George W. Bush ataca críticos à guerra no Iraque

Margaret Talev
McClatchy News Service
Em Washington

O presidente Bush usou um discurso no Dia dos Veteranos, feito na Pensilvânia na sexta-feira (11/11), para bater nos democratas que sugerem que foram enganados a ir à guerra no Iraque, dois anos e meio atrás, e para negar as alegações dos críticos de que o governo manipulou a inteligência pré-guerra.

"Apesar de ser perfeitamente legítimo criticar minhas decisões ou a condução da guerra, é profundamente irresponsável reescrever a história sobre como a guerra começou", disse o presidente, flanqueado por soldados em um discurso ao meio-dia no Depósito do Exército em Tobyhanna. Questionar a honestidade do governo só prejudicará a moral dos soldados e encorajará os terroristas, ele disse. "O que está em jogo na guerra global ao terror é alto demais, e o interesse nacional é importante demais para políticos fazerem acusações falsas", disse ele.

Os democratas rejeitaram tal lógica e disseram que a decisão de Bush de abordar publicamente as alegações ressalta quão comprometida se tornou sua posição junto aos eleitores e alguns republicanos no Congresso.

"Em vez de transferir a culpa a membros do Congresso, que como tantos americanos estavam dispostos a confiar em seu comandante-em-chefe, o presidente deveria dizer a verdade aos nossos soldados e suas famílias sobre como foram enviados à guerra", disse o presidente do Comitê Nacional Democrata, Howard Dean, em uma declaração feita após o discurso.

Depois que o senador Ted Kennedy, democrata de Massachusetts, acusou o presidente de politizar um dia que deveria ser dedicado ao serviço dos veteranos, o secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan, contra-atacou.

"É lamentável que o senador Kennedy tenha encontrado mais tempo para dizer coisas negativas sobre o presidente Bush do que já disse sobre (o líder iraquiano derrubado) Saddam Hussein", disse McClellan. "Se a América seguisse a política externa do senador Kennedy, Saddam Hussein não apenas ainda estaria no poder, como estaria oprimindo e ocupando o Kuwait."

Enquanto isso, o líder da minoria no Senado, Harry Reid, democrata de Nevada, sugeriu que o presidente não está em posição de intimidar os democratas no momento em que uma comissão do Senado investiga como o governo lidou com a inteligência para argumentar a favor da guerra --incluindo se Saddam tinha acesso a armas de destruição em massa.

O Senado, liderado pelos republicanos, concordou na semana passada em dar prosseguimento a tal investigação, conhecida como Fase II, após os democratas terem forçado uma sessão fechada à imprensa sobre o assunto. A investigação, que deverá ser realizada em grande parte a portas fechadas, poderá se estender até o próximo ano.

"Apesar do governo Bush continuar impedindo o Congresso de encontrar a verdade sobre a manipulação da inteligência pré-guerra, os democratas continuarão pressionando por uma plena divulgação dos fatos", disse Reid em uma declaração preparada.

A Casa Branca espera que uma campanha mais agressiva para justificar a invasão de março de 2003 reconquiste o apoio à guerra e a confiança pública no presidente.

Ambos têm caído há meses. Eles atingiram baixas recordes no mês passado, depois que o número de baixas americanas ultrapassou a marca de 2 mil e I. Lewis "Scooter" Libby, o chefe de gabinete do vice-presidente, foi indiciado pelo crime de ter interferido na investigação federal do vazamento da identidade de uma agente da CIA, cujo marido questionou publicamente a justificativa para a guerra.

Uma pesquisa Associated Press-Ipsos no início desta semana apontou que 37% dos americanos aprovam a atuação do presidente, enquanto 61% desaprovam. Uma pesquisa NBC/Wall Street Journal apontou que 57% dos americanos agora acreditam que o presidente os enganou deliberadamente em seu argumento para a guerra.

A campanha da Casa Branca para reverter estes números teve início um dia antes do discurso do presidente. Na quinta-feira, o conselheiro de segurança nacional do presidente, Steven Hadley, disse aos repórteres em um briefing que havia forte evidência de que Saddam era uma ameaça. E ele notou que uma investigação bipartidária não encontrou evidência de que as autoridades de inteligência foram pressionadas politicamente a mudar suas conclusões. Os democratas rebateram que a investigação não tratou de como os autores de política usaram a inteligência de que dispunham.

Em seus comentários na sexta-feira, o presidente também notou que antes da guerra, muitas autoridades de inteligência de todo mundo concordavam que Saddam era uma ameaça, e que a Organização das Nações Unidas (ONU) tinha documentado seu desenvolvimento e posse de armas de destruição em massa.

Bush também lembrou como mais de 100 democratas na Câmara e no Senado, incluindo o candidato democrata à presidência em 2004, o senador John Kerry, de Massachusetts, votou em apoio à remoção de Saddam do poder. Hadley disse que os membros do Congresso "tinham acesso à mesma inteligência" que a Casa Branca.

Kerry, em Boston, respondeu ao discurso de Bush acusando o governo de "selecionar a inteligência que lhe interessava e distorcer a verdade até ficar irreconhecível".

O porta-voz de Reid, Jim Manley, disse que o apoio do Congresso na época seria discutido se os legisladores soubessem que a Casa Branca sabia mais do que dizia. Ele também disse que uma investigação do Congresso poderá revelar que inteligência a Casa Branca escondeu ou deixou de divulgar ao Congresso.

"Os membros viram apenas o que lhes foi dado", disse Manley, "e ainda estamos tentando determinar como eles manipularam e distorceram a inteligência".

O presidente não mencionou no discurso na Pensilvânia outro debate entre seu governo e muitos membros do Congresso: aquele em torno das regras que regem o tratamento de prisioneiros na guerra contra o terror.

Um senador republicano que apóia a guerra, John McCain, do Arizona, que foi prisioneiro de guerra no Vietnã, está liderando um esforço para limitar a humilhação e abusos físicos cometidos por militares e oficiais de inteligência para extrair informação dos suspeitos de terrorismo. Apesar do presidente ter dito repetidas vezes que os Estados Unidos não torturam prisioneiros, o governo buscou ao mesmo tempo manter suas opções abertas --especialmente em relação às técnicas de interrogatório da CIA.

Na Pensilvânia, o presidente também não compartilhou seus planos para ajustar o número de soldados no Iraque nos próximos meses. Com cerca de 150 mil soldados em terra, alguns no Congresso querem começar a trazer os soldados de volta para casa. Kerry pediu pela retirada de 20 mil após as eleições lá, daqui cerca de um mês. Outros estão argumentando o oposto; McCain disse nesta semana que acha que mais 10 mil soldados são necessários no Iraque imediatamente.

Bush apenas falou de forma geral e cobriu terreno familiar em seus comentários, que provocaram aplausos. Ele alertou que deixar o Iraque prematuramente, antes que o governo recém-formado possa se defender, encorajará os radicais islâmicos que sentem que os americanos desistiram no Vietnã e em outros conflitos menores.

"Eles acreditam que a América pode ser colocada novamente para correr, só que desta vez em maior escala, com maiores conseqüências", disse o presidente.

"Estes militantes acreditam que controlar um país mobilizará as massas muçulmanas, permitindo que derrubem todos os governos modernos na região e estabeleçam um império islâmico radical se estendendo da Espanha até a Indonésia", disse Bush.

"Contra tal inimigo há apenas uma resposta eficaz: nós nunca recuaremos. Nós nunca desistiremos. Nós nunca aceitaremos nada além da vitória total." Presidente reage para recuperar o apoio popular, em baixa recorde George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos