50 Cent é a moeda da hora

Ricardo Baca The Denver Post

Há um momento na vida pública de um artista em que os céus se abrem totalmente.

Não é o estouro inicial, o momento de revelação em que ele surge para o mundo. E não é o momento embaraçoso, o processo na justiça ou a participação na TV-realidade que o arrasta pela lama diante das câmeras.
É aquele ponto de virada de ação e influência, o momento em que professores do centro-oeste, plantadores de arroz da China, jovens rebeldes de Berkeley e mecânicos da Nova Zelândia, todos conhecem seu nome, sua história, seu rosto e sua arte.

E para 50 Cent, nascido Curtis James Jackson III (também conhecido como Boo-Boo) em julho de 1976 em Queens, Nova York, o momento é agora.

"Eu gostei da música, o vi em um clipe com Snoop Dogg e comprei sua história", disse o diretor de cinema Jim Sheridan há pouco tempo, depois de um longo dia promovendo "Get Rich or Die Tryin'" [Fique rico ou morra tentando], o esperado filme-biografia de 50 Cent que estréia nos EUA em 9 de novembro.

"Embora fosse um pouco previsível, gostei da idéia de sua história. E quando o conheci -- no hotel Fitzpatrick's em Nova York, cujo dono eu conheço -- o achei muito interessante. Geralmente quando converso com uma pessoa sei se ela pode atuar. E ele pode."

A crescente popularidade de 50 -- seu momento sob os refletores -- realmente não causa surpresa nesta era moderna de entretenimento com marketing em todas as plataformas.

Basta ver o momento de Eminem, que foi na época do lançamento de "8 Mile", em 2002. Ainda tinha um disco quente nas rádios e uma trilha sonora com material novo a caminho. E, entre toda a badalação que a Interscope Records e a Universal Pictures conseguiram gerar, o primeiro longa-metragem de Eminem foi um sucesso que repercutiu no mundo inteiro.

Foi impressionante, mas 50 Cent aprendeu com seu mentor nascido em Detroit, e seu sucesso vai abalar os céus -- ou pelo menos as caixas registradoras celestiais.

A linha de roupas sempre em expansão de 50 está quentíssima. Seu esperado videogame "50 Cent: Bulletproof" sai em 22 de novembro e foi indicado para seis prêmios no Spike TV Video Game Awards, no mês que vem. Sua nova biografia, "From Pieces to Weight", foi lançada e não é a única mídia que conta sua dramática história de ascensão social.

Também há um documentário em DVD sobre sua vida, "50 Cent: Refuse to Die", à venda no próximo dia 8. Mas a pedra de toque é o filme "Get Rich or Die Tryin'", da Paramount Pictures, uma biografia de 50 dirigida por Sheridan ("Terra de Sonhos", "Em Nome do Pai" e "Meu Pé Esquerdo").

"Ele trabalha duro, é muito carismático e autoconfiante -- mas não de modo egoísta", disse o diretor irlandês de 56 anos, que é o fã mais improvável de 50 Cent. "Foi ótimo contar uma história da classe trabalhadora dos EUA. ... A maneira como existe uma cultura negra de contestação -- os Black Panters e todos os outros grupos -- e de repente os gangsta rappers, que assumem o capitalismo como valor principal. E de certo modo isso é mais assustador para a América média do que realmente criticá-lo. É disso que 50 Cent fala."

50 Cent é um produto de sua geração -- e um beneficiário dos que vieram antes dele. Sem o sucesso de Diddy, Jay-Z e outros, 50 Cent -- que sobreviveu a um tiroteio em 2000 -- teria tido esse êxito estrondoso?

"Se alguém como 50 tivesse surgido cinco ou sete anos atrás com o mesmo visual, não teria alcançado tanto sucesso", disse o crítico de música Jon Caramanica.

"A vendagem da cultura gangsta foi responsável pelo tipo de cultura ostentatória do hip-hop de meados para o fim dos anos 90. Isso deu espaço para uma narrativa diferente. As pessoas estavam cansadas de artistas mais preocupados com jóias e moda do que com a narrativa. E 50 aproveitou isso."

Foi somente no final dos anos 80 que "gangsta" foi escrito dessa forma e apresentado ao vocabulário popular pelos "rimadores" N.W.A., Ice-T e os jornalistas que cobriam o florescente movimento rap hard-core na costa oeste dos EUA. Mas isso ficou à margem por muito tempo, enquanto outros números mais limpos e arrumadinhos como DJ Jazzy Jeff & the Fresh Prince e MC Hammer embalavam as rádios e grandes espaços de shows. Ainda hoje, a atitude gangsta continua polêmica, como se viu na semana passada quando algumas pessoas em Los Angeles foram contrárias aos outdoors da Paramount do próximo filme, que mostram 50 Cent com uma arma na mão esquerda e um microfone na direita.

