Culto à comida leva EUA a surto de obesidade sem precedentes

Stephanie Earls
do Albany Times Union

Olá. Meu nome é Estados Unidos da América. E eu enfrento um problema de peso.

Dois terços de nós estamos perdendo a batalha contra o sobrepeso, e carregamos conosco cerca de 1,13 bilhão de quilos de excesso de gordura. E isso, conforme atualmente se sabe muito bem, está fazendo com que enfrentemos um risco maior de sofrer de diabetes do tipo dois, doenças das coronárias, pressão alta e outras enfermidades.

Alguns especialistas prevêem que, caso a taxa de obesidade continuar aumentando no ritmo atual, até 2040 quase todos os norte-americanos estarão significativamente acima do peso ideal. Colocando o problema de forma simples, estamos morrendo de tanto comer.

Adoramos a comida, detestamos a comida, tememos a comida e racionalizamos a comida. Ela é o nosso amigo, o inimigo e, acima de tudo, o nosso contexto.

"Nós usamos a comida em todas as situações. Quando estamos felizes, tristes, solitários", explica Janice Jazvinski, 47, de North Greensbush, Estado de Nova York, uma conselheira de emagrecimento que perdeu 113 quilos nos últimos oito anos, após ter passado a via inteira brigando com a balança. "Na minha igreja ninguém cogitaria trazer uma garrafa de vodka. Mas, comida? A comida é uma droga legalizada. É uma epidemia".

Mas como chegamos a este ponto? Um estágio no qual a nossa relação com a comida está tão destorcida que serão necessárias mudanças drásticas, tanto no nível individual quanto no nacional, para se promover uma reforma?

O que quer que tenha acontecido, aconteceu rapidamente. Durante milhares de anos, a raça humana foi capaz de comer, se exercitar e se manter mais ou menos em forma. No entanto, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, as cinturas começaram a aumentar.

Os especialistas identificam o início da nossa queda nesta era, quando as revoluções tecnológicas passaram a implicar em estilos de vida mais sedentários, e os norte-americanos se viram com mais comida à disposição do que aquilo de que fisiologicamente necessitavam - incluindo alimentos geralmente baratos e pré-embalados que podiam ser consumidos sem nenhuma complexidade.

Por volta da metade do século passado, a fast food entrou no cenário. Propagandas no estilo blitzkrieg se empenhavam em convencer os norte-americanos a comer, comer e comer - biscoitos crackers, refeições congeladas, twinkies (espécie de bolinho recheado). Com tanta abundância, veio a responsabilidade de dizer não a algumas destas novas e tentadoras opções.

Atualmente, os Estados Unidos produzem o equivalente a cerca de uma vez e meia a quantidade de alimentos de que cada cidadão do país necessita para sobreviver, afirma Morgan Downey, presidente da Associação Americana da Obesidade, um grupo sem fins lucrativos que procura promover a alteração das políticas públicas e das idéias relativas à obesidade.

"Nos Estados Unidos temos uma política de procurar fornecer a todos um estoque de alimentos rico, abundante e seguro", explica Downey. A superoferta de comida tem dois aspectos: "Ela torna os alimento mais baratos, melhores e mais disponíveis, e estimula o aumento das porções, a instalação de mais máquinas de venda de comida, etc".

Para piorar o problema, saltos na tecnologia ocorridos durante o século 20 - carros, telefones, computadores - significam que são necessárias menos calorias para que os norte-americanos sigam as suas rotinas diárias.

"Hoje em dia, a maior parte das ocupações exige pouca atividade física. Antigamente era comum que as pessoas queimassem muitas calorias durante o trabalho", diz Downey. Nas últimas décadas, a tecnologia entrou novamente em cena para engolir as poucas horas remanescentes para a queima de calorias.

"A nossa tecnologia fez com que desenvolvêssemos um número cada vez maior de dispositivos que economizam o esforço físico e, com isso, uma quantidade bem maior de aparelhos para o entretenimento - televisores, videogames, aparelhos de DVD", afirma Downey. "Quando se acumula até um pequeno excesso diário de calorias, digamos, dez calorias por dia, isso equivale a mais de meio quilo ao ano".

Downey chama atenção para o fato de que, embora a percentagem de norte-americanos acima do peso tenha permanecido mais ou menos consistente, crescendo proporcionalmente ao aumento populacional, o número de pessoas obesas disparou.

"O que isto nos diz é que estamos ficando cada vez mais gordos, mas o problema não se restringe ao sobrepeso", diz ele. "Mudar esta tendência significará modificar a forma fundamental como vemos os alimentos e o ato da alimentação. Significará aprender como viver com este problema e sem ele".

Em alguns casos, isso poderia significar olhar para a comida como um inimigo - mas um inimigo com o qual devemos fazer um tratado de paz, diz Kathleen Callahan, dietetista da Clínica de Nutrição Albany, do Hospital Saint Peter, em Albany, Estado de Nova York.

