Nos EUA, segundos mandatos presidenciais são marcados por adversidades

James Rosen
Em Washington
Do McClatchy News Service

Nos primeiros anos pós-revolucionários dos Estados Unidos, três presidentes seguidos --Thomas Jefferson, James Madison e James Monroe-- cumpriram dois mandatos integrais consecutivos.

Desde então, 180 anos e 38 presidências depois, isso não tinha mais acontecido sequer com dois presidentes seguidos. Agora, após o mandato do presidente Clinton, que foi marcado pelo escândalo, George W. Bush tenta se tornar o segundo presidente a completar dois mandatos integrais consecutivos após a presidência de um antecessor que também foi reeleito para um segundo mandato.

Mas o desafio está mostrando ser difícil.

No pior período da presidência de Bush, a acusação, na semana passada, de Lewis "Scooter" Libby, chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, devido a alegações de perjúrio, e a retirada forçada da indicação de Harriet Miers para a Suprema Corte foram fatos ocorridos simultaneamente à continuidade da violência no Iraque, uma resposta lenta ao furacão Katrina e os preços recordes da gasolina.

"Mais do que os seus predecessores, Bush foi atingido por uma série de problemas reais que ocorreram todos ao mesmo tempo", afirma Bruce Buchanan, professor de estudos governamentais da Universidade do Texas.

Historiadores especializados na presidência dos Estados Unidos e outros analistas dizem que há várias razões, tanto pessoais quanto institucionais, para que somente 11 dos 41 presidentes que precederam Bush tenham cumprido dois mandatos integrais e consecutivos --e também para que, em praticamente todos os casos, os segundos mandatos tenham tido menos sucesso do que os primeiros.

(Os amigos de Bush, e o próprio presidente, o chamam, brincando, de "43", mas ele é na verdade o 42º presidente na 43ª presidência do país. Grover Cleveland cumpriu dois mandatos no final do século 19, mas estes não foram consecutivos).

"É muito difícil pensar em qualquer presidente em algum período da nossa história cujo segundo mandato tenha tido tanto sucesso quanto o primeiro", diz Alan Brinkley, professor de história da Universidade Columbia. "É como se as presidências perdessem o fôlego. Depois de quatro ou cinco anos as coisas já não funcionam tão bem. E com tanta gente exercendo tanto poder por tanto tempo, simplesmente há tempo suficiente para que alguém faça uma besteira".

Nos últimos 140 anos, uma mistura tóxica de escândalos, guerras, assassinatos e excesso de confiança se infiltrou nos segundos mandatos presidenciais.

Desde 1951, quando o limite de dois mandatos foi acrescentado à Constituição dos Estados Unidos, na forma da 22ª Emenda, uma fraqueza sistêmica se somou à lista de percalços dos presidentes que ficam mais do que quatro anos na Casa Branca.

"Isso é algo que faz do presidente uma 'figura decorativa' no primeiro dia do seu segundo mandato", opina Stanley Kutler, professor aposentado de história da Universidade de Wisconsin e autor de vários livros sobre o caso Watergate. "Durante o primeiro mandato a capacidade de ação dos presidentes é derivada da força de vontade, da personalidade e do poder para impor ao Congresso medidas que podem desagradar a alguns parlamentares. Mas tudo isso termina no segundo mandato, porque, de certa forma, ele não se constitui mais em uma ameaça a senadores e deputados. Ele não pode disputar uma nova eleição. Existe um fator intrínseco de enfraquecimento do presidente".

Balas de assassinos mataram Abraham Lincoln e John F. Kennedy, dois presidentes populares que poderiam ter prosseguido nos seus percursos políticos no sentido de desfrutarem de segundos mandatos bem-sucedidos.

Quando Ulysses S. Grant terminou o segundo mandato, o seu nome se tornara sinônimo de corrupção.

Um século depois, o escândalo de Watergate obrigou Richard Nixon a renunciar antes da metade do seu segundo mandato, enquanto que o escândalo Monica Lewinsky e o subseqüente impeachment dominaram a segunda presidência de Bill Clinton.

Franklin Roosevelt, o único presidente a ocupar o cargo por mais de oito anos, cumpriu três mandatos. Mas o seu primeiro mandato - quando os seus abrangentes programas do "New Deal" resgataram os norte-americanos afundados na Grande Depressão - mostrou ser uma façanha difícil de se repetir.

Harry Truman surpreendeu vários dos seus compatriotas com a sua determinação e tenacidade após ter substituído Roosevelt. E depois viu a sua popularidade despencar em meio a questionamentos sobre a forma como conduziu a Guerra da Coréia.

Após substituir Kennedy, Lyndon Johnson obteve grandes vitórias ao apresentar leis de direitos civis ao Congresso no final do seu primeiro e curto mandato, e no início do segundo. Mas os crescentes protestos contra a Guerra do Vietnã prejudicaram o período restante da sua administração.

