11 de setembro e guerra no Iraque tornam Tempestade no Deserto uma lembrança distante

James Rosen
em Washington
do McClatchy News Service

Há 15 anos, os Estados Unidos e forças aliadas lançaram a Operação Tempestade no Deserto, promovendo a exibição mais estonteante de poder aéreo militar na história.

Tendo início nas horas que antecederam o amanhecer de 17 de janeiro de 1991 (tarde de 16 de janeiro nos Estados Unidos), a campanha aérea de 38 dias dizimou o exército de Saddam Hussein e tornou as tropas iraquianas uma presa fácil para o breve combate em terra que as expulsou do Kuwait.

"A lição Número Um da Guerra do Golfo é o valor do poder aéreo", declarou o primeiro presidente Bush.

Apenas 247 soldados americanos e aliados morreram na guerra, um número menor do que a previsão de 5 mil do comandante aliado, o general Norman Schwarzkopf, antes do conflito, um número que também era pequeno diante de outras estimativas que chegavam até a 50 mil.

Muitos especialistas militares e oficiais do serviço ativo -especialmente na Força Aérea dos Estados Unidos- acreditaram ter visto o futuro do conflitos: uma forma mais limpa e mais humana de combate baseada em ataques aéreos táticos usando bombas guiadas com precisão que poupariam um amplo derramamento de sangue civil e outros "danos colaterais".

Tal visão foi reforçada em 1999, quando aviões liderados pelos Estados Unidos removeram o homem forte da Sérvia, Slobodan Milosevic, de Kosovo em uma blitzkrieg aérea de 80 dias que novamente demonstrou a proeza tecnológica incomparável dos bombardeiros e caças americanos.

Hoje, mais de quatro anos após os ataques terroristas de 11 de setembro e quase três anos após o início da guerra no Iraque, tais exibições de poder aéreo americano parecem quase um eco distante.

No Iraque, 150 mil soldados em terra americanos estão travando uma dolorosa guerra contra uma insurreição enquanto os políticos em casa argumentam se há soldados suficientes em terra para o sucesso.

Apesar de aviões da Força Aérea e da Marinha ainda realizarem importantes missões de apoio e alguns bombardeios isolados, sua presença ofensiva no Iraque é quase insignificante.

Em várias partes ao redor do globo, pequenos grupos de forças das Operações Especiais e agentes da CIA rondam passagens nas montanhas no Afeganistão e outros postos avançados remotos. Atiradores militares americanos se posicionam em telhados à caça de guerreiros que não vestem uniformes, não dirigem tanques e se misturam nas populações civis.

"Quando você trava uma guerra de ocupação onde se patrulha bairros e seu oponente não é uma divisão de tanques, mas um homem-bomba suicida ou algumas poucas pessoas com armas leves, poder aéreo não tem um papel primário", disse Steve Kosiak, um analista de defesa do Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias em Washington.

"Não é possível enfrentar uma insurreição sem um grande exército", disse Kosiak. "As operações no Iraque e no Afeganistão são basicamente assuntos do Exército."

Enquanto perseguem um novo tipo de inimigo na guerra contra o terror do presidente Bush, as forças americanas voltaram a um tipo de guerra mais dura, mais antiga, baseada em solo em vez de muitos quilômetros acima.

"O paradoxo da guerra é que ela sempre foi tanto gloriosa quanto terrível", disse John Pike, fundador da globalsecurity.org. "O que tínhamos com o poder aéreo na primeira Guerra do Golfo e em Kosovo era a glória sem ver o horror. O que temos agora com a insurreição é o horror sem a glória."

Nas guerras orçamentárias muito diferentes no Capitólio, os generais da Força Aérea se queixam de aeronaves que estão envelhecendo, fazem objeção às reduções de novos aviões prometidos e alertam contra futuros cortes em programas que visam a construção de novas gerações de caças e bombardeiros.

Mas com as guerras no Iraque e Afeganistão drenando US$ 6 bilhões por mês dos cofres do Pentágono já estressados pelos crescentes custos de atendimento de saúde e pensão, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, está cortando pedidos multibilionários para novos aviões e navios.

No orçamento da Casa Branca que Bush enviará ao Congresso no próximo mês, e na Revisão Quadrienal de Defesa que está sendo finalizada por Rumsfeld, a Força Aérea está enfrentando cortes tanto de pessoal quanto de alguns de seus sistemas mais prezados de armas, segundo esboços dos documentos:

O número de jatos Raptor F-22, o novo caça stealth pronto para entrar em uso, está limitado a 183, menos da metade do número requisitado pelos líderes da Força Aérea, e um terço da frota de Eagles F-15, o caça dos anos 70 que substituirão.

A produção de aviões de transporte C-17 será limitada a 180 aeronaves, bem menos do que os mais de 222 que a Força Aérea diz precisar.

O número de membros ativos, da reserva e civis na Força Aérea será reduzido em 40 mil ao longo do tempo.

