Sem fotos de nudez, revista Playboy entrará no mercado indiano

Anand Giridharadas, em Mumbai, Índia
New York Times News Service

Em um marco que tem passado meio desapercebido no mundo do entretenimento de conteúdo erótico, a Playboy anunciou no mês passado que procurará fazer na Índia aquilo que nunca fez anteriormente: publicar uma revista que trará a sua marca tradicional, exceto pelo nome e pelas cenas de nudez.

"Para nós, isto representa uma grande mudança de rumo", disse aos jornalistas, em dezembro, Christie Hefner, diretora-executiva da Playboy Enterprises.

Um dos motivos desse plano é a estratégia usual relativa aos mercados emergentes. Quando os lucros deixam de aumentar no Ocidente, as companhias se voltam para a Índia e a China. Enquanto os lucros da revista Playboy nos Estados Unidos caíram 1% em 2004, os rendimentos da empresa em outros países aumentaram 13% com 20 edições estrangeiras em nações como o Brasil e a Sérvia.

O interesse das revistas estrangeiras na Índia é compreensível. Enquanto a venda de jornais e revistas se estabiliza no Ocidente, o mercado indiano vive um surto de expansão. O país conta com quase 200 milhões de leitores de revistas, e é o segundo maior mercado de revistas do mundo (o primeiro é a China), com a venda diária de 79 milhões de cópias. O mercado indiano de mídia impressa é de US$ 1,5 bilhão anuais, e continua crescendo.

Mas há uma outra história por trás da descoberta da Índia pela Playboy. A revista costumava ver em si o veículo para uma revolução sexual nos Estados Unidos. Agora, com tal revolução já ganha, e o seu impacto social diminuindo, a Playboy tem uma chance de se renovar como uma revista para um público afluente em um país que cultuava o sexo na antigüidade, mas que depois se tornou pudico, e que agora está passando por uma nova onda de liberação.

"A versão indiana da revista será uma extensão da Playboy focalizada em estilo de vida, cultura pop, celebridade, moda, esportes e entrevistas", disse Hefner. "Mas a revista não será a 'Playboy clássica'. Ela não trará cenas de nudez, e não creio que se chamará Playboy."

Há quem veja na Índia do início do século 21 similaridades com os Estados Unidos da década de 1950. Um país à beira de uma revolução sexual, e que apresenta, no âmbito do comportamento privado, sinais de mudanças que ainda precisam ser publicamente aceitas.

Em meio a um oceano de mudanças comportamentais, um quarto das mulheres solteiras dos centros urbanos pratica sexo, um terço lê literatura erótica e metade sai para paquerar, segundo uma pesquisa realizada pela ACNielsen e pela revista India Today. Bollywood (o centro da indústria cinematográfica indiana), que é um espelho do estado de espírito da Índia, faz agora aquilo que se recusava a fazer cinco anos atrás: mostra beijos nas telas de cinema.

A Índia não está apenas à beira de uma revolução sexual. O país também transborda de ambição, já que uma pequena mas crescente classe composta de homens jovens, urbanos, que viajam pelo mundo e que dispõem de dinheiro para gastar abre caminho rumo a uma nova classe alta. A democratização da afluência está criando o protótipo masculino do "connoisseur", um tipo ansioso por adquirir informações sobre o estilo de vida das classes privilegiadas.

"Mobilidade social ascendente. Afluência razoável. Estamos falando de uma espécie de executivo de nível médio que está em ascensão social. Um homem que provavelmente já dirige o seu carro", explica N. Radhakrishnan, editor de Man's World, uma publicação indiana que será uma concorrente da versão pasteurizada da Playboy.

A edição de dezembro da Man's World é uma janela pela qual é possível vislumbrar o perfil do novo playboy indiano: ligeiramente lascivo, esperto para galgar a pirâmide de classes sociais, adepto do último acessório iPod e apreciador de champanhe "resfriada, mas nunca gelada". Umas poucas fotos de beldades seminuas aparecem na revista, como se para ilustrar o objeto de desejo desse protótipo de playboy.

A Índia ainda precisa ter a sua própria década de 1960, na qual a revolução sexual acompanhou rebeliões de caráter mais amplo. Na cidade de Madras, a polícia recentemente fechou um clube noturno, depois que um jornal da cidade publicou fotos de seus freqüentadores se beijando. Depois disso houve a determinação do tribunal de mais alta instância de Mumbai no sentido de que os filmes que não tivessem qualificação "U" (apropriado para "platéias universais"), não fossem mais exibidos na televisão. Entre os filmes censurados pela medida está "Harry Potter". De forma mais genérica, os conservadores indianos, incluindo os líderes políticos hindus conservadores, afirmam que o país deve resistir à sexualização promovida pelo Ocidente.

A lei indiana proíbe a venda ou a posse de material que seja "lascivo ou que desperte interesses sexuais", e que não possua, como atenuante, méritos artísticos, literários ou religiosos. As revistas pornográficas de conteúdo leve podem ser encontradas na Índia, mas são um tabu. Elas ficam ocultas sob outras publicações nas bancas de revista, e são vendidas ao freguês quando este manifesta, em fala sussurrada, a intenção de comprá-las. Elas também atraem algumas poucas propagandas lucrativas.

"Há apenas umas poucas marcas que se dispõe a publicar anúncios nessas revistas", diz Paulomi Dhawan, que faz propagandas para a Raymond, a principal fabricante indiana de roupas. "Nós provavelmente obteríamos mais negócios com propagandas publicadas em revistas empresariais ou noticiosas, assim como nas revistas masculinas sérias."

E há também um outro problema. Se o indivíduo tem 26 anos, e mora com pais bisbilhoteiros, onde é que ele poderá esconder a revista?

"Na Índia urbana, a idéia de homens solteiros morarem sozinhos é bastante recente", explica Radhakrishnan. "Aqui, até se casar, a maioria dos homens mora com os pais. E assim que se casam, é a vez das suas mulheres se preocuparem com aquilo que eles lêem". Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos