Democratas atacam Bush às vésperas do discurso sobre o Estado da União

Edward Epstein
Em Washington
Do San Francisco Chronicle

Ao se prepararem, na última quinta-feira, para o discurso sobre o Estado da União que o presidente Bush fará na próxima terça-feira, os democratas o acusaram de ignorar as necessidades dos cidadãos norte-americanos comuns a fim de favorecer os seus interesses especiais.

"Depois de ter passado cinco anos fazendo acordos a portas fechadas, esperamos que o presidente ouça menos aquelas pessoas que assinaram grandes cheques para as suas campanhas políticas em Washington, e dê mais ouvidos àquelas que estão trabalhando com afinco apenas para preencher os cheques com os quais pagam as dívidas semanais", disse o líder democrata, senador Richard Durbin, de Illinois, durante uma reunião de antecipação à fala de Bush com a líder da minoria na Câmara, deputada Nancy Pelosi, de São Francisco.

Citando uma série de questões, como as novas regras para o fornecimento de medicamentos vendidos mediante prescrição médica pelo Medicare, a política energética, as reduções dos auxílios para estudantes universitários e a diminuição dos investimentos nos serviços de saúde, as lideranças democráticas acusaram Bush de ter ludibriado as classes média e baixa. Elas disseram ainda que o presidente transformou a guerra no Iraque em uma bagunça, e o convidaram a vir ao Congresso solicitar uma nova autoridade legal, caso deseje aprovar escutas telefônicas domésticas sem autorização judicial.

"Somente com uma liderança honesta e um governo transparente seremos capazes de construir um futuro digno da visão dos fundadores da pátria, dos sacrifícios dos nossos homens e mulheres que servem nas forças armadas, e das aspirações das nossas crianças", afirmou Pelosi, durante o evento, ocorrido no Clube Nacional de Imprensa.

Não foi surpresa o fato de Bush ter apresentado uma imagem bastante diferente do Estado da União.

Em uma entrevista coletiva à imprensa na Casa Branca, Bush afirmou que pretende oferecer uma agenda otimista que, segundo ele, protegerá os Estados Unidos de ameaças terroristas e manterá a economia crescendo.

Bush, que segundo os democratas tem sido um presidente altamente polarizador, pediu à oposição que trabalhasse com ele. "Reconheço que este é um ano eleitoral, mas acredito que somos capazes de trabalhar juntos para obter resultados", afirmou o presidente republicano.

Na verdade, vazamentos vindos do governo indicam que Bush poderá apresentar uma agenda bem modesta na terça-feira. No ano passado, os democratas conseguiram implodir a proposta basilar de Bush no sentido de criar contas privadas para o Social Security, sem que a proposta fosse sequer avaliada no Congresso.

A popularidade do presidente despencou no primeiro ano do seu segundo mandato, e os republicanos no Congresso estão incomodados com os escândalos de corrupção envolvendo o lobista Jack Abramoff. O estrategista político de Bush, Karl Rove, ainda está sendo alvo de investigação devido ao caso de vazamento da identidade de uma funcionária da CIA, que resultou na acusação de Lewis "Scooter" Libby, o principal assessor do vice-presidente Dick Cheney.

Pesquisas divulgadas na semana passada pelos jornais "Los Angeles Times" e "The New York Times" revelaram que a maior parte dos norte-americanos ainda desaprova o desempenho de Bush. Historicamente, os presidentes costumam obter um aumento dos seus índices de aprovação depois dos seus discursos sobre o Estado da União, que atraem mais do que qualquer outro evento político a atenção dos norte-americanos. Mas para os outros presidentes que fizeram o discurso quando enfrentavam dificuldades políticas, essa elevação da popularidade nas pesquisas durou geralmente muito pouco tempo.

Funcionários do governo que pediram que seus nomes não fossem divulgados disseram que, no seu discurso, Bush pretende pedir ao Congresso que expanda o programa de permissão de contas de poupança para os serviços de saúde, um sistema no qual os indivíduos podem fazer poupança para a cobertura das suas despesas médicas. Os democratas afirmam que, na realidade, o plano faria com que as despesas médicas da população aumentassem, ao retirar mais gente do sistema de seguro de saúde, elevando os riscos para o povo.

Várias das iniciativas de Bush envolverão projetos de lei que o Congresso até o momento ainda não aprovou, tais como uma proposta de "trabalhadores convidados" para os imigrantes, ou a continuidade de iniciativas como aquela que tem como objetivo conferir um caráter definitivo às reduções de impostos.

Os democratas dizem que as reduções de impostos promovidas por Bush têm favorecido os muito ricos, aumentado o déficit e inflacionado a dívida nacional para mais de US$ 8 trilhões (cerca de R$ 17,7 trilhões).

Bush disse ainda que não está propenso a solicitar ao Congresso a autoridade explícita para promover as interceptações telefônicas e de e-mails realizadas pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), alegando que, caso o fizesse, isso provocaria um debate parlamentar que informaria aos terroristas muita coisa sobre a coleta de inteligência realizada pelos Estados Unidos.

Os democratas afirmaram que Bush nada tem a temer quanto a solicitar mais autoridade ao Congresso, uma medida que poderia reduzir as desavenças cada vez mais furiosas sobre o que fazer quanto às supostas violações legais por parte do presidente. Alguns democratas solicitaram a criação de um conselho especial, um passo que poderia levar a procedimentos para um impeachment.

"Se o presidente acreditar que existem outras áreas nas quais precisamos atuar com o objetivo de proteger os Estados Unidos, ele terá uma resposta amigável e positiva dos membros do Congresso das duas alas políticas", afirmou Durbin.

Pelosi disse que Bush deveria estar usando os dispositivos da lei atual, que permitem que ele promova a interceptação de mensagens de suspeitos de serem terroristas e, a seguir, obtenha uma autorização judicial de um tribunal especial em um prazo de 72 horas.

"O procurador-geral alega que tal procedimento seria excessivamente trabalhoso. Eu digo: Contratem mais funcionários, mas obedeçam à Constituição dos Estados Unidos e à lei do país", disse ela.

Pelosi disse ainda que quando o Congresso voltar a atuar, na próxima semana, os democratas farão pressões pela votação do seu pacote de reforma ética, que, assim como aquele apresentado pelos republicanos, foi proposto logo após o indiciamento de Abramoff devido às acusações de recebimento de propina.

O partido minoritário também quer que o Congresso reveja o novo programa de benefícios para os pacientes que necessitam de medicamentos fornecidos mediante prescrição médica, a fim de permitir que o Medicare negocie com as companhias de remédios a obtenção de descontos vinculados à quantidade de medicamentos adquiridos.

Segundo Durbin, o novo programa, que teve início em 1º de janeiro, é uma bagunça. "Ele se chama Medicare Parte D, e aparentemente o D é a inicial de desastre", alfinetou o parlamentar.

Após o discurso de Bush na terça-feira, a resposta dos democratas será veiculada na televisão pelo novo governador da Virgínia, Tim Kaine. O prefeito de Los Angeles, Antonio Villaraigosa, fará a contestação democrata ao discurso de Bush em espanhol. Danilo Fonseca

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