Caubóis gays não são raros na América profunda

Tracy Idell Hamilton
San Antonio Express-News
Em San Antonio, Texas

Ele já ganhou 33 títulos em rodeios nacionais e mundiais, mas esse campeão de 32 anos de San Antonio diz que não devo colocar seu nome no jornal. "Eu me assumi para minha família e meus clientes", ele disse recentemente em sua fazenda em South Bexar, onde treina cavalos para outros competidores de rodeios. "Mas não posso envergonhar minha família. Não quero atirar na cara deles."

George --ele permitiu o uso de seu primeiro nome-- faz parte de um grupo que muitas pessoas ainda pensam ser uma raridade. George é um caubói gay. Ele ainda não assistiu a "O Segredo de Brokeback Mountain", o filme que pela primeira vez uniu as palavras "gay" e "caubói" na mente da América heterossexual.

Muito já se escreveu sobre como esse "filme de caubóis gays", que tem um apelo geral por ser uma história de amor universal, modificou uma das mais antigas e amadas imagens americanas, a do vaqueiro icônico, lacônico, de vida dura.

Feito com apenas US$ 14 milhões, o filme está prestes a superar os US$ 100 milhões em receitas brutas mundiais. Ele conquistou oito indicações para o Oscar, ganhou o Globo de Ouro de melhor filme e provocou inúmeras piadas de fim de noite.

Mas o que dizer da coisa verdadeira? Os gays --e as lésbicas-- de todo o país que trabalham em fazendas, criam cavalos, gado ou competem em rodeios?

Homens como George, ou Mario Borjas. Este é uma criatura ainda mais rara do que George: é um caubói gay assumido. "Levei muito tempo para me assumir", disse Borjas no celeiro de sua fazenda, que ele divide com David Ewell, seu parceiro há quase 23 anos, seu filho Austin, quatro cavalos e oito cachorros.

"Muito tempo", porém, foi só até Borjas completar 21 anos. Ele não teve de viver a mentira que tantos gays sentiam que tinham de viver na época, uma vida em que uma mulher ingênua ou filhos inocentes muitas vezes saem feridos.

Em vez disso, ele e Ewell levaram uma vida muito parecida com a de qualquer outra família rural. Borjas levanta antes do sol nascer para alimentar e dar água aos cavalos, depois vai para o trabalho. Ewell, diretor executivo da Fundação da Aids de San Antonio, acorda mais tarde e faz o café da manhã para Austin, de 5 anos, depois o deixa em uma creche antes de ir para a cidade.

Austin, que foi adotado no Camboja, anda a cavalo desde que tinha 2 anos. Sua montaria é um gentil palomino que ele batizou de Kiss (Beijo). Nos fins de semana Borjas costuma conduzir longas cavalgadas com vizinhos, parentes e amigos.

Cinco anos antes de Austin entrar na vida deles, Borjas e Ewell foram tema de um documentário curto, "Horse Dreams in BBQ Country" [Sonhos Eqüestres no País do Churrasco], sobre sua vida campestre juntos, aparentemente única. Enquanto assistiam ao documentário premiado pela primeira vez em seis anos, riam de si mesmos: Borjas competindo no concurso de laço no rodeio de San Antonio, Ewell com seus cabelos esvoaçantes.

Embora Borjas diga que raramente sentiu discriminação, a homofobia ainda existe no mundo supermasculino dos vaqueiros e rodeios. Num evento de rodeio recente, um jovem competidor passou o braço sobre os ombros de seu colega ao ouvir a menção de "Brokeback Mountain"; o amigo rapidamente afastou seu braço, enquanto insistia irritado que não existe um caubói gay, especialmente no circuito de rodeios.

O outro competidor, que disse estar no circuito há dez anos, manifestou surpresa quando seu colega admitiu que conhecia um gay que já foi campeão mundial. Ele expressou a esquizofrenia que muitos parecem sentir sobre o assunto.

Primeiro ele disse que a idéia "o deixava furioso", mas minutos depois disse que realmente não se importava. Nenhum dos peões quis dar seu nome. Um deles sugeriu que deveriam ficar em sua própria turma.

Muitos se surpreendem com a existência de algo chamado Associação Internacional de Rodeios Gays, a organização guarda-chuva para quase duas dúzias de clubes de rodeio dos EUA e Canadá que representam milhares de membros.

O Texas tornou-se o terceiro Estado americano, depois de Nevada e Colorado, a organizar um rodeio gay, e no final dos anos 80 nasceu a Associação de Rodeio Gay do Texas. Desde então o grupo já levantou mais de US$ 2 milhões, principalmente para instituições de combate à Aids.

Dos que também competem em rodeios "caretas", George diz que a maioria dos competidores que sabem sobre a orientação sexual dele ou de outros vaqueiros gays não se importa, "desde que você não seja exibido" ou afeminado demais, o que segundo ele é raro. "A maioria dos caras que competem são bem machões."

"Você ficaria surpreso em saber quantos astros de rodeio gays existem", ele disse, e citou mais de um campeão conhecido. "É um segredo aberto." "Você ficaria surpreso em saber quantos astros de rodeio são gays" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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