Eleições de quinta-feira podem determinar o destino do Iraque

James Rosen, em Washington
do McClatchy News Service

Segundo o ponto de vista do presidente Bush e dos seus principais assessores, as eleições parlamentares desta semana (15 de dezembro) para a escolha de um governo iraquiano permanente se constituem em mais um marco na marcha inexorável do problemático Iraque para se transformar em um farol da democracia e autodeterminação no Oriente Médio.

Para muitos analistas, incluindo alguns que apóiam a liderança de Bush em relação à guerra, as eleições da próxima quinta-feira são significantes, porém carregadas de incertezas quanto à direção seguida pelo Iraque e o destino final a ser alcançado pelo país.

"A boa nova é que tem gente que deseja votar e participar do processo", afirma Yonah Alexander, diretor de estudos sobre terrorismo do Instituto Potomac, na região metropolitana de Washington D.C. "A má notícia é que a democracia é incapaz de florescer quando se tem um quadro marcado pela instabilidade e pela ausência de segurança".

Quando milhões de iraquianos se dirigirem às urnas, eles escolherão uma Assembléia Nacional que terá um mandato de quatro anos, e que substituirá a legislatura temporária eleita em janeiro deste ano. O novo parlamento, no decorrer de um período que promete ser de meses de negociações duras entre representantes de xiitas, curdos, sunitas e outras facções, estabelecerá, a seguir, um governo. É quase certo que ele também venha a emendar a constituição adotada em um referendo em outubro.

O fato mais promissor para Bush é a campanha ativa pela participação eleitoral que tem sido feita por muçulmanos sunitas do Iraque, um grupo que boicotou as eleições de janeiro. Os sunitas compõem menos de um quinto dos 15 milhões de eleitores iraquianos, mas eles detiveram o poder durante décadas, sob o regime do ditador Saddam Hussein, que é sunita, e membros radicais dessa facção religiosa estão alimentando a violenta insurgência que resiste à ocupação norte-americana.

Os muçulmanos xiitas, que são a metade da população iraquiana, e os curdos, que são um quinto, esperam consolidar os ganhos políticos que obtiveram desde março de 2003, quando os Estados Unidos invadiram o país e derrubaram Saddam Hussein. Alguns sunitas proeminentes, que acabaram se arrependendo do boicote que fizeram em janeiro, acreditam que, à época, acabaram cedendo poder demais aos xiitas e aos curdos.

"Ao ajudarmos os iraquianos a construírem a sua democracia, ganharemos um aliado na guerra contra o terrorismo", disse o presidente Bush na última quarta-feira. "Ao os ajudarmos a construir essa democracia, nós inspiraremos os reformistas em Damasco e Teerã. E, ao os ajudarmos a construir a democracia, faremos com que o povo norte-americano fique mais seguro".

Em janeiro passado, oito milhões de pessoas votaram na primeira eleição pós-Saddam. Dois meses atrás, dez milhões de iraquianos votaram em um referendo constitucional. Graças à crescente campanha sunita, Bush e seus assessores estão otimistas quanto à possibilidade de o número de comparecimento às urnas ser ainda maior desta vez.

O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse que 7.000 candidatos, representando mais de 300 partidos políticos, estão tentando ingressar na Assembléia Nacional, que possui 275 cadeiras. Os eleitores depositarão os seus votos em urnas localizada em 6.000 centros de votação protegidos por forças de segurança iraquianas e tropas dos Estados Unidos.

"O importante é que o processo democrático continua seguindo em frente", disse McClellan a jornalistas na última quinta-feira. "O povo iraquiano demonstrou por várias vezes que desafiará os terroristas e aqueles indivíduos leais a Saddam que desejam retornar ao passado... O povo iraquiano deseja viver em liberdade".

"O objetivo final é a criação de um governo inclusivo e representativo, que defenda os direitos de todos", afirmou McClellan.

Mas atingir esse objetivo está se revelando uma tarefa muito difícil.

Assim como ataques violentos precederam as eleições realizadas no início deste ano, o aumento de ações da resistência tem atrapalhado a atual campanha. Funcionários eleitorais e até mesmo alguns candidatos têm sido agredidos, seqüestrados ou mortos. Nas três últimas semanas, mais de 300 iraquianos, a maioria deles civil, morreram vitimados por atentados suicidas a bomba, outros tipos de explosão ou tiros.

Manifestando uma "séria preocupação" com a recente onda de violência, o enviado da ONU, Ashraf Qazi, solicitou aos líderes políticos e religiosos iraquianos que pedissem aos seus seguidores que se abstivessem de agir violentamente. Alegando ter preocupações quanto à segurança, a União Européia se recusou a enviar monitores para acompanharem as eleições.

No último domingo, o país entrou em um verdadeiro estado de segurança máxima. Novos postos policiais de identificação foram construídos, e o tráfego de veículos foi proibido em determinadas áreas, na tentativa de se evitar as ações com carros-bomba durante os últimas fases da campanha e o dia das eleições.

