No centro da controvérsia, Cheney se mantém inflexível

Margaret Talev, em Washington do McClatchy News Service

Com a fala dura e o sorriso que é a sua marca registrada, o vice-presidente Dick Cheney jamais foi confundido com um tipo afeito a fofocas.

Atualmente, o seu estoicismo pode ser mais um fruto das circunstâncias do que de escolha pessoal.

Os problemas relativos à guerra no Iraque transformaram aquele que talvez seja o mais experiente e influente vice-presidente na história norte-americana em um fardo político para o presidente Bush e para os parlamentares republicanos, assim como um estorvo de ordem jurídica para si próprio.

"Não falamos sobre a atual situação porque não podemos", disse em uma entrevista Alan Simpson, ex-senador por Wyoming, Estado natal do vice-presidente. Simpson é um dos melhores e mais velhos amigos de Cheney. "Ele sabe, e os seus advogados lhe disseram que, neste ponto, não há nada que ele possa me dizer".

O escritório de Cheney está emaranhado em uma investigação criminal sobre o alegado vazamento da identidade de uma agente da CIA, cujo marido fez críticas públicas às justificativas apresentadas pelo governo Bush para a invasão do Iraque em 2003.

Ninguém foi indiciado pelo vazamento da identidade de Valerie Plame. Mas o ex-chefe de gabinete de Cheney, I. Lewis "Scooter" Libby, foi acusado três semanas atrás de obstruir a investigação. Segundo a acusação, Libby foi informado por Cheney sobre a função de Plame. Os democratas não perderam tempo, e sugeriram que o envolvimento do vice-presidente foi um ato sinistro.

Cheney foi uma das figuras mais graduadas do governo a defender a guerra. Em 2002, ele declarou que "não havia dúvidas" de que o líder iraquiano Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, e estava se preparando para usá-las contra os Estados Unidos. Tais armas jamais foram encontradas.

Atualmente, o Iraque está construindo uma democracia. Mas com mais de 2.000 soldados norte-americanos mortos, e nenhum fim à vista para a insurgência, assim como com o desvio dos recursos que deveriam ser destinados à luta mais ampla contra a Al Qaeda, a guerra se tornou impopular e atingiu a imagem de Bush.

Enquanto o presidente garantia que os Estados Unidos não praticam a tortura, Cheney era enviado ao Congresso para pedir aos colegas republicanos, apesar das dúvidas pessoais e das eleições do ano que vem, que não restrinjam as táticas que o governo pode usar para interrogar presos de guerra ou suspeitos de terrorismo. A Casa Branca quer que a CIA seja pelo menos capaz de utilizar controversas táticas físicas e psicológicas - para não dizer tortura, segundo a definição legal do termo. O Senado se mobilizou para banir tais técnicas, e a Câmara poderá seguir esse exemplo.

Esses acontecimentos fizeram com que a nação passasse a sentir desconforto com relação ao seu vice-presidente. Uma pesquisa Newsweek do mês passado revelou que 52% dos norte-americanos acreditam que Cheney distorceu deliberadamente informações de inteligência sobre o Iraque, a fim de promover a guerra. E uma pesquisa Harris indicou que o índice de aprovação de Cheney caiu de 55% pouco após a invasão do Iraque, para os atuais 30%.

No entanto, não pensem que Cheney está fora do páreo.

Vários analistas de Washington dizem que notícias segundo as quais Cheney teria perdido influência junto a Bush são exageradas.

"Ele não vai a lugar nenhum", afirmou Gary Schmitt, pesquisador do American Enterprise Institute e ex-diretor do neoconservador Projeto para o Novo Século Norte-americano, referindo-se a Cheney. "Ele ainda é uma voz significante no seio da administração".

Brad Berenson, advogado que trabalhou para a Casa Branca de 2001 a 2003, afirma: "Eu me surpreenderia se a relação entre o presidente e o vice estivesse realmente abalada. Este boato, na minha opinião, não tem o menor fundamento".