Ela percebeu que o início dessa mentalidade em evolução precisa modificar a tendência que prevalece atualmente.

"Creio que os indivíduos estão realmente começando a entender o impacto econômico deste fenômeno", diz ela. "Porém, creio que as mudanças precisam se dar em várias direções".

As campanhas amplas de conscientização pública, no estilo das propagandas contra o cigarro da década passada, poderiam ser um bom início.

"Tais campanhas foram muito bem-sucedidas no único Estado que não tem um problema de obesidade - o Colorado", afirma Callahan.

O Programa de Nutrição e Atividade Física do Colorado encoraja e coordena iniciativas antiobesidade e pró-exercícios em âmbito estadual.

É muito caro tratar uma nação que não está saudável - uma nação gorda. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças calcula que os custos do sobrepeso e da obesidade tenham sido responsáveis por mais de 9% das despesas médicas em 1998.

Os custos do problema de peso do país continuarão a se refletir nas empresas, e também nos funcionários das companhias, na forma de preços cada vez mais altos dos seguros de saúde, explica Callahan. E, segundo ela, isto pode ser o fator necessário para que se dê início a uma revolução de âmbito nacional pela perda de peso.

Isso porque, quando se trata de atrair a nossa atenção, a única coisa melhor do que roubar a nossa comida é roubar o dinheiro para a compra da nossa comida.

O excesso de peso no decorrer da história

Década de 1890

- O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) publica as suas primeiras recomendações dietéticas em 1894, na gestão de W.O. Atwarter, o primeiro diretor do Departamento de Estações de Experimentos do órgão. Ele diz: "Os males do excesso de alimentação podem não ser percebidos imediatamente, mas cedo ou tarde é certo que eles surgirão".

- A sopa condensada Campbell's chega às prateleiras, ao preço de dez centavos a lata.

Década de 1900

- Um café-da-manhã típico inclui bifes, assados e outras porções de carne, acompanhadas de peixe grelhado, batatas e ostras, assim como de ovos mexidos, biscoitos e pão.

- As barras de chocolate Hershey's são lançadas no mercado em 1900, e o hambúrguer e as casquinhas de sorvete fazem a sua estréia oficial na Feira Mundial de Saint Louis, em 1904.

- Os norte-americanos gastam quase a metade dos seus salários com comida.

Década de 1910

- Em 1917, a Administração de Alimentos, no governo Herbert Hoover, passa a regulamentar o fornecimento, a distribuição e a conservação de alimentos para o esforço de guerra. "A Comida Vencerá a Guerra", declara a Administração de Alimentos nos seus pôsteres e campanhas publicitárias.

- A Proctor & Gamble começa a fazer propaganda da Crisco em 1911, a primeira gordura vegetal hidrogenada. Além disso, dois wafers com sabor de chocolate e recheados de creme, batizados de biscoitos Oreo, também são lançados. Desde então, já foram consumidos quase 500 bilhões de Oreos em todo o mundo.

- O primeiro guia de alimentos da USDA, "Alimentos para Crianças Pequenas" é publicado em 1916. Os alimentos foram classificados em cinco grupos: leite e carnes, cereais, frutas, gorduras e comidas gordurosas, e açúcar e comidas açucaradas.

Década de 1920

- Um estudo feito em 1924 pelo Departamento de Estatísticas sobre o Trabalho indica que a classe trabalhadora gasta cerca de 38% do seu rendimento com comida, muito menos do que aquilo que era despendido pelas gerações anteriores.

- O setor de processamento de alimentos se torna a maior indústria manufatureira do país, superando a de ferro e aço e a de automóveis e têxteis, em termos de lucros.

- Walter Anderson, em parceria com Billy Ingram, abre a sua quarta lanchonete de hambúrgueres de cinco centavos, a batiza de White Castle, em 1921. Esta se torna a primeira rede de hambúrgueres e fast food dos Estados Unidos.

Década de 1930

- As restrições econômicas impostas pela Grande Depressão afetam a forma como os Estados Unidos comem. Em 1933, Hazel Steibeling, um economista do USDA especializado em alimentos, cria planos de alimentação baseados em quatro níveis de preço, para ajudar a população a comprar comida.

- A Wonderbread comercializa o primeiro pão automaticamente fatiado em 1930. Os chips de milho Fritos, o Kraft Macaroni e o Cheese and Spam chegam às prateleiras dos supermercados em 1937.

- Em 1937, os irmãos McDonald inauguram a sua primeira lanchonete drive-in.

Década de 1940

- O racionamento de comida é colocado em vigor na primavera de 1942 pelo Departamento de Administração de Preços, a fim de que seja feita uma distribuição eqüitativa dos estoques de alimentos, reduzidos devido à Segunda Guerra Mundial.