Durante os vários meses que antecederam as eleições, o número de tropas dos Estados Unidos no Iraque foi aumentado para 160 mil, em uma iniciativa para reforçar a segurança. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, disse na última sexta-feira que esse número poderia ser reduzido para até 135 mil após a votação.

"Após as eleições, um novo governo será formado. Então, nós avaliaremos a situação e determinaremos qual será o futuro número de tropas norte-americanas no Iraque", afirmou Rumsfeld.

Amatzia Baram, historiador da Universidade de Haifa e especializado em Oriente Médio, disse que a situação da segurança no Iraque é complexa e heterogênea. Segundo ele, Bush está certo ao se referir à crescente estabilidade em ex-redutos da insurgência, como Najaf, Mosul e Fallujah. Mas ele frisou que várias partes de Bagdá continuam perigosas. A violência semeia o caos ao sul da capital, ao longo do Rio Eufrates, advertiu Baram, assim como em partes do "triângulo sunita", na zona central do Iraque.

De acordo com Baram, embora os ataques politicamente motivados da insurgência monopolizem as manchetes, milícias de bandidos de rua e gangues de criminosos comuns seriam responsáveis pela maior parte do caos. Algumas pessoas, por exemplo, roubam fios de cobre e peças de usinas de geração de energia elétrica para vender o material a receptadores.

"Existem alguns fatos positivos, mas se os compararmos ao grau de violência e de criminalidade que impede um real progresso econômico, a situação é extremamente preocupante", diz ele.

Jon Alterman, um ex-funcionário do Departamento de Estado que atualmente chefia o Departamento de Estudos sobre o Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, disse que as eleições são apenas uma batalha violenta disfarçada para a obtenção de poder e recursos.

"Dois anos e meio após a queda de Saddam Hussein, essas eleições não dizem respeito a idéias ou a diferentes abordagens quanto a formas de governar", disse ele. "Elas determinarão que grupos inserirão seus representantes no salão no qual o poder será distribuído, de forma que consigam a maior fatia possível da torta".

Segundo Alterman, os curdos e os xiitas já fizeram um acordo implícito sobre a divisão do Iraque, segundo o qual os curdos manterão um governo basicamente secular e regional no norte, e os xiitas estabelecerão uma administração religiosa no sul. Segundo a atual constituição, ambas as regiões contarão com um maior grau de autonomia, possuindo as suas próprias forças de segurança e consulados no exterior.

A Aliança Xiita, uma coalizão de partidos religiosos, obteve 51% dos votos nas eleições de janeiro, e acredita-se que terá novamente um bom desempenho na quinta-feira. Alguns partidos membros desta aliança possuem estreitos vínculos com o vizinho Irã e com os aiatolás que controlam aquele país. O farsi, a principal língua do Irã, é falado em regiões do sul do Iraque, e a moeda iraniana é utilizada juntamente com o dinheiro iraquiano.

O norte curdo e o sul xiita controlam quase todas as reservas de petróleo iraquianas e a produção de energia do país. Encaixados entre esses dois grupos estão os sunitas, que detiveram o poder durante o regime de Saddam Hussein, mas que agora se deparam com um futuro incerto, em uma região empobrecida e que possui uma quantidade muito menor de recursos.

"Os sunitas estiveram em posições de comando no Iraque durante a maior parte do século passado", explica Alterman. "Eles acreditam que o Iraque é um país construído por eles a partir do zero, e sentem que estão roubando deles este país".

De acordo com Alterman, ainda mais importante que as eleições de quinta-feira será a intensa barganha por cargos governamentais e emendas constitucionais que ocorrerá por trás de portas fechadas durante as semanas e meses que se seguirão. Uma questão-chave será a parcela de poder concreto que os sunitas receberão.

"Estamos presenciando muitas declarações públicas, mas a maior parte do que vai acontecer será decidido em salas fechadas saturadas de fumaça de cigarros", afirma Alterman. "Não sei o que acontecerá nessas salas. Creio que os sunitas entrarão nelas esperando obter muita coisa, e que os xiitas e os curdos poderão dizer que chegou a hora da vingança. Mas não sou capaz de afirmar como essas conversações irão se desenrolar".

Baram, o historiador israelense, disse que não são os sunitas que enfrentarão o mais duro desafio nas eleições e no período posterior às votações, mas sim os xiitas e os curdos. Segundo ele, os seus líderes políticos precisarão decidir se partirão para a vingança contra os sunitas, devido ao regime de ferro que estes exerceram durante o governo de Saddam Hussein, ou se farão concessões quanto à distribuição da renda proveniente do petróleo, se compartilharão outros recursos e se dividirão o poder.

"Será necessária muita coragem por parte dos xiitas e dos curdos", explicou Baram. "Eles precisarão assumir grandes riscos. O desafio será pensar como iraquianos, e não como curdos ou xiitas. Será que eles são capazes de fazer isso? Não creio que alguém tenha uma resposta para esta questão. Mas, caso se mostrem incapazes de proceder de tal forma, e se os sunitas passarem por um empobrecimento e se virem excluídos dos recursos e do poder, neste caso, por que eles parariam de lutar? Eles simplesmente continuarão praticando mais e mais atos de terrorismo". Danilo Fonseca

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