Bill Gates investe US$ 84 milhões na produção de etanol

E.J. Schultz
em Fresno, Califórnia
do The Fresno Bee

Quando o homem mais rico do mundo investe na sua companhia, o fato
certamente gera alvoroço. Mas se a sua companhia fizer parte de um setor
politicamente importante, como o da produção de etanol, o alvoroço ocorre em dose dupla.

Portanto, ninguém deve ter ficado surpreso com o fato de a Pacific Ethanol ter obtido a sua dose merecida de atenção nacional após o anúncio, em novembro, de que o rei do software, Bill Gates, estava investindo US$ 84 milhões na nova empresa de Fresno.

A Bloomberg, a Forbes.com e outros órgãos de notícia deram ampla cobertura ao fato, proporcionando uma divulgação de valor inestimável para a incipiente companhia pública. As notícias também atraíram a atenção da "Bellwether Report", uma publicação financeira online que é lida por investidores nos Estados Unidos e na Europa.

"Antes disso, eu não prestava qualquer atenção à Pacific Ethanol", afirma a analista da Bellwether, Feraldine Mebesius, que começou há pouco tempo a acompanhar o desempenho da companhia.

Mas o investimento em si - e não a exposição no curto prazo - provavelmente resultará em um impacto mais duradouro.

A Pacific Ethanol pretende utilizar o dinheiro de Gates para fortalecer a sua iniciativa no sentido de produzir etanol em grande escala na Califórnia.

Os planos da empresa prevêem a construção de cinco usinas - incluindo uma
que está em construção em Madera -, capazes de produzir anualmente pelo
menos 760 milhões de litros de etanol, um aditivo que, segundo os seus
defensores, ajuda a criar combustíveis menos poluentes.

Gates investirá o dinheiro por meio da Cascade Investment LLC, que é o seu veículo para investimentos pessoais. O acordo prevê que a Cascade compre 5,25 milhões de ações preferenciais, que, caso convertidas, darão a empresa de Gates o controle acionário de um quarto da Pacific Ethanol.

A proposta será votada neste sábado, durante a reunião anual de acionistas da Pacific Ethanol, em Fresno.

Caso seja aprovado por reguladores e pelos acionistas, o acordo poderá ser assinado já em janeiro, conferindo à Pacific Ethanol o empurrão do qual a empresa necessita para concretizar os seus planos ambiciosos.

"O etanol se constitui na maior oportunidade de desenvolvimento econômico
que já vimos no Estado desde o boom do setor de alta tecnologia no Vale do Silício", afirma o presidente da Pacific Ethanol, Neil Koehler. "Como
companhia, estamos prontos para liderar essa nova onda".

Em entrevistas à imprensa nesta semana, funcionários da Pacific Ethanol só forneceram alguns poucos detalhes a respeito da forma como a companhia
atraiu a atenção da Cascade. Koehler disse que as duas partes se encontraram por meio de "contatos mútuos".

Koehler atua no setor de produção de etanol desde 1984, quando foi um dos
fundadores de uma pequena usina em Rancho Cucamonga, que transformava
resíduos líquidos de fábricas de bebidas alcoólicas em etanol.

"A Cascade tinha um interesse no etanol, e esse interesse estava em sintonia com o nosso modelo empresarial", explica Koehler.

Bill Jones, um dos fundadores da companhia e ex-secretário de Estado a
Califórnia, observa que a Pacific Ethanol é a única companhia com ações
disponíveis ao público que se dedica exclusivamente à produção de etanol.

"Nenhum membro da Pacific Ethanol esteve pessoalmente com Gates", informa
Jones. Ele observa que a Cascade, com sede em Kirkland, no Estado de
Washington, "já possui vários investimentos em outros negócios". Para Gates, que segundo a revista "Forbes" possui um patrimônio líquido de US$ 46,5 bilhões, o investimento de US$ 84 milhões na Pacific Ethanol pode ser considerado uma ninharia. Mas, para a Pacific Ethanol, trata-se de um grande negócio.

Com o investimento, a companhia se vê em uma posição mais favorável para
conseguir empréstimos que a ajudem a financiar a construção das cinco usinas planejadas, que custarão, cada uma, cerca de US$ 70 milhões.

As obras já estão em andamento em Madera, onde a companhia está convertendo um ex-moinho de grãos em uma usina capaz de produzir anualmente 132 milhões de litros de etanol. "A Pacific Ethanol adquiriu a companhia, que estava em processo falimentar, de uma empresa de produção de grãos que a comprou, mas que nunca a utilizou", conta Koehler.

As outras quatro usinas, incluindo uma em Visalia, deverão entrar em
operação até o final de 2008.

A usina de Madera deverá criar 50 cargos de alta remuneração, além de
empregos vinculados ao empreendimento para motoristas de caminhão,
vendedores e outros profissionais de menor qualificação.

