Republicanos esperam superar má fase em 2006

Margaret Talev
McClatchy News Service
Em Washington

Para os republicanos que controlam o Congresso, este pode ser o momento para uma reflexão.

Ao final de um ano no qual tantas forças externas prejudicaram a agenda deles --a guerra no Iraque, o furacão Katrina, a abertura de duas vagas na Suprema Corte--, os líderes do partido se deparam agora com o desafio de como lidar com os problemas surgidos dentro das suas próprias fileiras.

Os parlamentares republicanos apostaram a sua liderança em várias eleições recentes, enquanto avaliavam as perspectivas para as eleições de 2006, a indiferença do eleitorado para com o presidente Bush e o acusado ex-líder da maioria Tom DeLay, e uma liderança na Câmara que eles acreditam que conta com menor capacidade de controle e poder de comando do que quando DeLay estava à sua frente.

Segundo os analistas políticos, os democratas, embora permaneçam firmemente na condição de minoria, saíram fortalecidos, e os republicanos podem sentir que têm um pouco menos a perder quando dizem "não" aos seus líderes.

"Tudo isso está ocorrendo simultaneamente", diz Charlie Cook, que analisa as campanhas parlamentares, aos governos dos Estados e à presidência no seu apartidário instituto de pesquisas Cook Political Report.

"Durante um primeiro mandato, há um grande desejo de resguardar as posições alcançadas. Mas, em um segundo mandato, os parlamentares tendem a pensar da seguinte forma: 'O nome do presidente jamais aparecerá novamente em uma cédula eleitoral, mas o meu nome estará lá'. É a idéia do cada um por si. É preciso salvar a própria pele. Em tal circunstância os indivíduos demonstram uma tendência maior a romper com a hierarquia partidária".

É com essa realidade que se confrontarão os líderes parlamentares no mês que vem, quando retornarem de um longo recesso de Dia de Ação de Graças, a fim de se debruçarem sobre questões orçamentárias ainda pendentes. A conjuntura poderá se inflamar novamente no início do ano que vem, caso DeLay, que foi acusado de participar de um suposto esquema de financiamento de campanhas, continuar alijado do poder e o líder interino, Whip Roy Blunt, de Missouri, for desafiado na eleição pela liderança.

No decorrer do ano que vem, quando todos os membros da Câmara e um terço do Senado estarão preocupados com a reeleição, o cenário político poderá se acirrar, na forma de mais respostas dos dois partidos à guerra e a uma ampla gama de debates políticos sobre a imigração, a reforma fiscal e a pesquisa com células-tronco.

E isso é algo que já está em andamento.

Antes de os parlamentares entrarem em recesso para o Dia de Ação de Graças, os deputados republicanos votaram de forma decisiva pela rejeição do compromisso assumido pelo negociador do próprio partido com o Senado no sentido de aprovar um projeto de lei que destinaria US$ 142,5 bilhões para o trabalho, a saúde e a educação.

Os líderes da Câmara buscaram uma conciliação quanto à questão orçamentária, aprovando cortes de US$ 49,5 bilhões. Mas a aprovação foi obtida por uma margem mínima, de apenas dois votos, bem depois da meia-noite, e só após os parlamentares que têm uma postura conservadora com relação à questão fiscal terem concordado em reduzir os programas de impacto, tais como o de tíquetes-alimentação e os subsídios para aquecimento doméstico. Os cortes podem ser aplicados sobre estes programas no ano que vem, como forma de pressão contra os deputados dos distritos moderados. Os líderes também terão que recuar quanto a uma decisão relativa à exploração de petróleo no Refúgio Nacional da Vida Selvagem Ártica no Alasca, e esperar que o assunto volte à pauta mais tarde.

Enquanto isso, senadores republicanos, usando um projeto de lei para gastos de US$ 491 bilhões com o setor de defesa, se aliaram à minoria democrata a fim de utilizarem o seu poder de controle do orçamento para controlar a Casa Branca no que se refere à guerra no Iraque. Neste mês os senadores aprovaram por 79 votos a 19 a proposta para o ano que vem que pede um "período de transição significativa" no Iraque, e o pedido de mais relatórios sobre a situação da guerra.

Os republicanos não apoiaram a proposta que pede a retirada das tropas, conforme desejavam certos democratas, e os críticos disseram que há pouca substância naquilo que eles aprovaram. Mas os democratas interpretaram o voto como sendo um reconhecimento a mais de que a guerra se tornou um problema político para o Partido Republicano.

