Era da informação encontra jornais despreparados

Eric Deggans
do St. Petersburg Times

"Os jornais simplesmente não estão fazendo a segunda colheita, mas queimando o celeiro", disse Philip Meyer, professor de jornalismo da Universidade da Carolina do Norte, sobre a última onda de cortes na indústria.

Não é isso que meus patrões e colegas querem que eu diga. Mas os jornais estão em profundas dificuldades, e não só pelas razões que geralmente citamos.

Sim, sofremos com o encolhimento da tiragem por algum tempo. O último mergulho foi de 1,9%, no período de seis meses que terminou em março, de acordo com dados do Departamento de Auditoria em Circulação.

E sim, a receita vem desapontando -graças aos gastos com furacões e custos de impressão crescentes, que levaram a uma redução de vagas e fechamentos de escritórios do Boston Globe, Baltimore Sun, Hartford Courant, San Jose Mercury News, Philadelphia Daily News, Philadelphia Inquirer e New York Times.

Entretanto, a notícia mais desalentadora desse declínio talvez seja sua causa: os jornais tiveram dificuldades em satisfazer os novos leitores, que vivem em um mundo de mídia sob demanda.

Apesar das evidências crescentes que potenciais leitores querem que a notícia seja despachada de forma diferente, as empresas de jornais estão gastando milhões para reformular e encolher um produto que cada vez menos clientes querem.

"Pessoas com menos de 30, 35 anos querem as notícias on-line... despachadas de forma diferente, para que possam fazer buscas e ter controle da programação. O que está desaparecendo é o leitor de 7 dias por semana. Os jornais precisam mostrar (aos acionistas e anunciantes) que isso não é um problema, mas uma transição", disse Tom Rosenstiel, diretor do Projeto de Excelência em Jornalismo.

Brian Toolan, editor do Hartford Courant, viu o clima econômico provocar a eliminação de 14 cargos em sua empresa neste mês, inclusive de seis pessoas do noticiário. Ele está cada vez mais preocupado que o formato antes considerado mais vantajoso -grande, com algo para todo mundo- agora pode ser o maior obstáculo para cultivar novos leitores.

"O que não me deixa dormir é que os leitores mais jovens não querem o tipo de jornal comum. Eles estão buscando formas alternativas, porque gostam mais e acreditam mais nelas, que às vezes têm qualidades de vanguarda que os jornais entregues na porta não podem se arriscar a dar", disse Toolan, que ainda assim revelou uma reformulação ambiciosa da revista de domingo do Courant no dia 16 de outubro.

E por que se preocupar com isso, se você não trabalha em um jornal? Porque os repórteres de um grande jornal geram notícias para toda a mídia.

Todo jornal têm uma dúzia de pessoas que vão para a comunidade e cavam informações originais, muitas vezes desconhecidas. Estações de televisão e rádio, que já trabalham com equipes reduzidas, aproveitam as manchetes dos jornais impressos; muitos dos blogs e sites de notícias da Web, que nunca tiveram equipes de repórteres, freqüentemente usam reportagens desenvolvidas pelos grandes jornais.

"Um dos produtos centrais de um jornal não é a notícia ou a informação. É a influência da comunidade, criada com produto editorial de alta qualidade. Ao cortar pessoal, os jornais não estão fazendo sua segunda colheita, estão queimando o celeiro", disse Philip Meyer, professor da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e autor de "The Vanishing Newspaper: Saving Journalism in the Information Age" (O jornal em queda: salvando o jornalismo na era da informação).

Alguns especialistas sugeriram que os jornais desenvolvessem histórias pensando na Internet primeiro, com conteúdo amplo, de várias camadas, um formato não adequado para o jornal impresso. Meyer acredita que, eventualmente, os jornais devem ser publicados em menor freqüência, com notícias originais formuladas por sites da Web maiores.

"O setor precisa de muitas idéias loucas", acrescentou, citando o sucesso do USA Today, que os jornalistas chamaram de "McPaper" por suas histórias curtas e apresentação colorida.

A economia mais lenta não está facilitando as coisas. No mês passado, depois de projetar uma queda de 20% nos vencimentos do terceiro trimestre, a Knight Ridder Inc. anunciou cortes de 75 vagas no estúdio de notícias do Philadelphia Inquirer, 25 vagas editoriais no Philadelphia Daily News e 52 do noticiário no Mercury News em San Jose.