- Os "Victory Gardens", pequenas hortas para o cultivo de verduras, legumes e frutas, com o objetivo de suplementar a alimentação popular, se popularizam em todo o país.

- As Doses Diárias Recomendadas são publicadas pela primeira vez em 1941. Elas listam o consumo recomendado específico de calorias e de nove nutrientes essenciais.

- A Lei Nacional de Merenda Escolar entra em vigor em 1946, exigindo que as refeições fornecidas pelas escolas sejam balanceadas sob o ponto de vista nutritivo e que contenham as quantidades mínimas exigidas dos grupos específicos de alimentos.

Década de 1950

- O Conselho de Esportes e Boa Forma Física é criado em 1953, depois que o presidente Dwight D. Eisenhower fica ciente dos resultados de um relatório que indicam que as crianças norte-americanas têm pior forma física do que as européias.

- O programa Jack LaLanne estréia na televisão em 1951.

- A primeira cirurgia para a obesidade - a ponte de intestino delgado - é desenvolvida nos Estados Unidos em 1954. No entanto, efeitos colaterais sérios, incluindo diarréia crônica, cálculos renais e doenças hepáticas graves fazem com que esta técnica deixe de ser popular.

Década de 1960

- O homem norte-americano médio pesa 75,5 quilos, e a mulher média 63,6 quilos, segundo dado do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

- O programa "The French Chef", de Julia Child, estréia na televisão em 1962, e o McDonalds lança o hambúrguer Big Mac em 1968.

- Pop-tarts, Doritos, Pringles, Tang e Fondue são todos eles petiscos populares, especialmente entre os baby boomers (expressão pela qual são conhecidos os membros da geração nascida nos EUA entre 1946 e 1964, período de grande crescimento demográfico no país).

- Os Overeaters Anonymous (algo como "Glutões Anônimos") é criado em 1960; a Weight Watchers ("Fiscais do Peso") em 1963.

Década de 1970

- A "Dieta Revolucionária do Dr. Atkins", publicada em 1972, por Robert C. Atkins, se transforma em um best seller.

- Com um investimento de US$ 12 mil, os amigos Ben Cohen e Jerry Greenfield abrem a sua primeira sorveteria Ben & Jerry's, em Burlington, Estado de Vermont, em 1978.

- Os norte-americanos gastam cerca de 24% dos seus dólares destinados à alimentação comendo fora.

- Um estudo revela que 70% de todas as propagandas dirigidas às crianças promovem alimentos ricos em gordura, colesterol e açúcar.

Década de 1980

- As refeições congeladas Jell-O Pupping Pops, Cheetos e Healthy Choice são comidas populares da década, e o aspartame, um adoçante intensivo de baixa caloria, é aprovado em 1985.

- Cerca de 45% dos norte-americanos estão acima do peso ideal.

Década de 1990

- Uma pesquisa da revista "Esquire", feita com mil mulheres entre 18 e 25 anos, revela que 54% delas prefeririam ser atropeladas por um caminhão a se tornarem extremamente gordas. Dois terços delas disseram preferir ser medíocres ou estúpidas a ficarem gordas.

- A proporção de dólares dos norte-americanos destinada à aquisição de comida que é gasta com refeições fora de casa é de cerca de 47%.

- Jared Fogle dá início à sua dieta Subway em 1998: um sanduíche de peru "submarino" de 15 centímetros, chips de batata Lays cozidas e um refrigerante dietético no almoço, um sanduíche vegetariano de 30 centímetros no jantar. Nada de queijo, maionese ou óleos. Em um ano ele perde 115 quilos.

- Segundo um Relatório sobre Atividade Física e Saúde do chefe da Saúde Pública dos Estados Unidos (Surgeon General), 60% dos norte-americanos não se exercitam suficientemente para se manterem saudáveis, e 25% são totalmente sedentários.

Década de 2000

- Cerca de 60% da população está acima do peso ideal. O homem norte-americano médio pesa 86,7 quilos, e a mulher média 74,6 quilos. O Centro de Controle de Doenças estima que a obesidade está rapidamente se aproximando do tabaco como a maior causa de morte passível de ser prevenida nos Estados Unidos.

- Os hambúrgueres são 23% maiores, e as doses de refrigerante 52% mais volumosas do que há 20 anos.

- Os consumidores pagam US$ 34 milhões anualmente por produtos dietéticos.

- Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), as crianças nos Estados Unidos assistem à televisão diariamente durante cerca de quatro horas. Os estudos indicam que as crianças vêem uma média de uma propaganda de comida a cada cinco minutos em que assistem à televisão, podendo ver até três horas de comerciais de alimentos por semana.

(Fonte: "Health Education Quaterly" - 1982; 9: 174-189) Danilo Fonseca

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