Político em ascensão nos EUA, senador Barack Obama conquista adeptos na Flórida

Wes Allison
St. Petersburg Times
Em Washington

No ano passado, Barack Obama apresentou-se aos EUA como o "rapaz magrelo com o nome engraçado". Ele eletrizou a Convenção Nacional Democrata em Boston e venceu as eleições para o Senado pelo Estado de Illinois com grande número de votos, tornando-se o terceiro senador negro desde a Reconstrução [período da história dos EUA posterior à Guerra Civil, ocorrida entre 1861 e 1865].

Então, ele passou a trabalhar silenciosamente no Capitólio e, para muitos americanos, praticamente desapareceu.

Obama, de Illinois, discursou aos democratas da Flórida no sábado (10/12) à noite em Orlando. Ele passou a maior parte de seu primeiro ano como senador fazendo heroicamente o papel de calouro --aprendendo o serviço, cuidando de algumas questões específicas e cultivando amizades neste mais exclusivo dos clubes.

Mas em outra esfera, na qual os democratas planejam e levantam dinheiro para derrubar, no próximo ano, a maioria republicana no Congresso, Obama continua sendo a estrela mais brilhante. Ele é atração popular nos eventos para angariar fundos e o tipo de pessoa que dá esperança aos democratas quando olham para o futuro.

"No âmbito político, ele está em toda parte. É o congressista democrata mais requisitado que eu já vi", disse Jennifer Duffy, editora do Relatório Político Cook, que acompanha o Senado há 18 anos.

É raro encontrar um calouro no Capitólio que seja grande atração para outros políticos. Antes das eleições do último mês, Obama passou um final de semana em campanha com Tim Kaine e outro com o senador Jon Corzine, candidatos democratas para governador da Virgínia e Nova Jersey, respectivamente. Ambos venceram.

Em setembro, Barack fez o discurso principal de um almoço na Filadélfia para Bob Casey, democrata que está desafiando o senador republicano Rick Santorum. A soma arrecadada para a campanha de Casey, US$ 500.000 (em torno de R$ 1,1 bilhão), foi enorme para esse tipo de evento.

Enquanto isso, Obama lançou seu próprio comitê de ação política, o Hope Fund PAC, montando uma rede de levantamento de fundos de Nova York até Hollywood.

O PAC já arrecadou mais de US$ 850.000 (aproximadamente R$ 1,8 milhão) para as eleições de 2006, e Obama doou generosamente para a reeleição de seus pares e para democratas que competiam por vagas ocupadas por republicanos.

Isso incluiu US$ 4.200 (aproximadamente R$ 9.200) para o senador Bill Nelson, democrata da Flórida que provavelmente vai enfrentar Katherine Harris, deputada republicana de Sarasota em novembro, e US$ 2.100 (em torno de R$ 4.600) para o senador estadual Les Miller, democrata de Tampa, que está concorrendo ao Congresso.

Em julho, Obama reuniu-se com Nelson em um comício em Eatonville, perto de Orlando, a primeira cidade negra da nação. O evento atraiu 1.000 pessoas à Igreja Batista Missionária Macedônia.

"Ele é um astro de rock em termos de carisma. As pessoas se interessam muito por este sujeito, pois isso fez tamanho sucesso (em Boston, durante a Convenção Democrata de 2004) e continua requisitado. As pessoas vêem que tem muita substância", disse Nelson, que convidou Obama a falar em Orlando no sábado.

Obama, 44, é alto, magro e cativante, com um sorriso fácil, um aperto de mão afável e, como a maior parte dos políticos, um dom para lembrar o nome das pessoas. Pergunte às funcionárias do Capitólio, e vai ouvir palavras como "amável".

Ele leva grande vantagem por ser um orador carismático em um partido faminto por estrelas --especialmente do tipo que agrade eleitores indecisos, como ele fez em Illinois.

Ele é social-liberal, defensor da igualdade de oportunidade e da ajuda aos pobres. É também religioso, fala sobre o papel da fé em sua vida e acredita que o Partido Democrata pode fazer mais para atingir os eleitores que normalmente não votariam no partido, dizem os analistas.

Como senador, ele se concentra em questões de pouca fricção ideológica --melhorar a eficiência energética, preparar o país para um surto de gripe das aves, expandir bolsas para universitários, pagar por alimentos e telefonemas de soldados que se recuperam de ferimentos no Iraque e no Afeganistão.

Trajetória

Ele também tem uma história pessoal cativante. Sua biografia de 1995, "Dreams From My Father", tornou-se sucesso de vendas quando foi reeditada no ano passado.

Obama é filho de um imigrante queniano negro e uma branca que se conheceram no Havaí. Quando ele tinha dois anos de idade, seu pai, Barack Obama, foi para Harvard e voltou para o Quênia, onde se tornou político. Ele morreu em um acidente de automóvel em 1982. Obama lembra-se de tê-lo visto uma vez, aos 10 anos, segundo o Almanac of American Politics.

