Manter a fé continua difícil para os homossexuais

Melissa Fletcher Stoeltje
San Antonio Express-News
Em San Antonio, Texas

Randy, agente imobiliário que não quis revelar seu último nome, cresceu freqüentando a Igreja Batista do Sul, em Dallas. Em 1980, ele ouviu um sermão no qual o pregador proclamou que a Aids era a retribuição de Deus pelo "estilo de vida" gay.

O sermão fez Randy, que é gay, deixar a fé. Depois de atingir o fundo do poço, alguns anos depois, ele entrou para os Alcoólatras Anônimos. Foi assim que conseguiu voltar à vida espiritual, adotando Deus como um "poder maior".

"Passei a acreditar em um Deus benevolente e amoroso, que me aceitava como eu era e que queria o melhor para mim, em vez de um homem raivoso no céu", disse Randy, que hoje freqüenta uma igreja presbiteriana voltada para gays e lésbicas.

Alan Clay teve experiência similar quando jovem. Lutando com seus sentimentos homossexuais, ele procurou o pastor de sua igreja fundamentalista e revelou seu dilema. O ministro "deu um escândalo e expulsou-me de sua sala", disse Clay. "Ele me disse que voltasse quando agisse como um ser humano decente".

Foi apenas depois de participar de uma cruzada de Billy Graham, anos depois, que voltou a se conectar com a vida espiritual, compreendendo a mensagem que Deus aceita a todos. "Foi como se o Espírito Santo falasse comigo e dissesse: 'Criei você e não há nada de errado com você'", diz ele.

Converse sobre religião com a comunidade GLS e ouvirá um tema comum --de rejeição e dor, de marginalização por causa da orientação sexual.

Para muitos, a experiência com a religião organizada devastou sua visão de Deus, sua auto-estima e seu relacionamento com o sagrado.

"A igreja fez tanto mal aos homossexuais, dizendo que são maus e que vão para o inferno, que às vezes é difícil retomar a conexão com o Deus do amor", disse a reverenda Rita Wilbur, pastora da igreja Espírito da Paz, parte da Igreja Unida de Cristo, uma denominação que inclui gays e lésbicas --a única grande a aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Alguns homossexuais encontraram outras formas de reconciliar sua orientação sexual com as mensagens negativas que ouviram do púlpito, freqüentemente procurando casas de oração que especificamente buscam atendê-los.

A questão de gays e lésbicas --especialmente em relação à ordenação e casamento-- ameaça rachar algumas seitas, particularmente as principais denominações protestantes.

Forças ortodoxas dentro dos diferentes ramos, apesar de proclamarem "amar o pecador, mas odiar o pecado", prometem manter as interpretações tradicionais que afirmam que atos homossexuais são uma abominação aos olhos de Deus.

Algumas igrejas encontraram um meio termo, aceitando gays e lésbicas em suas congregações, mesmo aderindo a interpretações tradicionais das escrituras contra a homossexualidade.

"Imagino que a igreja deveria ser um lugar onde qualquer um, independentemente de raça, sexo ou preferência, se sentisse bem vindo. As igrejas devem receber a todos, mesmo que queira ajudar as pessoas a se transformar na intenção original de Deus para a vida, ou seja, de homens e mulheres feitos para procriar", disse o bispo David Michael Copeland, da New Creation Christian Fellowship.

A cruzada de Graham alimentou uma busca profunda em Clay, na qual ele leu inúmeros livros sobre homossexualidade e Deus. Um deles foi: "The Lord Is My Shepherd and He Knows I'm Gay" (Deus É meu Pastor e Sabe que Sou Gay), do reverendo Troy D. Perry, fundador da Igreja da Comunidade Metropolitana, que ministra especificamente para a comunidade GLS.

Hoje, Clay é membro ativo da Igreja Metodista Unida de Travis Park, que pratica uma filosofia religiosa baseada na inclusão de todos.

Sua história espiritual reflete a de muitos homossexuais. Clay foi criado em um lar religioso batista. Seu pai era diácono e sua mãe professora da escola dominical. Ele até mesmo se tornou jovem pregador aos 15.

No entanto, ao descobrir suas tendências homossexuais na adolescência, entrou em crise e tentou o suicídio no colégio. Depois, passou a freqüentar uma escola batista, onde havia celibato e "passou muitas horas rezando, tentando ser normal".

Ele diz que a cruzada de Graham finalmente permitiu que ficasse em paz com sua orientação sexual. Por pouco tempo freqüentou uma igreja voltada especificamente para homossexuais, onde muitas vezes chorava durante a missa.

Clay foi atraído para a Travis Park pela música e por sua mensagem de inclusão.

Richard Lindsay, porta-voz da mesa redonda Nacional Gay e Lésbica, diz que cerca de 3.800 congregações nos EUA fizeram "declarações formais de inclusão de homossexuais. E há milhares outras que recebem gays, mesmo sem uma declaração formal."

Defensores da inclusão da comunidade GLS argumentam que a Bíblia foi mal interpretada. Eles dizem que a retórica usada atualmente para condenar a homossexualidade é similar à usada contra a ordenação de mulheres, integração racial e abolição da escravatura.

Referências a atos homossexuais na Bíblia estão associadas à adoração de ídolos pagãos e relacionamentos de exploração entre homens e meninos que aconteciam em algumas sociedades antigas.

Jesus, salientam, foi veemente contra o divórcio e o adultério, mas não falou uma palavra sobre a homossexualidade. "Jesus não falou de homossexualidade, provavelmente porque não havia uma compreensão comum de orientação sexual naquele tempo. As referências a atos homossexuais na Bíblia não são sobre o que hoje compreendemos como relacionamentos comprometidos entre pessoas do mesmo sexo", disse Harry Knox, diretor do Programa de Religião e Fé para a Campanha de Direitos Humanos, uma organização GLS.
Mas cada vez mais igrejas deixam o preconceito e aceitam gays Deborah Weinberg

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