"O hip-hop é uma coisa engraçada", disse Thomas DeFrantz, professor-assistente de música no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. "Nos anos 80 não se baseava na idéia de realidade. Foi só nos 90 que começou a representar a realidade, em que sua credibilidade aumentava por ser um membro das gangues briguentas e levar tiros. 50 chega no momento certo disso tudo. É Horatio Alger de novo, erguendo-se lá de baixo, de muito baixo, para atrair toda essa mídia, toda essa convergência."

Como mercadoria, 50 eclipsou em faturamento a maioria dos outros ícones da cultura pop.

"Isso é extremamente raro, porque o que não é raro são as drogas, a violência, tiroteios e facadas", disse Mike Corbera, que dirigiu "50 Cent: Refuse to Die" e o semelhante "Eminem AKA" em 2004. "(50 Cent e Eminem) romperam e definiram padrões que poucos artistas já alcançaram. Esses caras estão abrindo novos campos, e isso é um sinal. ... Eles são os Beatles e os Elvis de hoje."

50 Cent continua ávido por mais reconhecimento e atenção. É difícil culpá-lo. Sua mãe, viciada em drogas, foi assassinada quando ele tinha 8 anos. 50 foi criado pelos avós, e seus únicos aliados eram seu pequeno exército de soldados verdes e um ou outro parente simpático.

Mas estes eram poucos e distantes. Como um garoto ignorado, Boo-Boo tomava Ritalin e conseguia cocaína para seus tios. Aos 11 ele fez sua primeira transação de drogas rentável.

As experiências mais lucrativas da juventude vieram na forma das festas de um dólar de suas tias. "Elas cobravam um dólar de seus amigos para fazerem a festa em seu quintal", escreveu 50 em "From Pieces to Weight" [literalmente "De pedaços a peso"]. O título se refere a sua promoção no tráfico, passando de pequenos pedaços de crack para quantidades maiores de cocaína.

"Aquelas festas foram minhas experiências de marketing. Também foram a primeira vez que eu vi como o hip-hop afetava as pessoas. Muitas vezes elas tocavam antigas canções soul e todo mundo ficava muito tranqüilo . Mas quando vinha uma canção hip-hop a festa realmente embalava. Os caras começavam a rapear com a música, e as garotas faziam pequenos atos de dança."

E 50 ficou viciado desde então -- na música e na adrenalina que a acompanhava. O último CD de 50, "The Massacre", já tinha vendido mais de 6 milhões de unidades em todo o mundo quando ele o relançou em setembro, incluindo ambiciosamente um videoclipe para cada faixa do disco.

Na trilha sonora do novo filme, 50 aparece em 13 das 17 faixas, que apresentam membros da família G-Unit, Young Buck, Lloyd Banks, Tony Yayo, Olivia e Mobb Deep. Aproveitando a força dos singles "Hustler's Ambition" e "Window Shopper", o CD poderá decolar como a trilha de Eminem para "8 Mile", que vendeu 3,5 milhões de cópias nos EUA em 2002.

"Ele está com o dedo no pulso da cultura pop neste momento, e está mais ou menos ditando como ela se desenvolve", disse Andre Emerson, um produtor executivo da Vivendi Universal Games, criadora do jogo "50 Cent: Bulletproof".

"Algumas pessoas vêem a vida de 50 como um paralelo da história de Rocky, uma história de alguém que sai da miséria e fica rico -- e os EUA gostam disso. É simplesmente incrível ver esse cara que saiu de uma família destruída e de uma vida dura transformar em sucesso tudo de que participa. O número de coisas em que ele está se saindo bem parece insuperado por qualquer outro artista.

"Por isso era crítico lançarmos o jogo ainda este ano", disse Emerson, explicando que sua equipe fez o trabalho de 24 meses em 18 para cumprir o prazo de "Bulletproof", "para estar no meio do filme, da trilha sonora, de tudo o que ele está fazendo".

50 é uma mercadoria, mais que um artista. Mas nas duas frentes você lida com uma base de consumidores instável.

"Você pode imaginar a pressão de ser esse cara?", pergunta DeFrantz, do MIT. "O outro lado de toda essa atenção é que o jogo se torna inimaginável e praticamente impossível. Não há como manter essa visibilidade e exposição." DeFrantz diz que a atenção logo vai mudar para outra pessoa. "E os ciclos estão ficando cada vez mais curtos."

No entanto, ele disse, é importante para "essas pessoas se erguerem por um momento. E é uma das maneiras de podermos nos conectar em todo o país e todo o mundo. Isso é algo que todos sabemos, todos vimos o filme e todos conhecemos a canção.

"É um flash cultural, que nos dá histórias sobre as quais falar. E nós precisamos desses grandes personagens do conglomerado pop, assim como precisamos do underground e das cenas locais, músicos e bandas locais." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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