Novo Boeing 777-200LR bate recorde de distância em vôo sem escalas

James Wallace
em Londres
do Seattle Post-Intelligencer

Este foi o mais longo de todos os vôos sem que a tripulação pregasse o olho.

Divulgação/Boeing 
O Boeing 777-200LR pousa em Heathrow, após 22 horas e 42 minutos de vôo sem escalas


De Hong Kong a Londres, da forma mais difícil, no sentido leste, com ventos pela frente. Um vôo sem escala por sobre dois oceanos e a América do Norte - mais de meia volta em torno da Terra.

Quando as rodas do jato da Boeing tocaram a pista do Aeroporto Heathrow, em Londres, às 13h18, horário local, da quinta-feira (10/11), o avião havia estabelecido um recorde de distância de 11.664 milhas náuticas. O tempo de vôo foi de 22 horas e 42 minutos. Isso significa mais de meia volta em torno do planeta, ou, segundo as escalas utilizadas nos odômetros dos automóveis - 13.422 milhas terrestres, ou 21.601 quilômetros.

Desde o alvorecer da era do jato, mais de meio século atrás, nenhuma
aeronave deste tipo havia feito um vôo tão longo sem escalas e
reabastecimento.

Em 1962, um bombardeiro Boeing B-52 voou 12.532 milhas, de Kadena, em
Okinawa, até uma base da Força Aérea próxima a Madri, na Espanha,
estabelecendo um recorde de vôo sem reabastecimento por um avião a jato que foi mantido até a última quinta-feira.

O Boeing 002, o prefixo do avião, superou em muito esse recorde.

E, ao fazê-lo, ele atraiu a atenção até mesmo daqueles indivíduos do setor de aviação que estão acostumados a jatos de grande autonomia de vôo.

Depois que o avião fez a sua última alteração de curso sobre o Aeroporto
JFK, em Nova York, e rumou para a Nova Inglaterra, um controlador de tráfego aéreo no Canadá perguntou qual era o seu ponto de origem. O controlador já sabia que o destino do avião era Londres.

O piloto de testes da Boeing, Randy Austin, que pilotava o avião naquele
momento, disse ao controlador que o aparelho vinha de Hong Kong. O
controlador, aparentemente não acreditando que era a cidade de Hong Kong na Ásia, perguntou qual a designação de quatro letras para a cidade, segundo a convenção oficial usada pelos pilotos.

"Esse é algum tipo de vôo especial?", perguntou finalmente o controlador.

O piloto respondeu que se tratava de um vôo para bater o recorde mundial de distância.

Foi uma história confusa.

Para ir de Londres a Hong Kong, um avião geralmente voa sobre o sudeste da Ásia e, a seguir, sobre o Oriente Médio e a Europa. Aviões têm feito este vôo sem escalas desde 1983. O vôo de 5.300 milhas náuticas demora cerca de dez horas.

Outros pilotos de aeronaves comerciais ouviram a conversa entre os pilotos da Boeing e o controlador de tráfego aéreo, e passaram a chamar os pilotos do 777 para desejar-lhes boa sorte e fazer-lhes perguntas. Quanto combustível restava no avião, e qual a distância que já haviam voado? Papos de pilotos.

Os contatos por rádio foram feitos por jatos da American, Continental e El Al que voavam nas proximidades do 777.

A rota seguida pelo jato sobre o Atlântico foi semelhante à de Charles
Lindbergh, no seu Spirit of Saint Louis, em 1927.

À medida que o jato se aproximava de Heathrow, a torre de controle do
aeroporto determinou que ele esperasse por uns 20 minutos a ordem para
aterrissar.

O controlador de Heathrow perguntou aos pilotos do 777 a duração do seu vôo. Eles responderam que estavam voando por mais de 22 horas. O controlador que mandou o avião aguardar retrucou: "Peço desculpas".

Os 35 passageiros e os pilotos também experimentaram algo de incomum. O sol nasceu duas vezes durante o vôo. Cinco dos nove pilotos a bordo estavam na cabine de comando para presenciar o segundo nascer do sol, que ocorreu pouco depois de passarem por Saint Johns, no Canadá, quando o avião rumava para o Atlântico.