Bush demonstrou lealdade mesmo quando estava sob fogo dos adversários, e Cheney passou a ficar mais visível após as notícias de que a sua popularidade estaria em queda. Cheney fez um discurso no Dia dos Veteranos, no Cemitério Nacional de Arlington, e um outro para conservadores na semana passada (16 de novembro), afirmando: "A sugestão de que alguns senadores e o presidente dos Estados Unidos, ou qualquer outro membro da administração, teriam enganado propositadamente o povo norte-americano no que diz respeito às informações de inteligência do período pós-guerra é uma das acusações mais desonestas e condenáveis que já foram feitas nesta cidade".

Celeste Colgan, amiga da família de Cheney, além de ser integrante do Conselho Nacional de Humanidades e ex-vice-presidente da Halliburton Company à época que Cheney dirigia a companhia, afirmou: "Este episódio é muito temporário no quadro maior dos eventos. Esses problemas, os dados das pesquisas e os indivíduos que dão declarações irresponsáveis. No âmbito do quadro total, a nação - e o mundo - está em situação muito melhor com Cheney na vice-presidência".

Cheney, 64, passou mais de três décadas em Washington, como um jovem chefe de gabinete do presidente Gerald Ford, e protegido do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. Ele foi um congressista que subiu os escalões da liderança republicana e que defendeu o governo Reagan durante o escândalo Irã-Contras. Além disso, foi secretário de Defesa do presidente George H.W. Bush durante a Operação Tempestade no Deserto.

Durante cinco anos, antes de se tornar vice-presidente na chapa de Bush, Cheney foi diretor-executivo da Halliburton, uma grande e bem posicionada companhia de prestação de serviços para o setor petrolífero, tendo aprofundado as relações entre o Oriente Médio e os Estados Unidos (bilhões de dólares em contratos posteriores à invasão do Iraque foram destinados à Halliburton, um fato que os críticos de Cheney, com justiça ou não, utilizaram para condená-lo).

Mas Cheney foi pego de surpresa pelos ataques da Al Qaeda contra os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001.

"Isso modificou as vidas de todos nós", disse Simpson. "Estamos combatendo uma insurgência de gente que nos detesta".

Cheney sempre aconselhou o presidente baseado naquilo que ele acredita ser a linha correta de ação para o país, disse Simpson.

"Ele não é um homem sinistro, o que está ocorrendo é algo de muito infeliz", afirmou Simpson, referindo-se à imagem do vice-presidente. Mas ele acrescentou que Cheney não se preocupa nem um pouco com as críticas que vêm enfrentando. "Ele é um homem calmo. Não dá para assustar Dick Cheney".

Cheney construiu a sua carreira se recuperando de humilhações, utilizando fracassos ou fraquezas para fortalecer a sua determinação e defender as suas convicções face ao desprezo popular.

Quando não conseguir arcar com as despesas de Yale, Cheney deixou a universidade e trabalhou construindo linhas de transmissão de energia elétrica na década de 1960. A insatisfação de Cheney consigo próprio foi o fator que o impeliu de volta à universidade. Em universidades públicas, ele obteve os diplomas de bacharel e mestre, e começou a trabalhar no seu programa de doutorado, enquanto vários homens da sua idade eram enviados para o Vietnã.

O fato de ser chefe de gabinete de um presidente enfraquecido pelos escândalos que envolveram o seu predecessor, e o cansaço dos Estados Unidos com relação à Guerra do Vietnã fizeram com que Cheney enfrentasse um teste de realidade - e moldaram a sua crença de que os presidentes precisam de fortes poderes executivos.

"Em 1975, Ford foi incapaz de responder à queda do Vietnã devido a um Congresso aleijado - a única coisa que ele podia fazer era retirar as tropas do país", diz John J. Pitney Jr., professor de estudos sobre o governo da Faculdade Claremont McKenna, na Califórnia, e que atuou como colega de Cheney no Congresso em 1984. Ele continua sendo um admirador do vice-presidente.

