James Bond continua popular, 52 anos após a sua criação

Casey Seiler
do Albany Times Union

"De repente, James Bond percebeu que estava cansado".

Esta é a terceira sentença em "Casino Royale", o primeiro livro do escritor Ian Fleming sobre o espião inglês.

"Moonraker" (no Brasil, "007 Contra o Foguete da Morte") foi o primeiro filme de James Bond que eu vi no cinema. Os meus pais, benditos sejam, fizeram vistas grossas para a dose usual de violência e sexo bondianos típicos de estórias em quadrinhos, e permitiram que eu e meus amigos assistíssemos ao filme como presente do meu 12º aniversário.

Nos 26 anos que se passaram desde então, sempre fui capaz de contar com 007 para representar tudo aquilo que eu não sou - especificamente, um britânico educado, mas letal, que é capaz de, simultaneamente, pedir o vinho perfeito e massagear as costas de Maud Adams, mesmo estando acorrentado a uma barulhenta máquina do juízo final.

Mas, de repente, James Bond é algo que eu não sou, ou, pelo menos, que não sou mais: a idade dele é 37 anos.

Bem, não falo, é claro, do próprio Bond - o personagem tem 52 anos de idade, caso pensemos nele como tendo nascido com um Martini na mão, com a publicação de "Casino Royale", em 1953. Coincidentemente, o mais recente ator a interpretar Bond, Pierce Brosnan, também nasceu nesse mesmo ano. Correndo o risco de parecer um numerologista, apresento aqui uma outra coincidência: uma nova versão de "Casino Royale", atualmente em fase de produção, será o primeiro filme de Bond a estrelar Daniel Craig. Ele é nove meses mais velho que eu.

E isso me torna mais velho que James Bond. Para quem passou uma grande parcela de tempo consumindo cultura popular - felizmente, eu consegui transformar tal atividade em uma carreira fascinante -, esse tipo de coisa acontece a toda hora. Revisitamos as histórias que nos iluminaram quando éramos jovens apenas para descobrirmos que os personagens com os quais nos identificávamos evoluíram, passando de um tolo Luke Skywalker a um cínico Han Solo, e, deste, a um enrugado Yoda. Sentimos mais simpatia por Falstaff do que pelo inexperiente Príncipe Hal. Quando relemos "On the Road", somos tomados pela necessidade de aplicar um soco no estômago de Dean Moriarty, que tem fobia de responsabilidade.

Mesmo após ouvir a notícia da escolha de Craig, tive a certeza de que tinha alguns anos mais pela frente até que Bond me ultrapassasse. Antes de checar os seus dados biográficos, eu estava certo de que Craig, que eu havia visto anteriormente como o filho infame e mafioso de Paul Newman em "Road to Perdition" ("Estrada para a Perdição"), e como o astuto traficante de drogas em "Layer Cake" ("Nem Tudo é o que Parece"), tinha pelo menos 40 anos. Ele parecia muito durão para ser mais novo do que isso.

E, além disso, desde que Roger Moore, aos 46 anos, fez o papel de Bond em "Live and Let Die" ("Com 007 Viva e Deixe Morrer"), os produtores da série passaram a procurar atores que haviam cruzado a linha divisória dos 40 anos: Timothy Dalton tinha 42 anos quando "The Living Daylights" ("007 Marcado Para Morrer") o introduziu como 007; Pierce Brosnan tinha a mesma idade quando do lançamento de "Goldeneye" ("007 Contra Goldeneye").

George Lazenby fez um único filme, "On Her Majesty's Secret Service" ("007 A Serviço Secreto de Sua Majestade"), provavelmente devido ao fato de, aos 30 anos, ele ter sido o Bond mais novo da história.

Se a cultura popular vê James Bond como um homem na faixa dos 40 anos, isto pode ter algo a ver com as origens do personagem. Após um início de fase adulta marcado pela riqueza e pela licenciosidade, Ian Fleming tinha pouco mais de 40 anos quando começou a escrever "Casino Royale" durante umas férias prolongadas na Jamaica, onde ele e a sua sofisticada amante grávida esfriavam a cabeça enquanto aguardavam a conclusão do processo de divórcio da moça.

O primeiro livro da série Bond cheira às queixas dos homens de meia-idade, equilibradas somente pelas fantasias de realização dos desejos típicos dos indivíduos dessa faixa etária. Em vez da esperteza bem-humorada que nós associamos ao personagem, Bond caminha pelo livro em meio a uma bruma de auto-respeito.

Eis aqui 007 deixando um cassino quase no início do livro: "Ele sentiu o cascalho seco e desconfortável sob os seus sapatos noturnos, o gosto ruim e áspero na boca e o leve suor sob os braços. Ele era capaz de sentir os olhos preenchendo as órbitas. A parte frontal da sua face, o nariz e o sínus facial estavam congestionados".

Com a exceção dos sapatos noturnos, Fleming poderia estar descrevendo qualquer pai de família, morador de um subúrbio norte-americano, se preparando para aparar a grama. "Querida, temos que limpar a garagem hoje? A minha coluna está me matando, isso sem falar do nariz e do sínus facial".

Mas eu me sinto mais como o 007 de Fleming nas manhãs de domingo, mesmo após as más notícias sobre Craig. Ainda tenho um vínculo mais intenso com Bond em uma encarnação bem diferente de 007: o modelo Sean Connery.

Caso você esteja em dúvida, Connery tinha apenas 32 anos quando fez o primeiro filme de James Bond, "Dr. No" ("007 Contra o Satânico Dr. No"), lançado em 1962 (eu nasci cinco anos depois; cinco anos e nove meses depois, nasceu Daniel Craig).

Assim como Cary Grant e Jimmy Stewart, Connery é um daqueles grandes atores que parecem subir e descer na escala da idade. Nos primeiros filmes da série Bond, ele demonstrava a confiança e a sagacidade carregada de autozombaria próprias de um homem maduro, combinadas com uma movimentação corporal fluida e uma capacidade de se enfurecer subitamente, semelhante à de um jovem boxeador. O Bonde encarnado por Connery não é um homem dado a autopiedade barata, ou a pensamentos relativos ao suor sob os braços.

Connery tem hoje 75 anos - cinco a mais do que o meu pai -, e conseguir levar essa mistura de gravidade e imponderabilidade até um novo século, enquanto os outros Bonds ascendiam e caíam. Ao seguir o exemplo de Connery, Daniel Craig terá um modelo talhado para si. E nós também. Danilo Fonseca

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