Da mesma forma a New York Times Co. anunciou cortes de 500 vagas, inclusive 45 no noticiário do New York Times e 35 vagas editoriais no Boston Globe (o Globe já tinha anunciado planos de fechar seu departamento de nacional de notícias).

Para jornalistas e leitores, as reduções podem ser um choque, especialmente porque os jornais -diferentemente da indústria aérea falida- ainda têm lucros significativos.

A New York Times Co. anunciou na semana passada um aumento de receita no terceiro trimestre de 2,2%, com lucros de US$ 23,1 milhões (em torno de R$ 53 milhões). Entretanto, o rendimento significou um declínio de quase 50% dos US$ 48,3 milhões de lucro no terceiro trimestre de 2004. Em 2004, as margens de lucro foram de 19,4% para o Knight Ridder e 16,4% para a New York Times Co., de acordo com analistas da indústria da Morton Research Inc.

No entanto, com a receita em propaganda aumentando mais lentamente que os custos, esses números não são bons o suficiente para Wall Street. "O crescimento da receita é mais lento que o de despesas. Isso significa que (essas empresas) precisam funcionar com menos", disse Mike Kupinsky, analista da A.G Edwards and Sons. "Se a receita se baseasse na qualidade do jornal, por que estaria caindo?"

Em resposta, alguns jornais decidiram renovar seu produto.

O Wall Street Journal, que já iniciou uma edição da sábado e formato de tablóide para suas edições no exterior, economizará US$ 18 milhões (cerca de R$ 41 milhões) anualmente a começar em 2007, com a diminuição do tamanho de sua página. O St. Petersburg Times espera economizar US$ 3,5 milhões (aproximadamente R$ 8 milhões) com redução similar no ano que vem.

O Star-Tribune, em Minneapolis, vai fazer como o Mercury News e Baltimore Sun e lançar novo formato este ano. Outros, (inclusive o St. Petersburg Times) criaram produtos para fomentar novos leitores de jornal em grupos consumidores específicos, como jovens ou pessoas de língua espanhola.

No entanto, as estatísticas da Associação de Jornais da América mostram que mais pessoas lêem jornais do que pagam por eles: 77% dos adultos nos principais 50 mercados e 60% dos adultos em todo o país aos domingos. O grupo exorta seus membros a vender propaganda com base em quem usa o produto (inclusive edições gratuitas e on-line).

Além disso, apesar de milhões de usuários acessarem páginas de jornais na Web, os anúncios na Internet rendem apenas uma fração dos impressos, parcialmente porque os anunciantes assumem que os consumidores que pagam pelo produto prestam mais atenção nele, disse o presidente da Morton Reseach, John Morton.

Então, porque os jornais não estão se esforçando mais para fazer dinheiro com esses leitores?

"Os jornais nunca levaram a sério a necessidade de desenvolver novos produtos, porque sempre foi muito fácil fazer dinheiro", disse Morton, que não acredita que os jornais estejam destinados à espiral fatal de circulação decrescente e cortes de pessoal. "No entanto, os leitores estão acabando mais rápido que estão sendo substituídos."

Apesar de ser difícil para as empresas encontrarem financiamento para suas inovação, tal esforço é crucial para o futuro dos jornais, disse Rosenstiel do Projeto de Excelência.

"Você não pode esperar que recém formados em administração que trabalham no mercado de ações compreendam para onde está indo a indústria da mídia", acrescentou. "A história mostra que, quando um público se congrega em outro lugar, os anunciantes eventualmente vão pagar para atingi-lo".

Bob Papper, professor da Universidade Ball State, que foi co-autor de um estudo analisando 5.000 horas de uso de mídia entre 400 usuários, concluiu que os jornais devem se esforçar mais para desenvolver ambientes on-line.

Em sua pesquisa, apenas 27% das pessoas entre 25 e 34 anos lia o jornal diariamente. Já na faixa etária superior a 65 anos esse total foi de 71%. A faixa de 25 a 34 dedicou em média 3,6 minutos a um jornal por dia; entre 35 e 44 anos, o período dedicado foi de 8,2 minutos. Os dois grupos gastaram mais de 10 vezes esse tempo on-line.

"Os jornais precisam parar de definir seu negócio como tinta sobre árvores mortas", disse Papper. "Você precisa definir seu negócio como fornecedor de informações. Tinta sobre árvores mortas é apenas uma forma de fornecer informação às pessoas." Deborah Weinberg

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