"Todos estávamos esperando por isso", disse Rod Skaar, um piloto de testes da Boeing que, na ocasião, ocupava o assento do co-piloto, do lado direito. Skaar foi o "navegador" oficial do vôo, responsável pelo planejamento da rota e pela logística exigida para bater o recorde.

A Boeing estabeleceu este recorde de distância com o seu 777-200LR
Worldliner, o jato de maior autonomia de vôo já construído. O avião, que
pode transportar mais de 300 passageiros em um arranjo de três classes, só começará a voar comercialmente no início do ano que vem. Em vez de
passageiros comuns, o avião levava oito pilotos, dois executivos da Boeing, vários engenheiros da companhia, um comissário de bordo, representantes de clientes, 11 jornalistas e um operador de câmara de televisão da BBC.

O vôo teve início em Hong Kong na quarta-feira, entrou na quinta-feira sobre o Pacífico, e, a seguir, retornou à quarta-feira ao cruzar a Linha
Internacional da Data, voltando, mais tarde, finalmente, à quinta-feira.

Após chegar no Aeroporto Heathrow, que estava sob céu encoberto, o grande Boeing azul foi saudado por dois carros de bombeiros com jatos de água, enquanto taxiava na pista, parando próximo a uma multidão de jornalistas.

"Me sinto ótimo", disse Lars Anderson, vice-presidente do programa do Boeing 777, que foi o primeiro a desembarcar, seguido pelos jornalistas que foram convidados para o vôo histórico.

Os tripulantes foram os últimos a desembarcar, liderados pela capitã Suzanna Darcy-Hennemann, líder do projeto de vôo para a quebra de recorde, e principal piloto de testes do programa 777-200LR.

O avião levava 163.772 quilos de combustível antes das turbinas serem
ligadas em Hong Kong. Quando pousou em Hong Kong restavam nos seus tanques 8.490 quilos. Antes da decolagem, o peso do combustível era maior do que o peso somado do avião, dos passageiros e das bagagens.

Pode-se dizer que o vôo foi um golpe de publicidade - e a Boeing sem dúvida obteve muita atenção por parte da mídia. Mas o recorde de distância ocorreu em um momento no qual várias grandes linhas aéreas internacionais - Qantas, Singapore, Emirates e Cathay Pacific - estão interessadas no 777-200LR para os seus vôos ultralongos. Em torno de cada uma dessas campanhas é travada uma luta acirrada, devida à competição entre a Boeing e a Airbus.

Um piloto da Singapore Airlines conduziu a aeronave durante parte do vôo, juntamente com cinco pilotos da Boeing e mais dois da Pakistan International Airlines.

"Acreditamos que seja importante divulgar a imagem deste avião e da sua
capacidade", disse Andersen, quando lhe perguntaram por que a Boeing queria o recorde. "Este vôo sublinha a nossa estratégia de oferecer serviços sem escalas".

A honra de aterrissar o avião em Londres coube ao capitão Asif Reza, da
Paquistan International Airlines, empresa que receberá dois 777-200LR no
início do ano que vem, e que poderá encomendar outras aeronaves do mesmo
modelo.

O piloto de testes da Boeing, John Cashman foi o co-piloto da aterrissagem. Cashman é diretor de operações de tripulações de vôo da Boeing. Em 12 de junho de 1994 ele foi o principal piloto do vôo inaugural do 777. A sua carreira como piloto de testes da Boeing está chegando ao fim. Cashman faz 63 anos no ano que vem, idade limite para os pilotos de testes da Boeing. Ele pretende se aposentar.

Cashman está ajudando a contratar e treinar uma nova geração de pilotos de testes da Boeing, e não realiza tantos vôos de testes como no passado, de forma que o fato de ocupar o assento direito durante esta aterrissagem foi algo de especial.

Durante o vôo, pouco depois de o avião passar sobre Los Angeles, a uma
altitude de 11.300 metros, Cashman e a tripulação que estava no comando
naquele momento receberam uma chamada de Alan Mulally, diretor-executivo da Boeing Commercial Airplanes.

Mulally liderou o programa de desenvolvimento do 777. Antes de falar com os pilotos, Mulally, que estava no Havaí, chamou Andersen.