Quase quatro décadas mais tarde, uma outra guerra impopular ameaça acabar com um outro presidente. Com a taxa média de aprovação do seu trabalho em torno de 40%, Bush se defronta com nítidas maiorias de norte-americanos que atualmente acreditam que foi um erro lançar uma guerra contra o Iraque.

"O maior problema de Bush é a má administração da questão do Iraque", afirma Buchanan, o professor de estudos governamentais da Universidade do Texas. "Ele criou expectativas de sucesso fácil que foi incapaz de atender, diminuindo assim o período de tolerância a ele concedido pelo povo norte-americano. Isso implicou em uma grande drenagem do apoio que lhe era dado".

Embora isso não seja algo óbvio à primeira vista, Buchanan vê um paralelo entre o Iraque e o caso Libby. Assim como as promessas feitas por Bush de um sucesso rápido no Iraque - algo que foi encapsulado no seu prematuro discurso que falava da "missão cumprida", seis semanas após a invasão de março de 2003 - retornaram para atormentá-lo, a acusação de Libby também trouxe de volta os ecos das suas promessas na campanha de 2000, no sentido de "restaurar a honra e a dignidade da Casa Branca".

Em ambos os casos, segundo Buchanan, as perigosas tendências pessoais ao sentimento de superioridade moral e ao excesso de confiança levaram Bush a fazer promessas que se revelaram falsas.

Sob o ponto de vista de Buchanan, essas tendências foram encorajada durante o primeiro ano de Bush na presidência pelo seu sucesso em obter a aprovação do Congresso às reduções de impostos e pela sua enorme, embora temporária, popularidade após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Com professor em Austin, Buchanan acompanhou atentamente a carreira de Bush desde que este se tornou governador do Texas, em 1995. Buchanan vê pouca semelhança entre o cauteloso estilo de liderança de Bush como governador e a sua abordagem do tipo 'não façam prisioneiros', demonstrada por ele como presidente.

"Ele não fez nada de particularmente ousado como governador, enquanto que, como presidente, assumiu grandes riscos em diversas frentes", explica Buchanan.

Enquanto se depara com as conseqüências das suas apostas nos campos externo e interno, Bush está descobrindo uma dura verdade sobre a solidão na Casa Branca. Kennedy expressou o mesmo sentimento mais de quatro décadas atrás, após o fiasco da Baía dos Porcos, em Cuba.

"A vitória possui mil pais, mas a derrota é órfã", disse Kennedy. Colegas conservadores abandonaram Bush aos bandos depois que ele indicou Miers, sua conselheira na Casa Branca e amiga próxima, para a Suprema Corte.

O colunista conservador Robert Novak, que faz parte de um grupo de repórteres que cobrem a acusação de Libby devido ao vazamento da identidade da agente da CIA, Valerie Plame, criticou fortemente Bush por não ter feito fortes aliados no Congresso.

"Atualmente ele parece tão perdido na hora de lidar com o Legislativo como no dia em que entrou pela primeira vez na Casa Branca", escreveu Novak.

Enquanto os democratas criticam Bush por manter teimosamente a mesma rota quanto à questão do Iraque, alguns indivíduos que apóiam a guerra percebem que o presidente carece de determinação e que busca uma retirada pelo menos parcial das tropas antes das eleições parlamentares do ano que vem.

"A lição aprendida no Iraque é clara", escreveu Danielle Pletka, uma analista especializada em Oriente Médio que trabalha no American Enterprise Institute, uma organização de pesquisa política com sede em Washington. "O poder de ocupação externa dos Estados Unidos está minguando, e o compromisso com a criação dos blocos fundamentais da democracia é tênue. Para os sírios que odeiam o regime em que vivem e para os egípcios que pensam em como reduzir a capacidade do seu presidente de se aferrar ao poder, existe um alerta no ar: quando a situação fica difícil, os norte-americanos vacilam".

Esse tipo de crítica é inerente ao fato de se ocupar o cargo mais importante do planeta, mas é algo que cresce durante um segundo mandato presidencial.

"A história de cada segundo mandato é diferente, mas todas essas histórias possuem similaridades suficientes para que se acredite que exista algo de estrutural no que diz respeito aos segundos mandatos", afirma Brinkley, da Universidade Columbia. "Não creio que haja algo de inevitável quanto a isso, mas existem certos fatores bastante persistentes em termos de cansaço parlamentar e popular. Além do mais, a qualidade dos membros de uma segunda administração faz com que os presidentes tenham mais dificuldade de obter sucesso". Desde a semana passada, Bush enfrenta o pior momento desde que assumiu o cargo Danilo Fonseca

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