Spielberg examina a política da vingança em "Munique"

Lisa Kennedy
The Denver Post

"Munique", de Steven Spielberg, começa numa época aparentemente mais ingênua, uma época em que um grupo de jovens atletas -- americanos pelo volume de suas brincadeiras -- poderia ajudar oito colegas a saltar uma cerca na Vila Olímpica em Munique, Alemanha. Pelo menos era quem eles pensavam estar ajudando.

O ano é 1972. Naquele verão, Mark Spitz e Olga Korbut nos maravilharam nas Olimpíadas. Mas algo mais desolador marcou aqueles jogos em nossa memória.

Na noite de 5 de setembro de 1972, oito palestinos que se autodenominavam Setembro Negro tomaram como reféns 11 israelenses. Dois foram assassinados no início do atentado, os outros nove foram mortos no aeroporto, 23 horas depois.

Em "Munique", as primeiras cenas dos terroristas invadindo o dormitório dos atletas são viscerais, caóticas, assustadoras. Uma cinematografia musculosa aplicada a um fato terrível. E, ambientado no início dos anos 70, "Munique" reflete a estética dos filmes daquela época com sua granulação e sua intimidade intencionais.

É o tipo de cinema que nos habituamos a receber de Spielberg -- confiante, magistral. E coloca uma pergunta: O que acontece quando o diretor mais importante de sua geração aborda um dos temas mais prementes de nosso tempo -- o terrorismo e a reação violenta de um governo?

A resposta impressiona. Spielberg é muito talentoso ao produzir momentos lúcidos, cheios de emoção contagiante. Mas para alguns "Munique" ficará aquém da grandeza prometida por um projeto que ecoa poderosamente nossos dilemas morais sobre atos de terror e atos de vingança.

Sempre que os cineastas enfrentam um tema digno de seu talento, é difícil não ficar estimulado. Quando esse artista é Spielberg, a carga de expectativas é geralmente acompanhada de perturbação.

Lembre seus prestigiosos trabalhos "A Cor Púrpura" (a vida de mulheres negras), "Amistad" (escravidão), "O Resgate do Soldado Ryan" (o dia D e a geração mais valente). São ambiciosos, mas desiguais.

No entanto, em sua verdadeira obra-prima, "A Lista de Schindler", abordou o holocausto com refinamento e esperança. Seu outro "tour de force", "Tubarão", nos pregou nas poltronas na era dos arrasa-quarteirões.
Dos pares de Spielberg, Martin Scorsese é o único diretor que demonstrou o mesmo poder de permanência e a mesma extensão da ambição narrativa. Mas ele escolheu histórias muito diferentes para contar. Mesmo seu épico "A Última Tentação de Cristo" não pretendeu tornar Jesus maior que a vida. Lembrou às platéias sua humanidade e sua vulnerabilidade.

Ao contrário do título, "Munique" não é realmente sobre os atentados de 5 de setembro de 1972. Baseado no livro "Vingança: a Verdadeira História de uma Equipe Contra-Terrorista Israelense", de George Jonas, ele acompanha os cinco membros de um esquadrão secreto de assassinato enquanto caçam os árabes que lhes foram indicados como responsáveis por planejar a chacina de Munique.

Eric Bana faz Avner Kauffman, um agente do Mossad (serviço secreto israelense) que lidera o grupo. Alguns manifestaram preocupação de que "Munique" fosse demasiadamente pró-Israel; outros críticos se perguntaram se Kauffman e sua equipe ficariam moralmente atormentados por sua missão. Por que enfocar judeus em conflito moral, se os terroristas não sentiram qualquer perturbação?

Spielberg disse que a oportunidade de dirigir "Munique" surgiu alguns anos antes dos atentados de 11 de Setembro. Mas claramente o diretor se aproximou aos poucos, em seus últimos filmes, da sombra projetada pelo 11/9. Os resultados são mistos.

Em "O Terminal", de 2004, Spielberg colocou o europeu oriental Viktor Navorsky (Tom Hanks) no limbo em um aeroporto de Nova York. Preso, graças à Segurança Nacional, entre sua terra destroçada pela guerra e um misterioso destino no Harlem, Viktor transforma o frio espaço do aeroporto em um lugar de relações humanas. A quase história de amor de Viktor com a aeromoça de Catherine Zeta-Jones é secundária. É a comunidade multiétnica de trabalhadores que sugere o desejo de Spielberg de mostrar o convívio de uma comunidade internacional.

Neste verão, o diretor revisitou "A Guerra dos Mundos" de H.G. Wells. Ele e o roteirista David Keep seguiram de perto a história de ficção-científica de Wells, inclusive como os alienígenas encontram sua morte microbiana.

Mas o diretor também emprestou imagens de nova-iorquinos fugindo da região sul de Manhattan depois que as Torres Gêmeas caíram. Outras imagens do 11/9 incluem muros forrados de fotos e súplicas sobre os desaparecidos.

"O filme é em parte sobre a experiência de refugiados americanos. É sobre americanos fugindo para salvar suas vidas, sobre ser atacado e não ter idéia de quem e por que os está atacando", disse Spielberg em uma entrevista em junho. "É claro que as imagens que mais se destacam em minha mente são as de todo o pessoal de Manhattan atravessando a ponte George Washington à sombra do 11/9. É uma imagem escorchante que não consegui tirar da cabeça."

O Kauffman de "Munique" também tem imagens que não consegue apagar. Quando o filme revisita o caos dos atentados terroristas, não é como "flashback", mas como os pesadelos e devaneios de Kauffman.

"A Guerra dos Mundos" nos deixou um problema insistente. O filme torna-se menos vital na medida em que o destino de Ray Farrier (Tom Cruise) e família torna-se sua única preocupação. É verdade que essa foi a intenção alegórica do cineasta: mostrar um homem comum fazendo tudo o que pode para salvar sua família. Mas não tornou o filme emocionalmente maior. O encolheu.

A salvação da família Farrier talvez faça honra ao material original (e forneça uma evidência dos reflexos de final-feliz de Spielberg, muitas vezes criticados). Mas desonra as platéias que aprenderam com o 11/9 -- e com a guerra no Iraque -- que seres amados morrem. Se Spielberg tivesse matado pelo menos um membro da família Farrier, "A Guerra dos Mundos" teria sido um filme melhor. De sangue frio, mas verdadeiro.

Alguns dos melhores filmes deste ano sugerem que as histórias mais poderosas e retumbantes não são mais propriedade de um único herói. Veja "Crash - No Limite" e "Syriana", em que o peso do drama é carregado por diversos protagonistas entre uma comunidade de personagens. Até "Harry Potter e o Cálice de Fogo" oferece muito mais que seu jovem mágico.

O fato de Spielberg ter escolhido o dramaturgo Tony Kushner para trabalhar com ele em "Munique" era promissor. Afinal, o premiado "Anjos da América" de Kushner fez sucesso por causa de uma surpreendente gama de personagens.

Mas uma narrativa fraturada nunca foi o estilo de Spielberg. É verdade que seu maior filme chega perto disso, ampliando a presença de Oskar Schindler com a de Itzhak Stern (Ben Kingsley), a do nazista Amon Goeth (Ralph Fiennes) e um forte elenco de personagens com os quais nos sentimos conectados.

"Munique" coloca um ponto de exclamação num ano em que os filmes se recusaram a afastar o peso do "agora" ("Syriana"), mesmo quando usam o disfarce de "naquela época" ("Boa Noite e Boa Sorte").

Nenhum dos pares de Spielberg em longevidade e talento -- Scorsese, George Lucas ou Francis Ford Coppola -- chegaram tão longe quanto ele a ponto de ser relevantes para a história mundial. Quando nos indagamos e discutimos sobre a grandeza de Spielberg, é porque ele não apenas investe contra as barreiras cinematográficas, ele adora se envolver nas grandes questões.

"Munique" passará dos muito bons aos ótimos? A pergunta que estamos fazendo mais uma vez é o que torna Spielberg um artista tão incômodo, mas estimulante.

UM MESTRE DOS GRANDES MOMENTOS

Já tornou-se comum dizer que Spielberg é um diretor de momentos surpreendentes, mas não de filmes espetaculares. É o tipo de comentário que prova a facilidade com que os artistas podem ser condenados por seus sucessos.

Aqui estão alguns momentos de cinco de seus melhores filmes:

"A Lista de Schindler" (1993): A cena em que Oskar Schindler manipula psicologicamente o sádico nazista Amon Goeth a ter um breve momento de compaixão é de uma grandeza shakespeariana.

"Tubarão" (1975): Depois do terrível safanão do enorme tubarão em sua primeira vítima, a melhor cena é a camaradagem ébria a bordo do Orca. "Mostre-me o caminho de casa", realmente.

"Encontros Imediatos do Terceiro Grau" (1977): É impossível transcrever as notas inesquecíveis que fazem a comunicação com os alienígenas. Mas adoramos Richard Dreyfuss obsessivamente fazendo uma montanha de purê de batatas.

"E., o Extraterrestre" (1982): Esqueça o vôo de bicicleta de Elliott. É quando o personagem Gertie de Drew Barrymore vê pela primeira vez o E.T. e vice-versa.

"The Sugarland Express" (1974): Os jovens pais fugitivos (Goldie Hawn e William Atherton) atraem para si um problema de dimensões texanas quando seqüestram um patrulheiro rodoviário. Em uma casa-reboque, os dois assistem a um desenho animado do "Papa-Léguas". Surge um momento melancólico quando Clovis (Atherton) reconhece que seu destino será muito parecido com o do Coiote.

E alguns grandes momentos em três de seus trabalhos de menor sucesso:
"O Resgate do Soldado Ryan" (1998): Podem me processar, mas o poder desse filme ocorre nas cenas iniciais da invasão à praia de Omaha. Spielberg coreografa brilhantemente a chacina que ocorreu em 6 de junho de 1944. Esse ataque prolongado (à platéia) é tão pródigo que alguns críticos consideraram o filme uma espécie de porno-combate.

"Guerra dos Mundos" (2005): Quando a felicidade de Ray Farrier diante da tempestade que se desencadeia sobre sua casa em Jersey se transforma em pânico, ele desliza para baixo de uma mesa de jantar como um caranguejo assustado. Sua filha já está lá. A visão de um pai apavorado foi a mais perturbadora do filme.

"Parque dos Dinossauros" (1993): Há um motivo pelo qual o "King Kong" de Peter Jackson vira jurássico depois de chegar à ilha da Caveira: Spielberg imprimiu lembranças gigantescas com a primeira visão dos gloriosos dinossauros.

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