"Parabéns. Vocês estão mudando o mundo", disse Mulally.

O jato havia ultrapassado o ponto intermediário da sua rota uma hora atrás.

"A aeronave sabe o que tem que fazer, e ela vai correr atrás desse recorde", disse Darcy-Hennemann, quando o jato atingiu aquela etapa que é conhecida como ponto de não retorno.

A aeronave chama-se Baby Blue 2, o nome carinhoso dado pelos pilotos de
testes da Boeing ao aparelho, que foi pintado com o azul padrão da companhia para entrega aos clientes. Este é o segundo de dois 777-200LR que foram utilizados no programa de testes de vôo que teve início em março passado.

Andersen abriu duas garrafas de vinho borbulhante, produzido no Estado de Washington, e todos se reuniram na espaçosa cabine de passageiros - menos os pilotos - para fazer um brinde devido à conclusão da metade da jornada.

O jato ainda estava a mais de uma hora de Los Angeles, tendo ainda que
cruzar um continente e um oceano. Mas ele estava cinco minutos adiantado, e as turbinas do 777, fabricadas pela General Electric - as mais poderosas já construídas - haviam queimado 1.362 quilos de combustível a menos do que havia sido estimado para aquele ponto da viagem antes do início do vôo.

As turbinas geram uma energia propulsora de até 110 mil libras para o
777-200LR, mas em altitude de cruzeiro esses motores só precisam funcionar entre 17% e 20% da sua potência total para deslocarem o avião através do ar rarefeito na sua velocidade de cruzeiro de Mach 0,84. No vôo que quebrou o recorde de distância, o 777 voou a Mach 0,83 para poupar combustível.

A rota de vôo do grande jato foi traçada três horas antes da decolagem,
tendo sido calculada de forma a que se batesse o recorde de distância, mas também com o objetivo de que a aeronave obtivesse os ventos mais favoráveis possíveis durante o percurso.

O vôo passaria sobre Taiwan, ao longo da costa sul do Japão, e pelo Oceano Pacífico rumo a Midway. O noroeste de Midway seria o primeiro dos três "pontos de alteração de rumo" críticos, que seriam utilizados para a medição do recorde de distância. O segundo desses pontos foi Los Angeles, e o terceiro Nova York. A distância do recorde foi a soma dos quatro segmentos de reta delimitados por estes três pontos, por Hong Kong e por Londres.

Na verdade, o avião voou mais do que essa distância. Isso porque o recorde de distância é medido por linhas retas a partir do início do vôo entre cada ponto de alteração de rumo, até o ponto final, em Heathrow. Mas o avião não voou em linhas retas entre esses pontos. Em determinados momentos os pilotos alteraram ligeiramente a rota para encontrar os melhores ventos, embora cada um dos três pontos tivesse que ser necessariamente sobrevoado.

Um mapa de vôo que faz parte do sistema de entretenimento de bordo do avião mostrou que o número de milhas totais voadas antes da aterrissagem era de 14.042.

Esta proeza ocorreu cem anos após os Irmãos Wright, em 1905, terem
estabelecido um outro recorde de distância, ao voarem 24 milhas em 38
minutos e 20 segundos. Este é considerado o primeiro recorde de distância da história da aviação, e foi reconhecido pela Associação Nacional de Aeronáutica, criada no mesmo ano.

Um representante da organização estava a bordo do 777-200LR a fim de
monitorar o vôo e certificar o recorde de distância.

Após 11 horas de vôo, Bob Buchholz, o engenheiro chefe da Boeing para a
segurança, a certificação e o desempenho do 777, conversava com os
repórteres na cabine de comando, observando que se estava fazendo a
história. Os seus olhos se encheram de lágrimas quando falou sobre os
primeiros vôos sem escala sobre o Pacífico, o Atlântico e os Estados Unidos, feitos por pioneiros da aviação como John Alcock e Arthur Whitten Brown, que foram os primeiros a cruzar o Atlântico sem escalas, em 1919.

O Baby Blue 2 cruzou os dois oceanos e os Estados Unidos em um único vôo. Danilo Fonseca

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