título em português, exibido atualmente na Mostra de Cinema de São Paulo], o novo filme sobre a luta final de Edward R. Murrow com o senador Joseph McCarthy em 1954.

Em preto e branco e com apenas 90 minutos de duração, o filme de George Clooney ilustra de que maneira o famoso animador conseguiu curvar aquele irresponsável caçador de comunistas, utilizando as próprias palavras do senador como um cassetete. O filme é uma carta de amor dirigida ao jornalismo e ao seu poder de fazer coisas boas. Assim como qualquer um poderia prever, alguns conservadores já se apresentam para denunciá-lo.

"Nós não viveremos com medo uns dos outros", afirmou Edward Murrow no episódio de 9 de março de 1954 do programa "See It Now" ("Assista já") que é reconstituído no filme. "Nós não seremos movidos pelo medo numa era de irracionalidade, se nós cavarmos fundo em nossa história e em nossa doutrina; e lembrem-se todos de que nós não somos descendentes de homens apavorados. Não somos herdeiros de homens que tinham medo de escrever, de falar, de se reunir para defender causas, até mesmo aquelas que em determinado momento eram impopulares".

Pode até ser que eu consiga entender por que certas crianças se disporiam a seguir nesta profissão. Simplesmente, não é o caso da minha filha.

A minha menina de 9 anos quer ser uma artista.

Uma parte de mim grita por dentro: "Você será pobre durante toda a sua vida!".

A outra parte espera que ela não mude de idéia com o passar dos anos. Cada vez mais, o jornalismo se torna uma profissão arriscada e mal remunerada. Será que vale a pena incentivar alunos a abraçá-la? Jean-Yves de Neufville

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