Escândalos do governo Bush encorajam os democratas

Margaret Talev
Em Washington
Do McClatchy News Service

Na semana que se passou desde a acusação e a renúncia do chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, em um caso que envolve o vazamento de informações relativas à CIA e à guerra no Iraque, os democratas aproveitaram o escândalo para lançarem uma campanha em várias frentes com o objetivo de desacreditar a guerra, a maioria republicana no Congresso e a Casa Branca.

Os democratas se dividem quanto à opção de usarem este novo cenário favorável para buscarem mudanças de políticas, tais como aquelas relativas à forma como a guerra é conduzida. Alguns desejam uma imediata retirada das tropas, enquanto outros sentem que os Estados Unidos precisam terminar aquilo que começaram. Um grupo intermediário quer reavaliar a situação depois de uma nova etapa eleitoral iraquiana, agendada para o mês que vem, mas é favorável a algum tipo de cronograma para uma retirada.

O que une o partido minoritário são duas idéias: a de que a exploração da acusação de I. Lewis "Scooter" Libby, a fim de conquistar cadeiras nas eleições parlamentares de 2006, é uma tática válida, e aquela que indica ser possível conseguir vantagens ao se tentar obter novas informações sobre aquilo que a Casa Branca sabia, e o que informou ou não ao Congresso, antes da invasão do Iraque em março de 2003.

"Se os motivos para se fazer a guerra estavam distorcidos, vocês não acham que deveríamos saber disso?", questionou em uma entrevista na semana passada a senadora Dianne Feinstein, democrata pela Califórnia e integrante do Comitê de Inteligência do Senado. "O que está se discutindo é a revelação da verdade. Afinal, isso é importante".

Desde a acusação de Libby, os democratas forçaram os republicanos a aprovar uma comissão de inquérito do Comitê de Inteligência do Senado, uma proposta há muito tempo encalhada --conhecida simplesmente como "Fase II"-- para que se determine se o governo Bush sonegou ou distorceu informações de inteligência que deveriam ser fornecidas ao Congresso antes da invasão. Ainda não se determinou que documentos e depoimentos serão solicitados.

Eles também estão pressionando a Casa Branca para que esta demita várias figuras-chave além de Libby, incluindo Karl Rove, principal assessor político do presidente Bush e vice-chefe de gabinete.

Alguns democratas estão se voltando para um alvo ainda mais elevado: Cheney, que foi secretário de Defesa do pai do presidente, e de quem o atual presidente depende bastante quando se trata de receber conselhos relativos à questão militar e à política externa.

A Casa Branca tem procurado se defender, enquanto, ao mesmo tempo, fala o menos possível, em parte porque o promotor especial Patrick Fitzgerald ainda não concluiu o seu inquérito sobre o vazamento da identidade da agente da CIA, Valerie Plame, em 2003.

Libby, que na semana passada afirmou na Justiça que não é culpado, é acusado de obstruir o trabalho dos investigadores federais que avaliam a possibilidade de ter havido o vazamento intencional da identidade de Plame.

O marido de Plame, Joseph Wilson, um ex-embaixador, era um crítico da guerra que afirmava que o governo exagerou a ameaça representada por Saddam Hussein à segurança nacional dos Estados Unidos no intuito de justificar a guerra. Mais tarde ele acusou a Casa Branca de divulgar a identidade secreta da sua mulher a fim de puni-lo.

Embora Libby tenha admitido que falou sobre Plame com alguns repórteres em 2003, ele não foi acusado de ter deliberadamente divulgado a sua identidade, nem a de ninguém mais. Mas os relatórios do processo indicam que Libby e vários funcionários da Casa Branca falaram sobre Plame e sobre as posições do marido com relação ao Iraque.

A forte reação pública à acusação contribuiu para fazer com que o índice de aprovação de Bush despencasse para patamares muito baixos, dando aos democratas a vantagem política que eles não tinham até o momento para reclamarem e acusarem. Uma pesquisa de opinião Washington Post/ABC News revelou que 58% dos norte-americanos sentem atualmente que o presidente não é honesto nem confiável, e que 59% desejam que Rove renuncie.

Bush, que viajou para a Argentina na sexta-feira, se esquivou das perguntas dos jornalistas sobre o futuro de Rove e a resposta do seu governo.

"Como vocês sabem, a investigação sobre Karl não terminou. E, portanto, não farei comentários sobre isso, sobre ele e, ou, a investigação", disse o presidente.

"Compreendo a ansiedade e a impaciência dos membros da mídia que querem falar sobre esse assunto", continuou Bush. "Por outro lado, trata-se de uma investigação séria, e vamos abordá-la com seriedade, e estamos cooperando da forma que o promotor especial deseja que cooperemos".

