Cientista vê mistério e beleza em flocos de neve

Jennifer Gish
do 'Albany Times Union'
em Albany, NY

Duncan Blanchard viu mil pontos de luz brilhando pelo ar, quando entrou em sua garagem naquela manhã.

Ele correu para seu apartamento, na comunidade de aposentados de Albany, para contar à Julie a respeito. Sua mulher há mais de 20 anos, não foi preciso que ele explicasse que vira uma coleção de minúsculos cristais de neve, que refratam a luz como milhares de pequenos prismas.

Ela respondeu imediatamente: "Poeira de diamante."

Mais tarde, Blanchard pegou um punhado de neve e transformou-o em uma lição de ciências. Dendritos são o tipo de cristais de neve que as pessoas chamam de flocos de neve, disse ele, uma renda delicada de gelo com seis pontos. E são formados quando a temperatura é bem fria, em torno de -15 graus Celsius.

Esses são razoavelmente difíceis de encontrar presos ao casaco, explicou. Em sua mão, disse, estava a neve que cai quando a temperatura está perto do ponto de congelamento. É feita de cristais pesados e simples que quebram quando atingem o solo e congelam unidos. O tipo de cristais de neve que as crianças adoram usar para fazer homens de neve, nada parecidos com o que se vê em cartões de Natal.

Na casa de Blanchard, flocos de neve decoram pratos, impressões de arte, ornamentos e livros -objetos reunidos em seus mais de 40 anos de carreira em ciência atmosférica, que não terminaram quando se aposentou em 1989 do Centro de Pesquisa em Ciências Atmosféricas da Universidade de Albany. Ainda hoje, aos 81 digita em casa artigos ocasionais para um site da Web sobre a neve.

"Gosto de ver que tipo de flocos estão caindo e gosto de vê-los romperem-se em meus braços", disse Blanchard.

Dentro do apartamento, ele pegou seu livro de 1998, "The Snowflake Man" (o homem dos flocos de neve), sobre o fazendeiro de Jericho, Vermont, Wilson Bentley. Ele esperou quase três décadas para escrever o livro, depois de desenvolver um fascínio pelo lado científico de um homem comum e, conseqüentemente, pelos flocos de neve.

Ele leu uma passagem do primeiro artigo de Bentley sobre a neve.

"Não existe uma estrada mais certa para a terra das fadas do que aquela que leva à observação dos formatos da neve", leu. "Para tal observador, a tempestade de inverno não é um fenômeno deprimente. Até a nevasca torna-se uma fonte do maior prazer e satisfação, trazendo a ele, do oceano de nuvens negras, formas que excitam sua alma com prazer."

"É um belo texto. Também me cativa a elegância e a beleza que via em cristais de neve", disse Blanchard, que tem títulos em engenharia, física e meteorologia. "Em meu livro, chamo de 'obsessão magnífica'."

Bentley era um fazendeiro que apreciava tanto a beleza da neve que usou um microscópio e uma câmera primitiva para tirar mais de 5.000 fotografias detalhadas de cristais de neve, de 1885 até sua morte, em 1931.

Ele foi o primeiro a dizer que "não há dois flocos de neve iguais", fato aprendido na infância e que se tornou uma referência freqüentemente usada por adultos para ressaltar a beleza da individualidade.

Blanchard foi apresentado ao trabalho de Bentley em torno de 1947, quando estava conduzindo uma pesquisa sobre as gotas de chuva para a General Electric, parte de uma elite de cientistas chamada Projeto Cirrus. Um colega entregou-lhe um artigo sobre os esforços de Bentley para medir as gotas de chuva, capturando-as em panelas de farinha. Na época, Blanchard não sabia o suficiente de ciência atmosférica para apreciar como o trabalho de Bentley era inovador, disse ele.

No entanto, ele se deparou com o trabalho de Bentley novamente uma década mais tarde, já mais envolvido na área, e compreendeu que Bentley era especial. Foi então que começou sua magnífica obsessão com este cientista comum.

Desde que era oficial da Marinha em Guam, em 1945, Blanchard inspirou-se pela busca científica quase mais do que pelos assuntos em si. Seus planos de fazer carreira militar terminaram em Guam, quando estava andando com amigos para o clube dos oficiais e reparou em um livro ao longo da trilha que tomaram.

Chamava-se "Great Men of Science" (grandes homens da ciência), e começou a lê-lo naquela noite, saboreando biografias sobre Aristóteles e Charles Darwin. Quando virou a última página, escreveu para sua família em New Lenox, Massachusetts para dizer-lhes que estava desistindo de uma carreira militar segura para se tornar cientista.

"Fui completamente tomado", disse ele. "Foi uma experiência quase religiosa."

Depois de ler a declaração do filho, sobre como a ciência é um "entretenimento magnífico", a mãe de Blanchard escreveu de volta perguntando se estava passando bem.

Ele iniciou a vida de cientista pouco tempo depois, uma carreira que o levou a escalar vulcões no Havaí para compreender o papel do sal marinho na chuva tropical; flutuar em um barco de pescaria na costa Sul da Islândia, para procurar partículas nas nuvens carregadas de cinzas vulcânicas e água marinha; e voar em um B-17 com um prêmio Nobel de química para poderem espalhar pedaços de gelo seco nas nuvens e fazer nevar.

Aposentado, seu amor pelo clima levou-o à Sociedade Histórica de Jericho, em Vermont, onde dá palestras inspiradas sobre Bentley a uma cidade de 4.000 habitantes, que usou os trabalhos do fazendeiro para gerar uma indústria turística e conhece bem a história.

"Aí vem Duncan, que renova nosso entusiasmo", diz Ray Miglionico, membro do conselho da sociedade histórica que dirige uma loja que vende itens relacionados a Bentley. "Acho que Duncan é fascinado pelo fato de que este homem, no meio do nada, mantinha registros... Para um cientista, isso é importante." Deborah Weinberg

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