"Cheney nunca foi de contar muitas histórias sobre a guerra, mas ele era muito explícito quanto ao seu apoio à instituição da presidência", recorda Pitney.

Uma década depois, o escândalo Irã-Contras consolidou essa forma de pensar. Sendo o principal deputado republicano na comissão parlamentar que investigava o escândalo, Cheney foi um dos principais responsáveis pelo relatório de 1987 que concluiu que "não houve desonestidade ou acobertamento por parte do governo e nenhuma evidência de envolvimento de George H.W. Bush (então vice-presidente)".

O relatório afirmou ainda que, no decorrer da história norte-americana, os presidentes "se engajaram legitimamente em diplomacia secreta e atividades de inteligência, e se recusaram a compartilhar os resultados destas atividades com o Congresso, caso achassem que esta era a melhor forma de procedimento".

Cheney era conhecido como um elemento altamente conservador do Partido Republicano. Ele só confiava em um círculo formado por poucos amigos. E os seus admiradores dizem que o seu codinome no Serviço Secreto durante o governo Ford era "Backseat" (literalmente, assento traseiro), em uma referência ao fato de ele preferir exercer o poder nos bastidores.

Mas o homem que se casou com a namorada do segundo grau, Lynne, que gosta de praticar fly-fishing, de caçar faisões, e de ler vorazmente livros de história, é também tido como uma pessoa que executa os seus planos de maneira direta, que ouve mais do que fala, e que, quando fala, não desperdiça palavras.

Os amigos de Cheney dizem que ele continua sendo o mesmo homem.

"Alguns artigos da imprensa o descrevem como uma caricatura de um Dart Vader", diz Laurence Silberman, juiz federal. Silberman foi vice-presidente da comissão que não encontrou evidências de que o governo teria pressionado oficiais de inteligência para que estes distorcessem dados relativos à existência de armas de destruição em massa no Iraque, antes de os Estados Unidos invadirem aquele país. "Cheney é um patriota sem nenhum egoísmo".

Mas os críticos do vice-presidente, incluindo alguns que apoiaram a invasão do Iraque, dizem que o 11 de setembro mudou Cheney para pior.

"A mim parece que ele se transformou em algo que está muito próximo do paranóico", afirmou em uma entrevista o coronel da reserva Lawrence Wilkerson, que foi chefe de gabinete do ex-secretário de Estado, Colin Powell. "Dá para visualizar o presidente Bush e Cheney dizendo para si próprios que não permitirão que haja um outro ataque como aquele durante este governo. Mas, em se tratando do vice-presidente, o foco é demasiadamente intenso, a paixão é muito grande, e o desejo de tornar a segurança perfeita, mesmo que isso ameace a nossa democracia, enorme. Isso tudo simplesmente desafia o pensamento racional".

Thomas P.M. Barnett, assessor militar e autor de best-sellers sobre a estratégia pós 11 de setembro, disse que Cheney parece estar muito atolado em uma mentalidade da Guerra Fria para conseguir se ajustar ao novo inimigo, e que Bush errou ao não encorajar Powell ou Condoleezza Rice, que era assessora de Segurança Nacional antes de substituir Powell, a se contraporem de forma mais intensa a Cheney.

Hubertus Hoffmann, um empresário alemão e especialista em políticas globais de defesa, é discípulo de Fritz Kraemer e autor de um livro sobre este. Kraemer foi o assessor do Pentágono cujas idéias influenciaram Henry Kissinger, Alexander Haig, Rumsfeld e, até certo ponto, Cheney.

"Kraemer alertou para a "fraqueza provocadora", a idéia de que a percepção, por parte de um inimigo, de que a nação reluta em usar a força militar poderia provocar um ataque", explica Hoffman. Segundo ele, Kraemer, que morreu em 2003, admirava Cheney. "Mas ele o teria aconselhado a adotar uma abordagem mais ampla com relação às questões externas. Existe uma estratégia dupla, de contenção, mas também de conquistar os corações e as mentes do povo. E foi isso o que Cheney não aprendeu a fazer", conclui Hoffmann.

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