O porta-voz da Casa Branca, Ken Lisaius, disse na sexta-feira que a investigação Fase II do Senado é "um debate que queremos que seja conduzido de forma aberta", tendo, entretanto, sugerido que tal debate não tem sentido. "O próprio senador Reid votou a favor da guerra e, ao fazê-lo, citou as mesmas informações de inteligência anunciadas pelo presidente", afirmou. "Será que ele contou com as mesmas informações? A resposta é sim".

Lisaius também previu que os republicanos inserirão o governo democrata passado na discussão.

"Talvez a investigação possa começar com a administração anterior, na qual o então presidente Clinton, o vice-presidente Al Gore e a secretária de Estado Madeleine Albright falaram sobre os perigos representados por Saddam Hussein", afirmou. "Agora todos reconhecem que as informações de inteligência não estavam totalmente corretas, mas a decisão de ir à guerra foi correta".

Mas alguns democratas acreditam que a investigação Fase II poderá revelar novas informações. Esse otimismo se deve em parte à divulgação de e-mails embaraçosos, sem relação com o caso, na semana passada, como parte de uma análise parlamentar da maneira como o governo respondeu ao furacão Katrina. Em e-mails trocados com a sua equipe durante a crise, o ex-diretor da Agência Federal de Gerenciamento de Emergência, Michael Brown, falou sobre a impressão causada pela roupa que vestiu quando deu entrevistas à televisão, disse que procurava uma babá para o seu cachorro e manifestou o desejo de deixar o cargo, embora tenha respondido de forma lenta ou mínima aos problemas relacionados ao furacão.

Libby foi acusado em 28 de outubro. A campanha organizada pelos democratas começou a funcionar quatro dias depois, quando o líder da minoria, Harry Reid, de Nevada, invocou no plenário do Senado algo chamado Regra 21, obrigando os senadores a realizar uma sessão fechada, e exigindo a discussão da inteligência relacionada à guerra. Foi uma jogada de publicidade, mas funcionou. Os republicanos concordaram em dar prosseguimento às audiências do Comitê de Inteligência que estavam em um limbo havia mais de um ano.

Furioso, o líder da maioria no Senado, Bill Frist, insistiu que as audiências teriam sido realizadas independentemente da manobra de Reid, embora os democratas duvidem disso.

"A investigação Fase II é muito importante", afirmou Frist. "O meu desapontamento foi com a técnica utilizada pelo senador Reid". Mas quando lhe perguntaram se ele convocaria Rove ou qualquer outro funcionário da Casa Branca para depor, Frist hesitou. "Vocês sabem, eu realmente não pensei nisso", esquivou-se Frist.

Enquanto isso, a líder da minoria na Câmara, Nancy Pelosi, da Califórnia, apresentou uma proposta para que se investigassem os "abusos" cometidos na guerra no Iraque, e condenou os líderes da casa por se recusarem a investigar o Executivo. A proposta foi recusada por 220 votos a 191.

Juntos, Reid e Pelosi escreveram a Bush, dizendo que ele deveria se desculpar publicamente pelo papel do seu governo no caso Plame, demitir Rove e outros funcionários e, juntamente com Cheney, responder diretamente a qualquer questão sobre a investigação Fase II.

O ex-presidente Jimmy Carter disse ao programa "Today" da rede de televisão NBC, na semana passada, que apóia a investigação para determinar "até que ponto nós deliberadamente ou inadvertidamente distorcemos a inteligência disponível na tentativa de enganar o povo norte-americano para que este aprovasse a iniciativa de fazer a guerra".

O ex-líder da maioria no senado, Tom Daschle, falando em Chicago, elogiou a nova campanha democrata. Ele também pediu a retirada de um pouco mais que a metade das tropas norte-americanas do Iraque no ano que vem, a transferência de recursos militares para o Afeganistão e esforços para a procura e a captura de Osama Bin Laden.

Bob Graham, ex-governador da Flórida e senador, que já presidiu o Comitê de Inteligência do Senado, afirmou na última sexta-feira que Libby não agiu independentemente do seu chefe. "Cheney foi um conspirador em um dos episódios mais danosos de quebra da segurança norte-americana na história moderna", acusou Graham.

"Creio que o vice-presidente deveria se defender, caso acredite que a inferência de que ele se envolveu no comportamento atroz de Scooter Libby é incorreta", disse Graham em uma entrevista pelo telefone, na sexta-feira. "Francamente, o fato de ele não tomar essa atitude só contribui para que suspeitemos que ele está de fato envolvido no caso".

"Eu não me surpreenderia se nas próximas semanas houvesse mais republicanos do que democratas falando sobre o envolvimento pessoal de Dick Cheney nesse escândalo", afirmou Josh Earnest, porta-voz do Comitê Nacional Democrata. Oposição desencadeia uma campanha em várias frentes com o objetivo de desacreditar a guerra, a maioria republicana no Congresso e a Casa Branca Danilo Fonseca

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