Obama graduou-se em ciências políticas na Universidade de Columbia, em Nova York, depois foi trabalhar como organizador comunitário em uma igreja em Chicago. Poucos anos mais tarde, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Harvard, onde conheceu sua mulher e tornou-se o primeiro editor negro da Harvard Law Review.

Obama voltou para Chicago para ensinar direito e se tornou ativo na política. Em 1996 concorreu a uma vaga ao Senado estadual, representando o Lado Sul de Chicago, distrito altamente democrata. Ele não teve concorrentes nas primárias, o que garantiu sua eleição.

Peter Fitzgerald, senador republicano do Estado, decidiu não concorrer à reeleição em 2004. Obama então venceu a nomeação democrata. Seu oponente republicano, Jack Ryan, deixou a campanha depois de um escândalo sexual.

Com pouco tempo para montar uma verdadeira campanha contra Obama, os republicanos de Illinois concorreram com Alan Keyes, jornalista negro conservador. Obama trucidou-o.

Graças a seu desempenho na convenção democrata em Boston, assim como a atenção nacional que a queda de Ryan trouxe à disputa, Obama já era uma estrela quando entrou para o Senado, em janeiro.

Uma vez ali, entretanto, ele adotou o que Duffy chama de "estratégia Hillary", a ex-primeira dama que se tornou senadora democrata de Nova York: apesar do barulho em torno de sua eleição, passou os primeiros anos no cargo evitando a mídia, concentrando-se em questões locais e deferindo para membros mais antigos.

Obama costuma transferir as atenções para Richard Durbin, democrata e senador mais antigo de Illinois. Assessores dizem que ele fez mais de 40 comícios no Estado.

Muito além de questões afro-americanas

Entre os políticos negros do governo, apenas a secretária de Estado Condoleezza Rice tem a mesma estatura política. Ele é o único senador afro-americano e tratou de algumas questões valorizadas por líderes negros, como envenenamento por chumbo e a oposição ao requerimento da Geórgia que exige que eleitores mostrem identificação com foto.

Mas ele evitou cuidadosamente ser visto como um senador exclusivo de afro-americanos.

Dianne Pinderhughes, professora de ciências políticas e de estudos afro-americanos da Universidade de Illinois, disse que muitos ativistas negros gostariam que fizesse mais por suas causas.

Em vez disso, ele procurou um equilíbrio entre agradar seus maiores patrocinadores das seções afro-americanas de Chicago, mas também a outros em Illinois podem ter votado nele mas que têm outras preocupações.

Essa é uma estratégia que deve lhe servir bem no longo prazo, disse Pinderhughes.

"Se ele quisesse, poderia ser manchete todos os dias. Mas preferiu uma posição mais discreta", disse ela. "Ele não está tentando furar a fila em termos de publicidade e escolher o púlpito provocador, que ele certamente tem, para levantar questões de afro-americanos."

Desde que o furacão Katrina atingiu a Costa do Golfo, no final de agosto, Obama lentamente vem falando mais alto em questões nacionais. Os ex-presidentes George H.W. Bush e Bill Clinton convidaram-no a ajudar a levantar fundos para o alívio humanitário. Obama também criticou o governo Bush pela forma que lidou com o desastre. Ele compareceu em seu primeiro noticiário de domingo de manhã como senador, "This Week with George Stephanopoulos", onde disse que o Katrina tinha realçado desigualdades de raça e classe.

"O que acho é que os responsáveis pelo planejamento estavam tão alheios à realidade da vida na cidade... que não podiam conceber a noção de que alguém não teria como carregar sua SUV, colocar US$ 100 (em torno de R$ 220) de gasolina, comprar água mineral, viajar até um hotel e pagar com cartão de crédito", disse Obama.

No mês passado, ele fez um importante discurso no Conselho de Relações Exteriores em Chicago em que criticou o presidente Bush por não ter conseguido articular uma estratégia para completar a missão no Iraque. Obama também pediu ao governo que lançasse uma ofensiva diplomática para recrutar mais aliados para garantir a paz.

O jornal "Chicago Tribune" informou no mês passado que ele recentemente conquistou a confiança --e um cheque para o Hope Fund-- do super-investidor Warren Buffett. Aparentemente, ele tem esse efeito em vários luminares. Outros grandes contribuintes de seu fundo incluem Steven Spielberg, David Geffen e Jeffrey Katzenberg, da Dreamworks. E depois tem os Kennedy. Ethel Kennedy, mulher do falecido procurador-geral Robert F. Kennedy, convidou Obama para fazer o discurso da cerimônia no que teria sido o 80º aniversário de seu marido, no mês passado.

Ele também foi o principal orador da conferência anual do Partido Democrata da Flórida em Disney World. Membros do partido contaram com Obama para animar os fiéis para a temporada política que se aproxima. Nelson disse que insistiu tanto que Obama cancelou planos em Chicago para poder participar.

Com apenas um político de peso no Estado --Nelson-- os democratas da Flórida estão precisando de todo o poder que as estrelas tiverem. Principal político negro democrata já é uma estrela do partido Deborah Weinberg

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