"A Força Aérea dos anos futuros será menor e menos capaz", escreveu Robert S. Dudney na edição atual da "Air Force Magazine". "O Pentágono considera a correção de curso como inevitável diante da necessidade de encontrar bilhões de dólares para financiar uma grande expansão das tropas terrestres do Exército e Corpo de Marines e forças das Operações Especiais para combater os terroristas no exterior."

O general Dave Deptula da Força Aérea, planejador do ataque aéreo na Operação Tempestade no Deserto, disse que muitos dos F-15 em serviço operam sob restrições de vôo devido a preocupações estruturais.

"Nossa força precisa ser recapitalizada", disse Deptula, atualmente comandante do quartel-general para Guerra no Pacífico da Força Aérea, na Base Hickam, no Havaí. "Eu estou usando atualmente aviões F-15 que têm mais de 30 anos. Toda vez que você sai com um deles, você não sabe o que acontecerá porque estes aviões estão voando a mais tempo do que já voaram antes."

Kosiak disse que também está sendo pedido a outros serviços armados que reduzam caras modernizações de armamento. E ele disse que a antiga divisão do orçamento do Pentágono -cerca de US$ 420 bilhões neste ano- entre os serviços não mudou muito desde a primeira Guerra do Golfo.

A Marinha e a Força Aérea recebem cerca de um terço do orçamento total, enquanto o Exército recebe de 25% a 30%. Apesar de ser o serviço maior, os navios e aviões de alta tecnologia da Marinha e da Força Aérea são bem mais caros do que os tanques e outros equipamentos do Exército.

Mas desde a invasão de março de 2003 no Iraque, o Congresso tem aprovado gastos militares de emergência totalizando US$ 247 bilhões. Grande parte do dinheiro suplementar tem sido destinado ao Exército, de forma que seu orçamento geral tem se equiparado ou ultrapassado o da Marinha e da Força Aérea pela primeira vez em décadas.

Kosiak está menos preocupado do que muitos líderes da Força Aérea com o fato do Pentágono estar encomendando bem menos Raptors F-22 do que o número atual de Eagles F-15, porque ele disse que os novos aviões são muito mais capazes e tecnologicamente avançados do que os antigos.

"A Força Aérea hoje é muito menor do que era durante a Guerra da Coréia ou na Guerra do Vietnã, mas é muito mais eficaz", disse ele.

Loren Thompson, diretor do Instituto Lexington de estudos militares, nos arredores de Washington, expressou preocupação de que devido ao atual foco no combate a terroristas e rebeldes, os líderes no Pentágono podem estar desviando seus olhos de ameaças futuras potencialmente maiores.

"A História nos diz que algum dia enfrentaremos outra grande ameaça", disse Thompson. "Eu temo que não estaremos prontos para ameaças realmente grandes de amanhã como a China, uma Rússia ou um Irã armado com armas nucleares."

Thompson disse que pilotos da força aérea indiana já estão superando os pilotos americanos em exercícios conjuntos nos quais seus aviões superaram em número as aeronaves americanas, além de terem sido atualizados com dispositivos digitais.

"É uma situação que pode ser facilmente imaginada caso estivéssemos voando contra a China em seu próprio espaço aéreo", disse Thompson. "A Força Aérea teme que seu equipamento esteja envelhecendo tão rapidamente que um dia em breve não será capaz de derrotar as forças aéreas inimigas. Tanto as defesas aéreas em solo quanto os caças no ar de nossos inimigos são muito melhores do que costumavam ser. Um punhado de caças F-22 não será suficiente para policiar todo o mundo."

Há 15 anos, às vésperas da Operação Tempestade no Deserto, Saddam Hussein cometeu o que revelou ter sido um erro de cálculo fatal.

"Os Estados Unidos se apóiam na Força Aérea", ele disse. "A Força Aérea nunca foi o fator decisivo na história da guerra."

Pike acredita que Saddam aplicou as lições da primeira Guerra do Golfo enquanto se preparava para a invasão americana de março de 2003. Pike citou um recém revelado documento de inteligência iraquiano mostrando que Saddam e seus principais assessores planejaram a atual insurreição meses antes da invasão.

"Eles reconheceram que nosso poder aéreo simplesmente arrasaria suas forças convencionais, que foi o que aconteceu na parte inicial de nossa campanha em solo", disse Pike. "Eles sabiam que a única chance que tinham era travar uma luta contra nós que marginalizasse nosso poder aéreo."

O resultado, na visão de Pike, foi uma insurreição que em breve entrará em seu quarto ano. Apesar de todo seu poder e proeza, ele disse, o poder aéreo americano tem um papel limitado a exercer na resposta militar americana à insurreição.

"Ela está em algum ponto entre a irrelevância e a contraprodutividade", disse Pike. "Desde a desintegração do exército iraquiano, a arma de preferência tem sido o atirador. Este é poder de fogo de precisão supremo. Um atirador sabe com maior freqüência perceber a diferença entre um combatente inimigo e um civil. Uma bomba guiada a laser não pode fazer isto. Um atirador produz dano colateral zero." George El Khouri Andolfato

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