"A criação da usina gerará uma enorme reação em cadeia no que diz respeito à criação de empregos", garante Jones.

A usina de Madera não será a primeira grande usina de produção de etanol da Califórnia.

A Phoenix Bio-Industries recentemente inaugurou uma usina em Goshen. A
Pacific Ethanol tinha planos para a aquisição desta usina, mas recuou em
novembro último, alegando que a instalação não atendia aos seus padrões de desempenho. Uma outra companhia, a Calgren Renewable Fuels LLC, planeja construir usinas de etanol em Hanford e em Pixley.

Atualmente, o meio-oeste dos Estados Unidos é o centro de produção de etanol no país. As companhias produtoras, incluindo a gigante do setor agrícola Archer Daniels Midland, se beneficiam da enorme produção de milho da região, transformando este produto em etanol, que é enviado a todo o país. Os subprodutos da produção de etanol a partir do milho são vendidos como alimento para gado.

A Pacific Ethanol e outros produtores da Califórnia pretendem inverter esse processo.

Em vez de fabricarem o etanol nos locais onde o milho é plantado, e enviar o etanol e os seus subprodutos para localidades distantes, as companhias planejam trazer o milho do meio-oeste para a Califórnia e vender o etanol e os subprodutos para alimentação de gado no mercado local.

Esta é uma idéia sobre a qual Jones, da Pacific Ethanol, começou a se
debruçar há mais de 30 anos, quando trabalhava na fazenda da família,
próxima a Firebaugh. Era o final da década de 1970, e o etanol ganhava
popularidade devido à crise de energia.

"Mas havia vários elementos que não favoreciam a Califórnia naquele momento", disse Jones. "Entre eles, a falta de uma estrutura ferroviária para transportar grandes quantidades de milho".

Em vez de procurar implementar a idéia, Jones ingressou na política. Membro do Partido Republicano, ele atuou durante 12 anos na Assembléia Estadual, e em 1994 foi eleito secretário de Estado da Califórnia, cargo que ocupou até janeiro de 2003.

Com a sua vida política paralisada - no ano passado ele perdeu uma eleição ao Senado para Barbara Boxer -, Jones mais uma vez se voltou para a questão do etanol. E ele acredita que agora é o momento de fabricar este aditivo da gasolina na Califórnia.

"Novas tecnologias ferroviárias permitem que trens de 110 vagões
descarreguem 10 mil toneladas de milho em 15 horas" explica ele. "E a
crescente indústria de laticínios da região oferece um grande mercado para grãos de destilador, um subproduto do etanol que é utilizado para
alimentação bovina".

Sempre um político, Jones também está de olho nos benefícios do etanol na
área das políticas públicas. "Produzindo etanol, a Califórnia pode diminuir a sua dependência em relação ao petróleo estrangeiro, criar empregos e reduzir a poluição atmosférica", garante ele.

O etanol reduz a produção de monóxido de carbono e de outros produtos
químicos tóxicos quando é adicionado em pequenas quantidades à gasolina,
segundo a Administração de Informações sobre Energia dos Estados Unidos.

"Ao se fabricar o etanol, sem dúvida alguma há um impacto sobre todas as
outras questões que se constituem em problemas na Califórnia", diz Jones,
que é o presidente do conselho diretor da Pacific Ethanol.

Mas o etanol também possui os seus críticos. Um dos principais é David
Pimento, professor de ecologia e ciência da Universidade Cornell.

"Se o etanol é assim tão bom, por que estamos gastando US$ 3 bilhões para
subsidiá-lo?", questiona Pimento, que estuda o etanol desde 1980.

O subsídio ocorre na forma de um crédito fiscal de 51 centavos de dólar
obtido pelas companhias petrolíferas por cada galão de etanol misturado à
gasolina.

Esse crédito ajuda a manter o preço do etanol em um patamar competitivo em relação ao da gasolina.

Pimento acredita que o saldo energético do etanol é negativo, o que
significa que os preços dos fertilizantes, gás natural e outras fontes
energéticas utilizadas para plantar o milho e produzir o etanol não
compensariam os benefícios energéticos do produto final.

Ele diz ainda que o etanol não é um substituto viável para a gasolina. "Para que substituíssemos a reserva de combustíveis do país pelo etanol,
precisaríamos plantar milho em cada centímetro quadrado do território dos
Estados Unidos. Isto demonstra o quanto a indústria do etanol está
equivocada ao afirmar que o produto nos salvará e nos tornará independentes do petróleo", critica Pimento.

Os funcionários da Pacific Ethanol rejeitam a maioria dos argumentos de
Pimento, alegando que eles se baseiam em informações anacrônicas, e garantem que a indústria do etanol não pretende substituir totalmente a gasolina. Danilo Fonseca

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