Em outubro, o senado aprovou por 90 votos a 9 uma emenda do senador John McCain, republicano do Arizona, que proíbe certas técnicas de interrogatório que são consideradas cruéis ou degradantes. O presidente ameaçou vetar tal proposta, caso a Câmara a aprove.

O senador John Sununu, republicano de New Hampshire, disse que os votos que parecem ser uma repreensão aos líderes republicanos são com freqüência os mais complicados.

"Todos apontarão para a votação da emenda McCain", disse ele. "Não creio que aquilo tenha muita coisa a ver especificamente com o presidente, ou sequer com os rumos da guerra. No máximo, pode ter relação com as preocupações surgidas com o que aconteceu na prisão Abu Ghraib, e com a incerteza generalizada quanto ao tratamento ministrado aos prisioneiros de Guantánamo".

Alguns republicanos desejam demonstrar aos eleitores preocupados com a guerra como fazer com que os Estados Unidos se tornem mais independentes dos acontecimentos do Oriente Médio. Na semana anterior ao recesso, quatro republicanos, incluindo o senador por Minnesota, Norm Coleman, se uniram aos democratas ao anunciar um projeto de lei para a redução da dependência norte-americana do petróleo estrangeiro, com a produção de automóveis que consomem menos combustível.

Ao mesmo tempo, uma mistura bipartidária de senadores conservadores, moderados e liberais adiou uma votação no sentido de ampliar o prazo de validade da Lei Patriota, a legislação antiterrorista aprovada logo após os ataques de 11 de setembro de 2001, que confere ao governo amplos poderes de vigilância sobre os indivíduos.

Membros do Partido Republicano temem que as prorrogações da legislação antiterrorista sejam muito longas, e que o governo possa contar com muito poder incontestável para espionar norte-americanos que não representam nenhuma ameaça terrorista. Vários deputados republicanos também criticam a medida, mas um trancamento da pauta de votações, algo que alguns críticos republicanos ameaçam fazer, só poderia ser aplicado no Senado.

Vários deles disseram que não encaram as desavenças em torno da Lei Patriota como um exemplo de como os republicanos se aproveitam de uma liderança fraca, já que manifestaram as suas preocupações quando essa liderança era forte.

"A queda de popularidade do presidente e aquilo que está acontecendo com DeLay não têm nada a ver com a minha posição a respeito da Lei Patriota", garantiu a senadora Lisa Murkowski, republicana pelo Alasca, que só concorrerá à reeleição em 2010. "Estamos vendo gente bastante conservadora, como membros da Associação Nacional do Rifle, de braços dados com integrantes da liberal União Americana de Liberdades Civis. Como norte-americanos, temos certas expectativas quanto aos nossos direitos à privacidade".

Determinar quem está tentando obter a liderança nesse contexto de conveniência versus convicção é algo que, até certo ponto, depende dos olhos do observador.

O deputado Dana Rohrabacher, republicano da Califórnia, e também crítico da extensão do prazo de validade da Lei Patriota, disse que, no que diz respeito a essa questão, ele só está fazendo frente àqueles membros da casa "que idolatram os promotores e a polícia, e que não defendem um governo pequeno", e que se aproveitaram de líderes preocupados com o terrorismo e com a reação popular.

"A atual liderança tem medo de agir para contê-los", disse Rohrabacher. "Penso que a liderança de DeLay era muito mais enérgica com relação a algumas forças mais abusivas que vivem dentro do nosso partido".

Quando se trata dos colegas republicanos que resistem à aplicação de políticas fiscais conservadoras, com as quais Rohrabacher concorda, ele demonstra menos propensão a acreditar que esses indivíduos agem por convicção.

"Há uma pequena minoria de republicanos na Câmara que apoiaria totalmente tais medidas caso achassem que os ventos políticos estivessem soprando em uma direção favorável", disse ele. "Eles mantém os dedos erguidos, sentindo esses ventos, e chegaram á conclusão de que aquilo que estamos fazendo no momento não é politicamente vantajoso".

Rohrabacher se disse otimista com relação à possibilidade de que os republicanos se recuperem no ano que vem, caso a situação melhore no Iraque.

"Há momentos em que estamos no nosso apogeu, quando todas as nossas ações resultam em sucesso. Mas há outros períodos em que estamos no fundo do vale, e tudo o que fazemos parece sair errado", conclui Rohrabacher. Bancada na Câmara e Senado tenta se afastar da "doutrina Bush" Danilo Fonseca

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